Vendo chegar Tojal, o commercio bateu palmas. (Ibid. 26 fever.) O homem valia e trazia comsigo boticadas novas: «absurdo esperar dinheiro de fóra, quando a exportação, sempre inferior á importação, era agora, com a guerra, nulla; o ouro fugia para pagar o que compravamos fóra; a guerra engulia o resto, e não lhe chegava; a desconfiança aferrolhava as economias; havia juros em divida, e o Thesouro vazio, e o curso-forçado das notas expulsava o ouro do mercado. Uma chimera o emprestimo! Arranjassemo-nos com a prata de casa.» (V. Diario, art. fever.) Mas que prata? se havia apenas cobre e falso! A prata eram notas, notas infames com o rebate de metade! (2:250, abril) Moderar o curso-forçado, fazendo entrar só por metade as notas nos pagamentos; dar curso legal ás moedas americanas e hespanholas de ouro e prata; elevar a 50 contos por mez a amortisação das notas; crear um emprestimo interno de 2:400 contos para abreviar a supressão das notas—eis ahi o recipe de Tojal. (V. Dec. 10 março) O doente vomitou-o, ou não o quiz tomar: o medicamento interno não valia mais do que o externo. Farejaram-se os armarios e veiu de lá o Dulcamara com drogas antigas, da velha alchymia: o emprestimo seria uma loteria, com premios de papel, e bilhetes pagos a notas. (Decr. 9 de abril) A fazenda receberia em notas tudo o que lhe deviam fóra de Lisboa: isto é, onde o inimigo cobrava os debitos. (Decr. 6 de abril) Os titulos do emprestimo manso de 27 seriam convertidos em inscripções sob condição de pagamento de um quarto nominal em notas. (Decr. 23 de abril) E por fim os papeis andavam tão de rastos, tão rebatidos, que se reduziu a proporção d’elles a um terço nos pagamentos. (Decr. 15 de junho)

Positiva fome lavrava em Lisboa no segundo trimestre do anno funebre de 47. Para lhe accudir distribuiam-se diariamente 2:500 pães. (V. as listas e contas no Diario) E o vasio dos estomagos, e exaltação das cabeças, o desespero do governo ameaçado, batido por toda a parte, fazem d’essa epocha um melodrama, lugubre nos soffrimentos do povo, na morte dos soldados, entremeiado de fomes e cadaveres, de intrigas e miserias, de sangue e lodo: farrapos de pobreza universal, pobreza de genio e de caracter, pobreza de dinheiro e de força. Era verdadeiramente uma lucta de espectros.


Como sombras se tinham visto dissipar-se muitas forças do governo. A columna que em Alcacer defendia Lisboa da patuléa do Alemtejo, fôra uma noite aprisionada inteira. A tripulação do Porto, vapor mandado a Vigo e a Vianna em serviço, prendeu em viagem os officiaes na camara e levou o barco ao Porto, a entregar-se á JUNTA. (Wylde a Palm., 18, 27 fevereiro, no Livro azul) O mez de março declinava, approximava-se o abril terrivel. Em Lisboa havia constantes rusgas para arregimentar voluntarios, e Saldanha, immovel por impotente, avisava do seu quartel general que resignaria a presidencia do conselho se não viessem soldados de Hespanha, ou um accordo com o inimigo. O gabinete resolveu então decididamente implorar o soccorro ao reino visinho, que ardia por que lh’o pedissem, mordendo impaciente o freio posto pela Inglaterra. (Ibid. Seymour a Palm. 14, 18 de março)

No principio de fevereiro a historia diplomatica da guerra chegára a um momento decisivo, com o facto da alliança das forças miguelistas ás da JUNTA, depois de Torres-Vedras. Costa Cabral, nosso ministro em Madrid, conhecedor das resistencias da Inglaterra, declarara a Bulwer Litton que se as forças miguelistas engrossassem, elle pediria soccorros á Hespanha, invocando o tratado de 34 ou da quadrupla alliança; (Ibid. 30 de janeiro) e o inglez, ao mesmo tempo que protestava contra, escrevia-o para Londres contando os fundamentos das insistencias do portuguez: que a alliança miguelista-setembrista era um facto, um artificio o não se proclamar D. Miguel, positivo o casus fœderis; que o irmão de Sá-da-Bandeira (Antonio Cabral) fôra a Londres comprar munições, e Passos Manuel a Roma buscar D. Miguel (segundo falsamente corria e convinha ao governo de Lisboa fazer crer). A Hespanha terminava, decidida a intervir, não o fará comtudo sem accordo comnosco. (Ibid. Bulwer a Palm 5 de fev.)

O leitor sabe que Palmerston enviára especialmente um legado militar, o coronel Wylde, para obter a paz entre os belligerantes, para «servir de medianeiro entre a JUNTA e o duque de Saldanha.» Restabelecer-se-hia a constituição de 38, convocar-se-hiam côrtes, expulsar-se-hiam os cabralistas do governo. (Palm. a Wilde, 5 de fev.) Não seria bem a victoria da JUNTA, mas sim a do grupo ordeiro, vencido em 42. E quando leu os fundamentos da nota do conde de Thomar a Bulwer, o inglez pegou da penna e mandou dizer a Wylde que o tratado de 34 acabara, que fôra especial e não permanente, que não só não havia motivo para intervir, mas ainda quando houvesse, não se podia invocar um tratado acabado. (Palm. a Bulwer, 11 de fev.)

Wylde nada conseguira da JUNTA, nem tambem do governo. Via-se impossivel a transacção, e, impedida pela Inglaterra a intervenção da Hespanha, qual seria a sorte de Portugal? Ficaria abandonado ao resultado de uma revolta, de que os generaes temiam os soldados? Venceria o governo? Venceria a JUNTA, e com ella passariam por sobre as cabeças dos chefes, as columnas dos demagogos? e as legiões dos miguelistas? Em março, como o leitor observou, parecia provavel a victoria final da revolta. E em taes apuros, Saldanha, vendo que a Inglaterra teimava em não deixar a Hespanha intervir, pediu licença ao governo visinho para alistar tres mil homens. (Livro azul, Seymour a Palm. 19-21 de março) A Hespanha recusa, «mas se isto durar annuirá». (Bulwer a Palm. 24) Com effeito, o aperto era tão grande que o ministro francez foi ás Necessidades offerecer a sua protecção á rainha. (Seymour a Palm. 20)

Perante uma situação assim, Palmerston começou a hesitar. Com o seu empenho de bater em Portugal o cabralismo que era o alliado do doutrinarismo hespanhol, e ambos a copia do ministerio Guizot, ambos a expressão da influencia franceza na Peninsula: com esse empenho, não iria elle, acaso, servir a demagogia ou o absolutismo? Desde fevereiro, a Hespanha e a França estavam de accordo em considerar vigente o tratado de 34, (Bulwer a Palm. 23 de fevereiro, Madrid) que elle Palmerston insistia em declarar abolido. Não seria um erro, uma temeridade? Com effeito, a linguagem da Inglaterra muda. «Nem a lettra, nem o espirito do tratado de 34 são applicaveis a Portugal agora». Reconhece pois a existencia do tratado, e já chega a admittir a hypothese da intervenção, mas insistindo pelas condições anteriores: amnistia geral e plena, restabelecimento das leis constitucionaes, ministerio nem cabralista nem setembrista (ministerio Rodrigo, ordeiro) expulsão do Dietz—instituição portugueza, oh miseria! Assim que o governo annuir, parta Wylde para o Porto a convencer a JUNTA. (Palm. a Wylde, 5 de abril)

Ora o governo não annuiu, e a crise precipitava-se. Tojal desesperava-se, porque os seus amigos Barings de Londres recusavam as trezentas mil libras com que se havia de pagar o dividendo externo: os temerarios não sabiam que a victoria da revolução seria um traço, riscando a divida extrangeira! Saldanha, irritado, oppunha-se á amnistia. (Seymour a Palm. 26 de março) Havia em Lisboa uma grande miseria, uma carestia excessiva de tudo, um doloroso mal-estar, perseguições e recrutamentos, os batalhões sempre em armas, e as notas fluctuando como os trapos de neve caíndo, cobrindo tudo, nos dias mornos que precedem o desencadear da tormenta.