Tão longe não iam os pares na sua camara, mas nenhuma voz era mais cruelmente desapiedada do que a voz sibillante do terrivel Lavradio. O ministro rira até então, mas quando Saldanha, fosse pelo que fosse, passou para a opposição, tornou-se serio, e nas vesperas de acabar viu-se ainda o homem antigo. O marechal, passando-se, via o exercito inteiro a bandear-se: imagine-se com que abraços a opposição o não receberia! Quem se lembra já de Torres-Vedras, e das injurias, e dos degredos! Politica! Mas Costa-Cabral propoz-se demonstrar que Saldanha era nada: um homem-de-ferro, como o de S. Jorge na procissão de Corpus; no que se não enganava inteiramente, como 51 o demonstrou e veremos. O marechal foi demittido do paço, e logo pediu a demissão de todas as suas honras e cargos. Deu-se-lhe; e o ministro, outra vez temerario, não se lembrou de que um antigo Cid, um condottiere, patrono de tão consideravel clientela, não se mata por metades. Ou se fusila, ou se compra. O povo sempre disse: «quem o seu inimigo poupa, nas mãos lhe morre.»


Varios symptomas indicavam a morte proxima do cabralismo; mas, assim como os doentes nas vesperas de acabar têem ás vezes como um clarão de saude, assim é necessario, antes de apreciarmos as causas directas da quéda proxima do conde de Thomar, contar o seu ultimo dia, quando a antiga força pareceu reviver e o sangue todo circular com energia antes de o coração parar.

Saldanha renegara-o; os pares da opposição (Taipa, Lavradio, Loulé, etc.) tinham pedido á rainha a demissão do ministro odiado, accusado de crimes torpes que manchavam de lodo o governo e até o throno. Abertas as camaras no principio de 50, os debates pareciam audiencias e o ministro um réu. As galerias dos Pares, cheias de povo, estavam com a accusação: o conde de Thomar era, como Guizot e os doutrinarios em geral, antipathico. O povo não ama a seccura e a rigidez das formulas pedantes; o povo está prompto a crêr sempre na criminalidade dos que o governam, desde que o principio da rebeldia constitucional contra o Estado appareceu e venceu; desde que se poz no direito publico um dualismo organico entre a liberdade e a authoridade, supposta antinomia. O conde de Thomar era antipathico, e não tinha para contrariar esta consequencia da indole da sua politica, nem os creditos de integro, nem os de sabio, que escudavam o seu modelo Guizot.

«Eu não posso ser considerado como obnoxio á nação que sendo chamada á urna me favorece sempre com a sua opinião quasi geral.» (Disc. de 12 de jan.) Em vez de atacar, defendia-se, o ministro: evidente prova de fraqueza; e a defeza era triste, molle. A quem pretendia enganar, ou convencer? Pois sala e galerias, pares e povo, não sabiam todos o que eram eleições e urna? Tanto sabiam, que estrepitosos risos acolheram a saída do diogenes burocratico: fraco cynismo, se provoca o riso!

Mas essas gargalhadas os esporearam-no. Pulou. Torcia-se-lhe a face, luziam-lhe os olhos, e resuscitava o homem de 42. Então, depois da aventura do Porto, olhando a desafiar os inimigos, dissera-lhes: Conspirei? tambem vós! conspirámos todos. Agora a accusação era outra, mas o processo identico: Roubei? tambem vós! roubámos todos.

E sarcastico, odiento, inverteram-se os papeis: o réu passou para o banco da accusação. Tinha diante de si um masso de jornaes impressos, e abrindo-os, via-se cada folha tremer com a convulsão do pulso do ministro: Accusam-me de ladrão? E quem? Saldanha não saberia que a propria Revolução de Setembro lhe dissera o mesmo a elle? Porque não a processou, e quer que a processe agora eu?—E abria o papel, lia o que occorrera em certa arrematação das Sete-Casas: «A praça estava aberta, as condições foram umas e a arrematação foi feita por outras. Não é isto uma burla?» Que motivos houvera? «Estavam já calçadas as luvas. Vencedor de Torres! não córes; tudo se sabe». (Rev. de Set. 10 de jan. de 48)

Nem a sala, nem as galerias riam já. O caracter não era ainda uma ficção, como a Urna. O ministro feria com acerto, e, ávida de escandalo, a assembléa, muda, obedecia-lhe.—Quereis mais? Ouvi: «Mais vergonhosa ainda é aquella historia do retrato. O retratista recebeu 180$000 rs. para elle; para 400, vão 220 que faltam. Onde se sumiram, duque de Saldanha?» Outro artigo: «Miseria, sr. ministro, é o roubo de 220 mil réis; miseria é v. ex.ª considerar uma miseria a accusação por esse roubo ... Quem recebeu mais de sete contos por um emprego que nunca exerceu, não admira que considere 220 mil réis uma miseria». (Rev. de Set. 18 de jan.)

O bote estava dado em cheio no refalsado peito do marechal que o atraiçoara, depois de por tanto tempo o servir. Mudando o tom e a voz, com uma gravidade de secretaria, o ministro observava, dobrando os jornaes, que era «o primeiro a fazer justiça á honra e probidade do digno par», mas que se achava na obrigação de defender-se. Todos os homens d’Estado d’este paiz tinham sido accusados de ladrões pelos jornaes diffamadores, e todos os tinham desprezado, nenhum os chamara ao jury: elle faria outro tanto, seguiria tão bons exemplos. E admirava-se de que fosse o marechal quem se voltasse contra elle; o marechal que, ao saír da presidencia do conselho, declarára ser com elle, ministro, «uma e a mesma cousa»; o marechal que em dezembro de 47 o mandara embaixador para Paris; o marechal, etc. (Disc. de 12 de jan. de 50)

Fustigado, bem moído, este primeiro e novo inimigo, o conde de Thomar voltou-se para os antigos. A opposição, no seu manifesto, reclamava a demissão d’elle sob pena de uma revolução terrivel ou do dominio hespanhol; e o ministro, firmando bem os pés no chão, n’um accesso de furia, respondeu-lhe suffocado, rôxo:—«Não saírei d’aqui!» Dominou-se, porém, logo, a contar como as cousas se dispunham na camara para o atacar. «Havia pelotões para dar apoiados.» (A sala inteira riu francamente). Observara-se como certos dignos pares que nunca falavam, se agrupavam no cumprimento d’esse dever. Faziam bem: para nada serviam! (Ibid.)