A cadeira de deputado foi, com effeito, a breve transição da embaixada para o governo, onde substituiu Saldanha. (18 de junho de 49) Essa restauração teria tido lugar muito antes, se a guerra não tivesse respondido ao golpe-d’Estado de 6 de outubro, no qual Saldanha era apenas a força bruta do exercito destinada a preparar a volta do estadista banido em maio.
Eis, portanto, de novo as cousas no estado em que a primavera de 46 as achára; eis perdido o tempo, e o dinheiro, e as vidas, e dois annos de revolução e guerra. Congregam-se outra vez as guerrilhas? agita-se de novo o povo? Não. A Maria-da-Fonte morreu; Macdonell morreu; os camponezes voltaram para suas casas batidos por uma saraivada de desesperanças, decididos a não querer saber mais do governo; os miguelistas resolutamente se fecharam nas suas covas. Nenhum espectro surgia ...
Apenas a imprensa desvairada dos politicos batia sem piedade o homem a quem se costumara a cobrir de lama. E a velha calumnia da lenda do castello de Thomar levantava a cabeça, não poupando a reputação pessoal da rainha a quem, confundindo a politica e a modestia, equivocamente chamava tolerada. Accusavam de seu amante o ministro, e elle, o homem forte, commetteu a maior das fraquezas, mandando processar em Londres o Morning Post que repetiu as infamias das folhas de Lisboa. É que tambem caía, tambem descia, o antigo tribuno dos Camillos, o cansado tyranno de Lisboa.
Só não cansava a imprensa, no seu desalmado ataque. A Nação, na capital, imprimia um requerimento á rainha: «Senhora! o vosso ministro é accusado de receber um caleche e dar por elle uma commenda. Senhora! o vosso ministro pedia-vos uma commenda para pagar os caleches com que o peitavam». E o Nacional, no Porto, publicava uma scena dramatica, entre burlesca e tragica, amorosa e torpe, em que o côro exclamava—ó ladrão! larga o caleche! (ass. C. Castello-Branco, 19 de dezembro, 1849) O Supplemento burlesco, em lithographias toscas e caricaturas grosseiras insultava diariamente os Cabraes e a sua gente, mostrando que o antigo genio soez da satyra portugueza não se extinguira. Aqui vinha o Triumpho do Chibo: um bode (o conde de Thomar) com um sacco aos hombros e o letreiro roubo; o chibo sobre um andor que é um cofre, o Thesouro, levado por Saldanha e por José Cabral, o dos conegos, de vestes talares. (n. 39, dez. 23 de 47) Além é o Chibo d’Algodres, um grande bode com a face do conde de Thomar, de pé, tendo uma vara ao hombro e pendentes, á laia de sacco, os palacios famosos: Thomar, a Estrella; o rabo do bicho está enlaçado com folhas tendo escriptos os nomes das companhias do tempo. (n. 28 nov. 15) N’outro apparece o famoso padre Marcos, o Arcebispo do Cartaxo, Porto e Chamusca: é uma botija, tendo na bocca a cabeça do padre mitrada, e nas azas ou mãos, o baculo de um lado, o copo do outro. (n. 32 nov. 29) O José dos Conegos tambem é chibo com o trajo talar arregaçado, pistolas ao cinto, na mão a Arte de furtar. (n. 42 jan. 3 de 48) Veem tambem os empregados publicos, aranhas, esqueletos, mirrados e seccos, e no centro da folha o conde de Thomar com um ventre inchado, monstruoso «cheio como um ovo». (n. 29 nov. 18 de 47) Não falta o Saldanha na Arvore das caras, em que os ramos, os rebentos, os tortulhos do chão, tudo são caras diversas do versatil, regadas pelo jardineiro de Thomar com dinheiro em vez de agua. (n.º 41 dez. 30) E assim por diante, os pasquins pintados coadjuvavam as diatribes escriptas. Veiu a lei-das-rolhas, e Cazal Ribeiro, bem moço ainda, mas ensopado no virus politico, cheio de talento e enthusiasmo, homem de uma geração nova que mal fazia em se envolver nas questões da antiga, declamava n’um estylo obeso:
Conde de Thomar, sois um concussionario porque entrastes para o poder pobre e tendes adquirido uma fortuna immensa por meios torpes e vergonhosos. Conde de Thomar, sois um traidor, porque vendestes ao paço a causa do povo em 1840; porque vos revoltastes contra a constituição que servieis em 1842; porque arrastaes agora o throno e a nação a um precipicio certo e talvez á invasão extrangeira. Conde de Thomar, sois um despota ignobil porque calcaes a decencia, as leis, a constituição, e governaes só pela bitola do vosso capricho. Conde de Thomar, sois um imbecil, porque a vossa habilidade cifra-se na intriga e o vosso poder depende só do favoritismo. Conde de Thomar, sois um miseravel, porque vos servís, como meio politico, da honra de uma senhora, de uma rainha: porque a sacrificaes impudentemente aos vossos nefandos fins. (Cazal Ribeiro, A Imprensa e o conde de Thomar, 1850.)
E a decadencia dos caracteres era—e continuou a ser—tal e tanta, que os inimigos trocavam entre si as maximas injurias, sem logo se apunhalarem, ou se baterem a tiro, a tres passos. Não! era politica. Dias depois sorriam lado a lado, sentados juntos na mesma camara. Era politica! Não se está sentindo a necessidade de uma regeneração? Não se percebe que o momento da victoria final da rapoza se approxima? De gritar estão fartos, de nodoas todos sujos, de gritar todos surdos: abracemo-nos todos! Vinte annos escassos de uma historia que o conde de Thomar, como um dormente, protrahia de mais, levavam a esse abraço fatidico.
De um e de outro lado já se encontram nomes novos: Cazal e Latino na opposição; Corvo, pelo governo, mostrando aos adversarios a inconsequencia de atacar o gabinete por se apoiar no exercito, quando tinham por chefe um general, (Antas) patenteando o vasio dos seus desejos, o indeterminado dos seus programmas. (Corvo, Fallou a opposição! op.) E dos velhos jacobinos, dispersos, aborrecidos, desilludidos, apenas um restava para condemnar não só o governo, como o soberano; não só a rainha, como a dynastia inteira dos Braganças:
De quantas dynastias senhoream hoje a Europa, é a de Bragança, que nos governa, a mais ominosa de todas, como quem teve principio em crimes e traições abominaveis. (D. Affonso matara o conde D. Pedro em Alfarrobeira; e o neto fôra degollado por D. João II em Evora) D’essa familia não se póde contar nenhum rei que fosse patriota; e se não fossem os extrangeiros (em 47) ter-se-hia dado o espectaculo novo de um rei expulso pelo povo portuguez.—Por Deus, senhora D. Maria II! Veja V. M. o paradeiro que teve em palacio, á vista da rainha D. Leonor Telles, o conde Andeiro! (J. B. Rocha, Rev. de Portugal, 52)
O conde Andeiro ria sarcasticamente. Chamavam-lhe estafador, concussionario, ladrão publico; e elle mordia-se de colera, se é que o habito lhe não dera já impassibilidade. Sabia demasiado o modo de não irritar o povo: deixar-se de innovações perigosas, deixar seguir o barco da conservação na maré da banca-rota. Seguro o exercito, conhecido o modo de fazer as eleições, legalisado o systema, que lhe importava o ladrar dos inimigos? Mas é que esses ataques passavam por sobre elle, iam direitos ao soberano: «Protege V. M. os homens sabedores? Favorece os artistas? Acode á pobreza desvalida?—Nada d’isso: só deu a Costa-Cabral o Alfeite.» (Ibid.) E os periodistas o follicularios já não se pejavam de propagar, clara, abertamente, a urgencia da abdicação da rainha.