Á maneira que o miguelismo fôra crescendo, antes de Torres e Braga, crescera em Madrid a vontade de intervir, pois, além das instancias do conde de Thomar que os hespanhoes queriam para seu descanso vêr restaurado ao governo em Lisboa, (Livro azul, Southern a Palm. 28 de nov.) havia um medo positivo das faladas combinações entre o miguelismo e o carlismo do conde de Montemolim. (Bulwer a Palm. Madrid, 13 dez.) Assim, no meiado de dezembro, a Hespanha soffreada pela Inglaterra e reduzida a observar a fronteira com o seu exercito e a abastecer e auxiliar o de Cazal em Traz-os-Montes, (Southern a Palm. 28 nov.) declara terminantemente que intervirá, com ou sem o auxilio das potencias, se o miguelismo continuar a crescer. (Bulwer a Palm. Madrid, 13 dez.) A França falava pela bocca da nação nossa visinha; e perante o miguelismo, aberta, publicamente alliado aos setembristas depois de Torres, a Inglaterra teve de ceder. O embaixador em Madrid apenas conseguira que previamente o avisassem antes de os exercitos se pôrem em marcha. (Ibid.) No fim do anno de 46 a intervenção, pedida no ultimo trimestre, já parece o caso decidido que veiu a ser no meiado de 47.

O pobre Espectro, estonteado, inconsequente, enrouquece para proferir palavras de paz. Tambem elle teme a victoria dos seus: «Para que é incitar o povo a que entre no palacio dos nossos reis e ahi pratique acções de cannibaes? O paço dos nossos reis é um foco de corrupção politica, mas não o é de corrupção moral. Não ha rainha mais virtuosa como esposa, nem como mãe de familias». (n. 27) O Espectro, cabisbaixo, com a voz que fôra eloquente, parece pedir perdão do clamor que levantára outr’ora, exigindo a abdicação d’essa propria rainha e a limpeza da caverna de Caco. Porque é uma tal mudança? Foi o inglez (Seymour) que veiu (fevereiro) a vêr se conseguia compôr os partidos em armas, a vêr se evitava ainda a acção da Hespanha; e o Espectro, e a gente que escolhera para seu orgão a voz de uma sombra, na esperança do poder, moderavam a furia, mudavam o rumo. Mas como rainha e governo se recusaram a pactuar com a revolta (abril), a voz do Espectro voltou a vilipendiar aquella que tres mezes antes era o modelo das virtudes:

A côrte pela sua parte, toda sybarita, toda gastronomica, entra ainda na lucta com intenção doble. Se vence, o systema absoluto triumpha; se succumbe, acceita as condições e entrega os cadaveres dos seus amigos em holocausto á nacionalidade offendida, á moral publica ultrajada ...

E quando, afinal, a Inglaterra teve de annuir cabalmente ás exigencias da França-Hespanha, consequindo apenas tomar tambem parte na intervenção; quando as forças extrangeiras chegaram, para que os chefes da revolta, não sabendo que fazer d’ella, se lhe entregassem, fingindo obedecer á força, o Espectro, voltando a achar a eloquencia dos primeiros dias, dizia nos ultimos:

A côrte, o ministerio, o rei, tudo isso desappareceu. Não caíram ás nossa mãos, que nol-as ataram; mas sumiram-se na voragem de um protocollo. Isso que ahi se chama rei é um espantalho, os ministros são os lacaios de lord Palmerston. Foi a rainha, foram os Cabraes, quem nos vendeu, quem nos trahiu ... (n. 63. julho, 3)

Não seria acaso tambem o conde das Antas, indo metter-se com toda a sua gente na bocca do lobo inglez que viam aberta á barra do Douro? Não seria tambem Sá-da-Bandeira, por não querer passar de Setubal a Lisboa? Não seriam tambem os chefes da revolução armada, politicos, generaes, cortezãos em vez de tribunos, com medo da demagogia que passaria por sobre elles, se acaso consummassem a victoria? A intervenção servir-lhes-hia, se a Inglaterra a fizesse a favor do seu partido: como a fez a favor do inimigo, a intervenção era um crime.

Quanto este espectro é com effeito a imagem sumida da viva personalidade do tribuno Passos em Belem! Dez annos bastaram para mumificar a democracia; n’esses dez annos, os seus chefes tinham fechado o Arsenal, dissolvido os batalhões, entregando-se nos braços da ordem. Dez annos (32-42) tinham bastado tambem para que o desenvolvimento necessario das premissas postas na legislação liberal apparecesse: a liberdade era um absolutismo da nova aristocracia dos ricos nascida da concorrencia; e em vez de Mousinho, um Bentham, apparecia imperando um homem duro e pratico, o conde de Thomar, imagem ossea de um systema já consolidado.

Democratas, liberaes, eram agora todos, as sombras dos que tinham sido. A miseria crua do paiz reduzia-os á condição de seres famintos, amesquinhando-lhes os caracteres, baixando-lhes a estatura, avolumando só a podridão natural das covas. Que o extrangeiro viesse a este cemiterio afastado, mandar a cada espectro para a sua tumba, acabar a funebre revolta de cadaveres, não admirava ninguem, porque a liberdade trouxera-a elle. Estava obrigando a manter o systema. Mas, dez annos havia, o extrangeiro encontrara cá um povo singular, extravagante, um dos sete dormentes da Europa, inaccessivel ás idéas novas, mas vivo, abraçado de joelhos ao throno-altar. Agora, voltando, o extrangeiro só via tambem o espectro d’esse povo antigo: sombras errantes falando uma linguagem archaica tremida nos labios brancos de frades rotos e senectos; cordões de mulheres luctuosas ajoelhadas perante os nichos allumiados, resando «por alma dos nossos irmãos que foram mortos n’esta rua!»

Uns dos mortos voltavam para sempre aos eternos jazigos; outros fugiam do velho cemiterio das doutrinas, deitavam fóra o lençol da liberdade, e a correr batendo os ossos, vestiam as fardas regeneradoras lantejouladas, e, mirando-se em trajos de vivos, ficavam crendo ter resuscitado.[32]

4.—A PRIMAVERA DE 47