Porém os navios anglo-hespanhoes não impediam o general do Porto de levar a expedição por terra, se acaso elle tambem não desejasse sobretudo vêr terminada a arriscada empreza em que se mettera. Por isso embarcou para ser aprisionado, conforme contámos. De que valiam, depois, as reclamações e os protestos, senão para mascarar a quéda com uma certa dignidade apparente, e manter no animo dos ingenuos a idéa de que se obedecera á fatalidade da força? senão para conservar de pé a accusação de extrangeira, contra uma côrte que, vencida em Belem, realisava agora o seu plano, escravisando o povo com as forças inglezas e hespanholas? Taes palavras serviriam para as campanhas ulteriores da politica, mas não têem valor para a historia. Caíndo, a JUNTA sabia muito bem o motivo porque caía, e não se lhe dava de acabar assim. Que estimaria mais as primeiras condições inglezas, é fóra de duvida; mas que preferisse á intervenção a guerra e a propria victoria, é o que não é licito acreditar perante o procedimento dos seus chefes. Os inglezes occuparam a Foz, os hespanhoes o Porto, e a 24 de julho estava tudo acabado pela convenção de Gramido.

Da JUNTA dissolvida nada restava. Saldanha e os cabralistas continuavam a governar com a CARTA. O Porto vira nos dois irmãos Passos as duas faces da physionomia espontanea e popular da revolução: em um a poesia minhota, em outro o genio burguez antigo. O poeta voltava para casa chorando: chorando assistira á entrada de Concha. O burguez, pomposamente, declarava ser necessario morrer! E morreu, veiu a acabar, mas demente, dezeseis annos mais tarde. O leitor não carece de que se lhe explique, nem a rasão das lagrimas, nem a causa da demencia. Viu como as folhas caíram (1842): depois d’esse outomno chegou o inverno frio e morto ...

NOTAS DE RODAPÉ:

[32] Duas palavras de despedida a esse homem que desappareceu da scena (13 de setembro de 1882) em que por trinta annos representou o papel de guardião do partido regenerador. Curado tambem dos romantismos democraticos, resurgiu em Sampaio a sua primitiva educação fradesca. Era na figura e na bonacheirice um velho portuguez: tinha o ventre nacional e no estylo dos seus artigos lardeados de latim um tom de sermão. Na mocidade chegára a prégal-os (T. de Vasconcellos, O Sampaio da Revolução), e as reminiscencias não se apagam assim! Varrida a illusão revolucionaria, ficou-lhe a vis sarcasticamente plebéa com que atacava os adversarios á direita e á esquerda, sem consciencia nem fé, só por politica, nas questiunculas pessoaes dos partidos. Foi o José-Agostinho do liberalismo, com menos talento do que o frade. Via-se-lhe no estylo a tonsura e ferula do antigo mestre de latim. Uma das muitas arbitrariedades da tyrannia miguelista lançou-o para o lado dos liberaes, abrindo um parenthesis de vinte e tres annos (1828-51) no desenvolvimento logico da sua personalidade. Tornou ao que fôra, vestindo a farda depois de ter deixado a sobrepelliz. Dizem que acabou dizendo assim: «Salvemos a monarchia ... Quero ver as provas». Acabou como devia, pensando na imprensa que o fizera gente.

IV
OS IMPENITENTES

1.—O CADAVER DA NAÇÃO

Voltara a paz, e para que o leitor não proteste contra as côres funebres com que pintámos a guerra, seja-nos licito transcrever aqui a opinião contemporanea de um dos nossos mais levantados espiritos:

Hoje (1849) nos achamos entre um passado impassivel (depois das leis de Mousinho) entre um futuro tremendo porque é obscuro, insondavel e de nenhum modo preparado, e com um presente tão absurdo, tão desconnexo, tão incongruente, tão chimerico, tão ridiculo emfim, que se a perspectiva não viesse, como vem, tão cheia de lagrimas, seria para rir e tripudiar de gosto, ver como vivemos, como nos a tributamos, como nos administramos, como somos emfim um povo, uma nação, um reino! (Garrett, Mousinho da Silveira)

Voltara a paz, dissemos. Era chegado o momento de encarar de frente a situação do enfermo, que parecia mais incuravel depois do ultimo accesso. Extenuado, jazia exangue, não diremos nas vesperas da morte, porque o seu existir já não se podia chamar vida. As nações, como os individuos, tambem pódem arrastar-se vegetando, sem propriamente viverem. A guerra acabara, não ha duvida, mas faltava ainda liquidar a crise, e como a paz não significava abundancia, mas sim a continuação da miseria, continuava a mesma indecisão das medidas, ora dirigidas a manter o credito das notas, ora a sacrifical-as ás necessidades do Thesouro. O ministerio nomeado depois da paz reage contra as resoluções tomadas n’este ultimo sentido, e restabelece a proporção de metade apenas em dinheiro nos pagamentos do Estudo. A causa do agio, diz, fôra a guerra e a excessiva procura de moeda metallica para o exercito; mudaram as circumstancias e o augmento na relação das notas nos pagamentos concorrerá para diminuir o rebate. (Decr. de 11 de setembro) Mas o problema era mais complicado, as causas mais profundas, e tres mezes bastam para que esta doce illusão se dissipe. A loteria das suas esperanças ficava em papel; e nem por se ter acabado a guerra podia apparecer dinheiro, porque o não havia em casa, nem de fóra ninguem o daria, quando os juros da divida estavam por pagar. Tres mezes bastam, dizemos, para convencer de que o unico meio de resolver a questão é supprimil-a, por meio de banca-rota declarada. Tire-se ás notas o caracter de papel-moeda; negue-lhes, por uma vez, o Estado a sua garantia; declare que as considera um papel commercial, cotavel, e já não fará mais do que reconhecer o facto nas relações privadas, augmentando as receitas publicas insupportavelmente amesquinhadas pelo rebate d’aquella parte, o terço ou metade, realisada em notas. Os decretos de 9 e 14 de dezembro fizeram com effeito isto. Largas considerações, meritorias por serem sensatas, francas e verdadeiras, justificavam a medida que abolia o curso-forçado, retirava a garantia do Thesouro e o caracter de moeda a umas notas que o banco já não podia ser compellido a converter á vista, o que seria obrigal-o a fallir, por isso que a sua amortisação fôra anteriormente pactuada por meios e fórmas varias. A contar de 20 de dezembro as notas poderiam entrar por metade nos pagamentos ao Thesouro, mas não pelo valor nominal, só pelo valor real, segundo as cotações da bolsa.

Esta banca-rota positiva, mas opportuna e inevitavel vinha consummar a ruina da circulação fiduciaria portugueza, augmentando os embaraços de uma nação desprovida de capitaes circulantes e por isso mais necessitada de inventar um instrumento artificial de circulação que pudesse substituir a moeda escassa. Mas, para que os artificios sirvam, é sobretudo mistér juizo, prudencia, e paz, cousas que nós desconheciamos.