A procella descia pelo Alemtejo com a divisão de Sá-da-Bandeira que a 9 de abril se juntava em Setubal ás tropas do conde do Mello, do Galamba, a todas as guerrilhas do sul, para virem, reunidos, conquistar Lisboa. Em Setubal, o Logar-tenente da JUNTA (assim se intitulava Sá-da-Bandeira) formava uma especie de governo: Braamcamp era o secretario civil, Mendes Leite tinha a Marinha, José Estevão dizia-se Quartel-mestre general. (Elog. hist. de Braamcamp, do a.) Em Lisboa os ministros, attonitos, correram a Seymour implorando soccorro; e elle de accordo com o ministro hespanhol que tinha no Tejo tres centenas de homens, prometteu defender a rainha n’esse dia 11, aprazado para a chegada da patuléa a Almada. (Seymour a Palm. 9 de abril) A força das cousas transtornava os planos da Inglaterra; o setembrismo vencia mais uma vez a ordem e as suas combinações; e as potencias viam-se obrigadas a fazer uma nova belemzada.
E Sá-da-Bandeira porque não chegava no dia 11 aprazado? Porque elle, o infeliz homem de bem, achava-se outra vez na triste situação de 37, á frente de uma revolução para a moderar. Porque via perdido todo o seu improbo trabalho de 38. Porque media as consequencias da sua entrada em Lisboa. Porque não queria, elle o monarchico leal, o sincero amigo do povo, ser o instrumento da anarchia destruidora do throno, o orgão da plebe acclamada. Porque, finalmente, sabia os planos combinados para lhe facultar a entrada na capital,—planos tristes, deploraveis. Haveria tumultos de noite, lançar-se-hia fogo a diversas casas e arrombar-se-hiam as cadeias, soltando-se os presos. As prevenções estavam, porém, tomadas: quando o castello desse tres tiros, as tropas inglezas e hespanholas desembarcariam. Não tiveram de o fazer, porque os sediciosos temeram. Apenas no Terreiro-do-Paço brigaram soldados com officiaes, indo sessenta presos para o Bugio e um cadaver para a cova.
Almada estava já fortificada e D. Fernando, generalissimo, arrastava melancolicamente a sua espada de Lisboa para a Outra-banda, aborrecido, descontente do seu emprego de rei em uma nação tão pouco ajuizada, tão mesquinha e miseravel. Dias depois houve um tumulto em Cintra, mas já Vinhaes ao sul do rio guardava a capital; e se não fosse batido, o perigo immediato estaria conjurado, a não ser o perigo constante do espirito sedicioso de Lisboa. Contra a cidade, contra o caso da victoria de Sá-da-Bandeira, para o salvar a elle e á rainha, havia porém sempre o ultimo recurso: as forças anglo-hespanholas fundeadas no Tejo. (Seymour a Palm. 14-16 de abril)
Mas, no acume da crise, abandonava-se o plano dos soccorros hespanhoes? socegava o conde de Thomar em Madrid, esquecendo os delegados que tinha em Lisboa? Não. Insistia cada vez mais, patenteava o horror das consequencias, e obtinha por fim a ordem de marcha de um exercito de doze mil homens para a fronteira, prompto a transpol-a para embargar a marcha da patuléa sobre Lisboa. E que fazia o delegado de Palmerston? Desde que a Inglaterra reconhecera a existencia do tratado de 34 e o principio da intervenção—embora não reconhecesse a opportunidade—a força das cousas obrigava-a a seguir a Hespanha, só lhe consentia moderar-lhe os impetos. Foi isso o que fez. Bulwer em Madrid conseguiu que a Hespanha enviasse um emissario a Sá-da-Bandeira com um ultimatum, e que se esperasse o resultado d’essa tentativa para proceder ou não á intervenção armada. Com o marquez de Hespanha, enviado, veiu da embaixada ingleza Fitch por parte do seu governo com instrucções de que «folgaria que a sua linguagem fosse mais para aconselhar do que para ameaçar: porém até a ameaça póde ser empregada com delicadeza». (Bulwer a Palm. 19)
Entretanto, o embaixador inglez de Lisboa procurava fazer acceitar as bases de conciliação propostas por Palmerston, mas batia em vão na teima do governo. (Seymour a Palm. 16) Corajosamente, o cabralismo debatia-se contra a guerra civil, contra a protecção falsa dos inglezes, promptos a defender a rainha, sob condição de condemnar o systema e os seus defensores. Restava porém a estes a Hespanha—e a rainha em pessoa que não queria ser defendida, sendo ao mesmo tempo humilhada; restava-lhes a capacidade do chefe, a cohesão dos partidarios, a timidez de inimigos temerosos de vencer, e o panico de uma perspectiva de restauração miguelista ou de desordens setembristas.
No dia 29 Lisboa presenceou um ensaio d’essas scenas previstas: era o plano forjado para 11 e que fôra adiado. Ao caír da tarde, pelas cinco e meia abriram-se as portas do Limoeiro e os presos saíram em columna, com populares, direitos ao castello, para o tomarem. Eram seis centos, e vendo-se recebidos a tiro, fugíram. Repellidos do castello, bandidos, vadios e politicos, espalharam-se em grupos por toda a cidade. Houve durante uma hora combates nas ruas. As casas fechavam-se, os habitantes recolhiam-se; fortes patrulhas circulavam e D. Fernando, arrastando a sua espada, era apupado. A bordo dos seus navios, o almirante Parker tinha já as guarnições formadas, promptas a desembarcar. Viera a noite, a fusilaria continuava, não já em combates, mas na caça dos presos fugidos, dos quaes trezentos (sobre um total de 1:014) conseguiram evadir-se para os arrabaldes, sumindo-se. E d’este bello ensaio de revolução democratica ficavam mortas oitenta pessoas, diz para Londres o ministro inglez; oito ou dez, accusa o Espectro.
Qual acerta? Pouco importa. O grave é que Sá-da-Bandeira de certo não podia querer vencer, para ser vencido pelos bandidos ou por quem os soltava. Por isso, embora jámais o confessasse, é mais do que seguro acreditar que a chegada dos emissarios da Hespanha e da Inglaterra lhe tirou um grande peso de cima do coração. Perdeu 500 homens na acção do alto do Vizo, o general setembrista; mas o veto que os emissarios pozeram á sua marcha valia para elle muito mais. Já entre Fitch, o marquez de Hespanha e o governo de Lisboa (que mudara de pessoal, sem mudar de politica) se assignara o protocollo de 28 de abril, estatuindo a amnistia como condição de paz e impondo um armisticio.
A campainha diplomatica do conde de Thomar em Madrid conseguia uma victoria, porque, embora cedesse a amnistia, ganhava o essencial, que era a CARTA, obrigando a Inglaterra a desistir das suas pretensões ordeiras. O doutrinarismo vencia, depois de intricadas complicações; e o partido de 38, com o seu chefe Rodrigo, via perdidas as esperanças de herdar o governo, batendo com a Inglaterra cartistas e setembristas, Lisboa e Porto, a corôa e a JUNTA.
Esta, porém, onde os elementos democraticos dominavam, recusou-se a aceitar as condições do convenio; disposta a ceder, sim, mas sem mentir ás patentes que distribuira a miguelistas e patuléas, ás medidas fiscaes que tomara. O seu exercito estava de pé, não fôra batido: mas quereria o outro general, Antas, leval-o á guerra? Era isso o que as cabeças exaltadas reclamavam—uma loucura. Ainda antes de ter chegado a acta do protocollo finalmente assignado em Londres (21 de maio) para a intervenção combinada das potencias signatarias do tratado de 34, já em Lisboa Seymour e Ayllon, de mãos dadas, tinham resolvido mandar para o Porto navios, afim de impedir um derramamento inutil de sangue.