Encetaremos a narrativa dos casos d’esta segunda e ultima epocha da guerra dizendo o que sabemos das relações entre setembristas e miguelistas armados, depois do desbarato de Macdonell em Braga. Fôra a 28 de novembro que o caudilho, levantando abertamente a bandeira da restauração de D. Miguel, entrara na cidade catholica, primaz das Hespanhas. Com o escocez andavam as guerrilhas do padre Casimiro e do padre Manuel Agra contando ao todo de dois a tres mil homens, dominando no Minho e em parte de Traz-os-Montes, como dissemos. Não lhes faltava dinheiro: davam cinco moedas a cada cavalleiro e uma a cada infante armado, que se apresentassem, pagando o elevado soldo de 240 réis á cavallaria, de 160 réis á infanteria. Cazal dispersou e anniquillou, segundo contámos, esse fóco miguelista de Braga, quasi ao mesmo tempo que Saldanha derrotava em Torres os setembristas; e a crueldade do general no Minho não foi menor, antes excedeu a do governo de Lisboa. Cento e quarenta pessoas foram trucidadas em Braga pelo vencedor que não perdoou aos prisioneiros. (Livro azul, Southern a Palm., 5 de jan.)
Macdonell conseguira fugir, apenas acompanhado pelo seu estudo-maior, pondo-se a caminho de Traz-os-Montes, onde um piquete de cavallaria da divisão de Vinhaes, acossando-o, o prendeu e matou nos ultimos dias de janeiro. (Azevedo, Dois dias, etc.)
Da morte de Macdonell, com o qual acabava a sedição francamente restauradora de D. Miguel, começa uma historia nova com o anno de 47. A crueldade de Cazal em Braga, a morte do cabecilha, foram o rebate para um levantamento geral, mas menos atrevido, do miguelismo. O padre Casimiro esperava o apparecimento de guerrilhas carlista do outro lado da fronteira, para organisar as d’este; mas, ao mesmo tempo, os antigos generaes Povoas e Guedes eram enviados ao Porto para tratarem com a JUNTA as bases de uma alliança. Diversas foram as versões correntes. Uns falavam da simultanea abdicação de D. Miguel e D. Maria II o tio e a sobrinha, noivos de outro tempo, acclamando-se D. Pedro V com o governo representativo, mas gabinete miguelista. (Livro azul, Southern a Palm., 5 de jan.) Outros diziam que a JUNTA se disposera a acclamar D. Miguel em pessoa, e que para tanto já Manuel Passos partira para Londres, o que era falso. (Azevedo, Dois dias, etc.)
Era comtudo verdade a fuga de D. Miguel, de Roma, e de crer que projectasse vir a Portugal. (Thomar a Bulwer, Madrid, 29 de dez.) Esta noticia enthusiasmava muita gente no Porto, embora os planos em que se falava provocassem descontentamento em alguns corpos. Esses planos dizia-se consistirem na entrada de dois generaes miguelistas na JUNTA, no subsidio de 5:000 homens, na acclamação de D. Miguel rei constitucional, na successão da corôa á casa Cadaval. (Livro azul, cartas do consul Johnston, 1, 7, e 11 de janeiro) Quaesquer, porém, que tivessem sido as verdades traduzidas por esta serie de boatos, o facto é que, no meiado de janeiro, a situação definia-se claramente. Punham-se de parte as combinações, sem se chegar a convenio de especie alguma. A JUNTA acceitava o auxilio incondicional dos miguelistas, deixando-lhes os logares e patentes, caso annuissem ás decisões que ella tomasse depois de vencedora. (Ibid. Southern a Palm. 30 de jan.) Era a coalisão em armas. E Povoas saíu logo a campo, da sua casa da Beira, proclamando a religião catholica apostolica romana, a nação portugueza e o seu heroico pronunciamento; (V. proclam. de 17 de jan.) deixando, como se vê, em aberto todas as questões politicas e dynasticas. Acaso á sombra do equivoco se vencesse o que não vencera a denodada affirmação.
Nem D. Miguel, nem uma parte grave do seu partido no reino, parece que approvavam este proceder dubio e politico. A tradição custa a morrer, e a tradição legitimista era pela nitidez das affirmações. D. Miguel escapara com effeito de Roma disfarçado em crendo de um capitão Bennett, e a policia ingleza sabia do seu esconderijo de Londres; sabia que pensava partir para Portugal, pôr-se ao lado de Macdonell no Minho. (Ibid. Palm. a Bulwer em Madrid; 16 de fev.) É desde então que o ministro inglez principia a acreditar no miguelismo. Elle espera comtudo que a derrota de Macdonell, noticia que acabava de chegar, faria mudar de tenção o pretendente; (Ibid.) e com effeito assim foi, o que leva a crêr que o principe não approvasse a politica da coalisão, já anteriormente condemnada nas circulares de Saraiva.
Coalisado com a JUNTA, o miguelismo perde a individualidade politica, sem por isso deixar de ser um risco; porque se a JUNTA chegasse a vencer, teria de começar a debater-se com os seus alliados: os miguelistas á direita, os demagogos á esquerda; uns accordando em pedir D. Miguel, outros D. Pedro V: ambos a queda da rainha, ambos uma revolução que levaria Portugal, ou á restauração do absolutismo, ou á implantação de uma republica. Qualquer das hypotheses era antipathica á Inglaterra, que desde então reconheceu a necessidade de intervir. Mas essa intervenção desejava ella que fosse um pacto, um accordo entre os partidos constitucionaes belligerantes, e não viesse alargar a Portugal a influencia da França doutrinaria, já exclusiva em Hespanha, defendendo a todo o transe o partido cartista e a clientella dos Cabraes.
Depois de Torres-Vedras, o conde das Antas evacuou Santarem. A 27 estava em Alcobaça, retirando sobre Coimbra. Saldanha perseguia-o, (Livro azul, Wylde a Palm. 29 dez.) sem força para o bater. O resultado da victoria era nenhum, porque, passada a primeira impressão, a revolta, generalisada a todo o reino, em vez de amansar, crescia.
Foi então que Povoas desceu da serra da Estrella, a vêr se podia obrigar o general de Lisboa a não chegar ao Porto. Saldanha parou no Sardão, e Antas entrava na cidade da JUNTA preparando a defeza (Azevedo, Dois dias, etc.) Ia repetir-se um cerco? Ia outra vez haver o que houvera em 32-3? Haveria, se agora, como então, os do Porto podessem obter de fóra soldados, munições, dinheiro. Torres-Vedras limpara de inimigos o centro do reino; mas, emquanto o Porto se mantinha firme, e, no Minho disputado, Cazal e Antas jogavam o xadrez, no sul do Tejo succedia proximamente o mesmo entre Schwalbach e o conde de Mello que em vão atacava Estremoz (27 de fevereiro) sendo obrigado a retirar sobre Marvão, (Ibid.) esperando. Saldanha, entretanto, avançava até Oliveira-de-Azemeis; e Antas, abandonando o Minho, recolhia ao Porto, friamente recebido pelos junteiros que o accusavam de nada ter feito. (Ibid.) E Saldanha que fazia? Nada tambem, porque lhe faltava tudo. Pedia para Lisboa armas e dinheiro, mas o governo não os tinha para lh’os dar. «Se isto continua, o caso póde ser grave». Já o povo de Braga arrazara a casa onde Cazal dormira, e a JUNTA fôra acclamada logo que o vencedor voltara costas, e os ex-frades e fidalgos preparavam uma insurreição medonha. O caso póde ser grave ... (Livro azul, Wylde a Palm. 18 de jan.)
O mez de janeiro consumiu-o a JUNTA preparando-se para o cerco, lançando contribuições sobre os bancos, trabalhando activamente na defeza. A 26 estava acabado o primeiro circulo de barricadas e muito adiantado o segundo; mas as deserções continuavam: dez ou doze homens por dia. (Livro azul, Cartas do consul, 1, 7, 11, 26 de jan.) E ao mesmo tempo que Antas perdia o tempo no Minho, Cazal recebia pela fronteira da Galliza centenas de recrutas hespanhoes e material de guerra. (Ibid. Carta de Vigo, 24) Sem poder intervir directamente, a Hespanha fazia agora aos cartistas o que em 26-7 fizera aos apostolicos. Em Vigo fundeavam duas fragatas, armadas, apparelhadas, promptas a saír para o Douro á primeira ordem. (Ibid.) A JUNTA ainda se mantinha duvidosamente fiel á rainha, mas ameaçava desthronal-a, se Saldanha avançasse do Sardão, e o ministerio teimasse em não caír. Os meios não faltavam no Porto, mas já se sentia no Minho uma carestia insupportavel: o milho regulava a 520 o alqueire. (Ibid. Cartas do consul, 21 jan. 17 fever.) Saldanha, avançando até Azemeis, obrigara Antas a recolher ao Porto: que ia haver? Um cerco? Naturalmente.