Resolveu-se, pois, repetir a historia anterior; e para abreviar os episodios, começar desde logo pela expedição do Algarve confiada a Sá—o Terceira de agora. A divisão, forte de mil homens, embarcou (28 de março) indo tomar terra em Lagos, atravessando livremente o Alemtejo, de correrias celebre, vindo entrar em Setubal onde se reuniu ás forças do conde de Mello, inactivas desde fevereiro. Mas para cobrir a capital, já o governo destacara Vinhaes para o sul, fortificando-se nas collinas de Azeitão que, prolongando a serra d’Arrabida, dividem as duas bacias do Tejo e do Sado. No Vizo, comoro das vertentes austraes, ás portas de Setubal, feriu-se uma batalha (1 de maio) cujo vencedor se duvidou quem fosse. Se a vantagem ficou por alguem, não foi pelo governo; mas já a esse tempo os inglezes protegiam a rainha, como vamos vêr, impedindo o general rebelde de proseguir. Desejava, pedia elle outra cousa? Quereria entrar em Lisboa vencedor, para ter de se voltar, nas suas ruas, contra os que commandava? para defender o throno, como em 38? Não, decerto. A ponto de vencer, via-se perdido; e protestando, exultava por achar os inglezes a vedar-lhe o passo, obrigando-o a render-se.

No Porto succedia o mesmo ao conde das Antas. Felizmente os inglezes tinham bloqueado a barra (27 de maio): estava chegado o momento de saír da posição falsa em que se collocara. Nem a rainha nem o ministerio cediam, e para os chefes a revolta não tinha mais valor do que uma ameaça. Jogando com fogo democrata, miguelista, temiam a labareda que tinham soprado. Quem viria apagal-a, sem os expôr ao labéo de traição ou cobardia? Pois não chegava a tempo a intervenção, tão necessaria a Lisboa como ao Porto, ao governo como á JUNTA? Abençoada esquadra ingleza! providencial bloqueio do Douro!

Porque, se não fossem ambos, era forçoso vencer. No dia 20 tinham chegado os vapores de Setubal para conduzir segunda expedição á ultima campanha. Os quatro a cinco mil homens das excellentes tropas do conde das Antas deviam desembarcar na Extremadura, cortando a Saldanha a retirada de Lisboa, ao mesmo tempo que Povoas o acossaria do lado das Beiras. (Azevedo, Dois dias, etc.) Esse plano de campanha parecia feito a proposito para terminar tudo conforme convinha. Tres dias havia que os inglezes bloqueavam a barra, e sabia-se isso muito bem no Porto,—como se ignoraria?—quando a 30 o conde das Antas embarcou a sua divisão e a sua pessoa. Ás seis da manhan do dia seguinte, os vapores saíam a barra ... para entrar no seio salvador da esquadra ingleza. Prisioneiros, protestando em boas e graves phrases, viam-se salvos. Os inglezes foram deixal-os em S. Julião, na barra de Lisboa, presos pro-fórma, já amnistiados por uma convenção.

Ao mesmo tempo uma divisão hespanhola transpunha a raia do Minho e Traz-os-Montes, e Saldanha avançava de Oliveira de Azemeis sobre o Porto. Que restava da revolta? A JUNTA ainda, em agonias.


Mas nada sabemos da capital, n’esse primeiro e funebre semestre de 47. Vimos o que a gente armada fez, mas ignoramos o que o gabinete fazia, e que sorte a guerra dava á miseranda população de Lisboa.

Desde o principio do anno que as cadeias estavam cheias de setembristas e miguelistas; desde então as emigrações ferviam. (Livro azul, Southern a Palm. 10 de jan.) O governo communicára ás potencias a decisão de bloquear o Douro, mas isso não passava de uma fórmula, porque a marinha portugueza acabara de todo, e os poucos vapores que havia tinham caído em poder dos rebeldes, senhores do mar. Mas o mais triste, o mais grave, era o caso das notas do banco, infernal papelada que, engordando os rebatedores, levava a miseria a toda a parte. Cada moeda já tinha o desconto de mais de tres pintos; e apesar das ameaças só recebia notas quem não podia evital-as. Papeis, inscripções, não tinham compradores. As acções do banco tinham baixado de 385 a 300 mil réis: só os homens da Confiança, a quem o decreto de 19 de novembro salvara, viam subir as acções de 15 a 22, á custa do povo arruinado com o sacrificio da emissão do banco.

O visconde de Algés, no Thesouro, achava-se perdido, porque de fóra não vinha dinheiro, e em casa não o havia antes—quanto mais agora, no calor da sedição. Se nem para Saldanha chegava! Em Madrid estava embaixador o conde de Thomar e para elle se voltavam os olhos, se dirigiam as supplicas e pedidos de conselhos. Não seria possivel arranjar em Madrid um emprestimo? Em Lisboa preparar-se hia tudo: custava pouco. Supprimiam-se as decimas das inscripções, externas, internas; (Dec. de 29 jan. e 25 fever. revogando o de 21 de agosto) e para pagar o coupon do 2.º semestre de 46, em divida, creavam-se bonds (600:000 lib.) garantidos pelo rendimento das alfandegas. Quanto ás notas, revogavam-se as penas, e o Estado reconhecia-as como suas: um verdadeiro papel-moeda. Não temesse o povo: iam-se carimbar e em breve chegaria ouro bastante para as queimar todas! (Decr. 1 de fever. art. do Diario)

Com effeito, o conde de Thomar em Madrid conseguira alguma cousa. Os banqueiros propunham-se dar tres milhões esterlinos a 43 com a commissão de dois e meio. Um ovo por um real. Mas ... davam no primeiro anno só um milhão, o resto depois. Um milhão seja: tudo o que vier ... Mas «queremos tres annos de juros adiantados».—O governo, desanimado, caíu em si. Um pouco mais, e os banqueiros, cobrando adiantados os juros, não dariam nada, ficando credores de muito. O que promettiam emprestar vinha a saír a 25,5 por cento. (Southern a Palm. no Livro azul, 31 jan.)

O governo não teve coragem para tanto: o ministro sumiu-se, deixando o lugar a Tojal. (20 de fever.) E o rebate das notas a crescer, e gemendo todos com fome, e a bordo do Audaz cobertos de feridas os infelizes prisioneiros de Torres, á espera do degredo! E uma rebeldia surda a sussurrar por todos os cantos!.. No governo-civil o marquez de Fronteira, com seu irmão D. Carlos Mascarenhas á frente da guarda municipal, mantinham difficilmente uma ordem similhante á de Varsovia. Lisboa parecia um acampamento; tudo estava armado em batalhões de côres e feitios diversos: voluntarios, fusileiros, caçadores da rainha, caçadores da CARTA. Havia exercicios constantes, e paradas, e revistas, e o commandante em chefe, D. Fernando, que não nascera para emprezas bellicosas, via-se forçado a arrastar a sua indolencia, correndo os quarteis, vivendo n’um estado penoso de agitação por cousas que, bem no fundo, lhe eram, ou antipathicas, ou indifferentes. E por entre esta borborinhar de tropas mais ou menos grutescas, pullulavam os turbulentos, os homens de má-nota, emprezarios de bernardas. Aos empregados não se pagava desde outubro, em Lisboa que é uma cidade-secretaria. (V. Livro-azul, Southern a Palm. 15 fever.) A desordem, a excitação, a fome, traziam á flôr do charco social os detritos humanos das cidades; e como nem na revolução, nem na reacção, havia profundos motivos moraes, o caracter da crise, em vez de ser tragico, era grutesco; e Lisboa que já fôra em 28 uma Jerusalem, era em 46 como Byzancio cercada por um turco—setembrista.