A revolução e a guerra, deitando por terra o castello de cartas da agiotagem cabralista, tinham arruinado comsigo, na queda, a circulação fiduciaria portugueza. Era mais um passo andado no caminho de uma decadencia economica, declarada desde o principio do seculo, e que até agora o liberalismo não conseguira corrigir. As estatisticas do commercio (V. Mappas geraes, 1848) demonstram-no de um modo eloquente:

ExportaçãoImportaçãoSomma
1801 (contos de reis) 25:10419:33744:441
1816»16:17817:87034:048
1830»10:46812:95523:423
1844»6:5809:82616:406
1848»8:54310:80619:349

Depois da primeira data, vem a invasão franceza e a franquia do Brazil ao commercio extrangeiro; depois da segunda, a separação e independencia da nossa colonia; depois da terceira, as revoluções liberaes e a anarchia constitucional: eis as causas successivas de empobrecimento. Agora começava a soprar uma aragem, prenuncio de melhores tempos: viria uma regeneração? Ainda era cedo para o crer, tanto mais que a França, infelizmente mestra dos nossos homens, ia lançar-se n’uma aventura democratica, fazer a sua revolução-de-setembro (em fevereiro), proclamando a republica. Não faltava entre nós quem suspirasse por ensaiar esta ultima definição verdadeira, absoluta do liberalismo, depois de desacreditadas as anteriores e successivas.

Não crescia, caía todos os dias o commercio externo, metro seguro da prosperidade de um povo culto. Mas augmentava sempre, assustadoramente, a divida contrahida para ensaiar, com intrigas e revoltas, essas varias fórmas da doutrina. E a divida crescia, porque os ensaios, arruinando internamente a nação, não consentiam que os seus redditos augmentassem. O imposto não dava:

DecimaDecimaDirecto
Fabricasindustrialpredialem geral
1838-9 (mil reis)4733210:251976:2741.347:547
1841-2»3803234:231937:2161.416:338
1846-7»3556214:669945:8531.378:990
1849»3816214:409945:3911.377:536
1850»3771225:146958:7091.411:437

Já appareciam as observações retrospectivas e confissões sinceras dos males accumulados. Eram reconhecidamente muitos: os erros administrativos e financeiros, as eleições corruptoras ou barbaras, as sociedades secretas, a licença da imprensa, os excessos da tribuna, e sobre tudo a mendicidade dos empregos: «as guerras civis de Portugal são evidentemente as guerras dos empregos publicos». (Autopsia dos partidos politicos, op. anon.) São, nem podiam ser outra cousa, porque o communismo burocratico substituira o monastico, no regime de uma nação cachetica:

N’esta babel em que vivemos, tudo passa inapercebido, no meio da confusão de todo o pensar e sentir. Esta é a terra classica da ingratidão regada pelo Lethes do Desmazelo e do Não-se-me-dá, da mais estupenda caducidade em que póde caír um povo. (Garrett, Mousinho)

Não-se-me-dá é a expressão natural dos pobres que nada teem a perder, e por isso a ninguem se lhe dava que as cousas caminhassem para uma banca-rota, já desde 38 considerada inevitavel, e util pelos que propunham o ponto geral. Não se descobria, com effeito, o modo de solver encargos progressivamente crescentes, perante recursos, ou paralisados ou decadentes. O governo confessava o deploravel estado das cousas, (V. o relatorio notavel do min. Falcão; março de 48) e os observadores comparavam os numeros e apertavam a cabeça com as mãos, vendo a perdição irremediavel. (V. Autopsia, etc.)

Em junho de 33 a divida era de16:868 contos
e pelo orçamento de 45-7, accrescentada pela emissão recente de inscripções, de87:579»
Augmentara em 13 annos, a razão de quasi 5:500 por anno70:711»