| Fundo de 5 p. 100: 19:361 c. de 74 a 50. | contos | 4:646 | |
| » 4 » 13:335 » 60 a 40. | » | 2:671 | |
| Acções do Banco, 10:000 de 820 a 230:000. | » | 5:400 | |
| Depositos, um terço de 700 c. | » | 233 | |
| Acções da Confiança | » | 3:248 | |
| Promissorias idem, reembolso em notas. | » | 412 | |
| Acções da União, de 112 a 55. | » | 570 | |
| 40 p. c. do valor das notas | » | 1:600 | |
| Depreciação do credito externo | » | ? | 18:780 |
Perdas do thesouro
| Despezas do exercito e marinha | contos | 1:500 | |
| Descontos de notas | » | 700 | |
| Tres quartos da receita de nove mezes | » | 7:500 | 9:700 |
Perdas geraes
| Roubos, contribuições forçadas, etc. | » | 900 | |
| 23 a 30 mil braços sem trabalho productivo: | |||
| 9 mezes e 20 dias a 200 rs. | 1:620 | ||
| Incendios, ruinas, etc. | » | ? | |
| Capital humano: mortos e feridos | » | ? | 2:520 |
| Total determinado | » | 31:000 |
As verbas indeterminadas calcule-as quem puder, e achará que a revolução e a guerra deram uma ultima sangria não inferior a 50 mil contos ao corpo já quasi exangue da nação. Que admira pois a cachexia universal? «Recordei-me com amargura e desconsolação dos tremendos sacrificios a que foi condemnada esta geração, Deus sabe para quê,—Deus sabe se para expiar as faltas dos nossos passados, se para comprar a felicidade dos nossos vindouros.» (Garrett, Viagens) Assim, poeticamente, se exprimia Garrett, memorando casos transactos; e o que succedia depois não authorisava a crer que se tivesse comprado então a felicidade dos vindouros. Expiar-se-hiam as faltas passadas? Expiavam-se, expiavam-se de certo as consequencias de uma deploravel educação historica; mas tambem se soffria o resultado natural de uma illusão ephemera creada por uma philosophia erronea. Como nós, a Hespanha saía das mãos do illuminismo jesuita para caír nas mãos do espiritualismo liberal, e a historia da Hespanha era o mesmo que a nossa. Mas a França, que toda a Europa seguia, sem ter tido essa educação mortifera, soffria como nós as consequencias do romantismo politico, do doutrinarismo individualista, e da anarchia positiva: do governo immoral, além de tyranno, da burguezia rica, imperio formado espontaneamente sobre as ruinas do velho Estado monarchico.
2.—O CONDE DE THOMAR
O setembrismo morrera de vez depois de terem desempenhado o seu triste papel os chefes timidos que por suas mãos tinham abafado a revolução. Mas teria a historia dos ultimos dois annos convertido os cabralistas, cuja tyrannia brutal, cuja avidez deshonesta, alliadas á energia no mando e á audacia no pensamento, provocaram o desespero e a revolta do povo? Viu-se que não. Consideraram-se vencedores; e se o extrangeiro lhes não permittiu vingarem-se, e se o desmoronamento da machina agiota não consentia voltar-se aos doirados tempos, os cabralistas seguiam, mais modestos, mais moderados, governando o reino como cousa sua.
Como rasto de um terramoto, a segunda metade de 47, depois de Gramido e da victoria do governo, agitada com o borborinho das eleições proximas, arrastou-se com um cortejo de vinganças e desordens. A soldadesca desenfreadamente espancava nas cidades e especialmente no Porto—agora tão odiado como antes o fôra no tempo de D. Miguel. Artilheria 3 era apontada como eximia em arruaças cabralistas. Os vidros das casas patuléas, do José Passos e d’outros, voavam em estilhas com pedradas. O Nacional, o Ecco popular, orgãos dos vencidos, eram colhidos das mãos dos distribuidores e rasgados aos centos. Por todo o reino havia roubos, espancamentos, assassinatos. Só em Evora, nos tres mezes depois de Gramido, houvera doze attentados em publico pela soldadesca. (Rev. de Setembro, 8 de set. 47) O Nacional, cuja typographia fôra assaltada, e a commissão opposicionista para as eleições, pediam protecção ás potencias alliadas, reclamando a amnistia promettida. Era um reflexo pallido do que succedera em 34 ao miguelismo, tambem amnistiado depois de Evora-Monte.
As eleições de 48 trouxeram o conde de Thomar á camara. Chegava triumphante, depois de um desterro, já transformado em uma embaixada, d’onde guiara o seu lugar-tenente Saldanha, d’onde urdira a trama da intervenção hespanhola que afinal arrastara a Inglaterra, congregando os elementos da victoria. Os vencidos, vendo-o regressar ao seu posto, á camara, primeiro degrau de um segundo throno, foram-se ás armas, pegaram das munições, prepararam-se desde logo para uma nova campanha. Costa-Cabral, o conde de Thomar, era mais do que um homem: era um systema e um phantasma. No odio com que o recebiam mostravam-lhe quanto elle valia, pelo medo que lhe tinham.