Com este sarcasmo voltara a accusar. O conde da Taipa dissera que «o presidente do conselho era objecto do odio geral», e quando repetia estas palavras, o conde de Thomar exprimia aquelle orgulho quasi voluptuoso que os homens da sua tempera sentem ao perceber, no odio, a importancia que têem e o medo que inspiram.—Era objecto de odio geral, dizia o conde: logo falariam; mas elle, ministro, buscava as demonstrações legaes, e dizia que nos governos representativos a Urna era toda a legalidade—resvalando outra vez o doutrinario para a perigosa selva das fórmulas. Havia rumor, sussurro, na sala e nas galerias, sempre que se falava na Urna.
«Se a guerra é contra mim, tenham a coragem de me accusar em fórma: se o não fizerem hão de permittir que lhes diga que são hypocritas.» A voz tremia-lhe, e agitando-se, crescendo-lhe o odio, chegava á eloquencia verdadeira e forte. Com a audacia de um vencedor, encarando de frente os inimigos, ensinava-lhes como haviam de formar o libello.—Digam, vamos: 1.º O presidente do conselho commetteu o crime de peita, dando uma commenda e recebendo por ella um caleche.—Sigam: 2.º Tem palacios, tem quintas, tem castellos, tem ricas tapeçarias e um luxo asiatico ... A camara, pasmada vergava: era um monstro de cynismo? Elle aproveitava a emoção, continuando: 3.º Tem um tinteiro de ouro!—e vencia, arrancando aos ouvintes uma gargalhada unisona.—Não parem: 4.º Quando a rainha o honrou, visitando-o no seu palacio de Thomar, elle apresentou-lhe um serviço de ouro tão rico que a soberana disse: é mais rico do que o meu!—Mais ainda: 5.º Está edificando uma sumptuosa sala de baile, aproveitando-se dos marmores e madeiras do palacio d’Ajuda.—Outra: 6.º Empalmou uma letra de mais de mil libras, mandada do Brazil por um portuguez para as urgencias do Estado.—Mais: 7.º O Mindello veiu carregado de espelhos para o seu palacio.—Mais: 8.º Possue a mais rica garrafeira.—Mais: 9.º Recebeu por peita um cavallo.—«Havia mais? Dizia a imprensa alguma outra cousa? Juntassem, sommassem; mas tivessem a coragem de o accusar, alli, clara, publicamente.»
Até ahi o seu discurso galopava, esmagando tudo; mas quando, ao parar, regressou, perdeu-se. Não teve habilidade para acabar, e quiz defender-se. Guizot vencia pedagogicamente leccionando; não respondia a ataques. Costa-Cabral vencia tambem, á peninsular, investindo: porque se deixava bater, discutindo? Algum motivo inconsciente o impellia a explicar casos que não seriam inteiramente calumnias? Se assim era, provava a sua fraqueza; do contrario, a sua simplicidade. O discurso continua embrulhado, pastoso, monotono. As explicações podem satisfazer, mas com o odio, com as paixões, não se debate. Seria mistér que ao periodo dos sarcasmos se seguisse uma d’estas provas theatraes, dramaticas, capazes de impressionar a imaginação, embora não convençam a razão fria que é sempre o dote do menor numero. Era isso o que faltava ao ministro, a imaginação; era isto o que sobrava ao outro homem que a historia põe diante d’elle, Passos. D’ahi vinha a um o ser odiado, adorado o outro: apesar do segundo ser muito superior, como força e verdadeiro talento. E Passos era virtuoso, podendo deixar de o ser sem perder por isso a popularidade; e Cabral passava pelo não ser, sem que podesse ganhar sympathias, ainda que o fosse.
O povo, como massa, tem um modo de sentir e de se decidir, para o qual não colhem as fórmas simplesmente logicas da argumentação. Foi o que o conde de Thomar e toda a eschola doutrinaria jámais perceberam, teimando em convencer as massas com raciocinios e fórmulas, e opprimindo ou burlando quando viam não serem comprehendidos. Nenhum systema politico se presta mais á tyrannia e á burla do que o systema arithmetico do governo das maiorias.
Inorganico, ou se perde na confusão da anarchia, ou cáe na paz da indifferença apathica, ou n’uma corrupção systematica, n’um processo de burlas e sophismas. O leitor viu a primeira conclusão, verá dentro em pouco a segunda: a terceira é a de agora. E a fraqueza do Guizot portuguez estava no acanhamento do seu espirito sêcco, tomando as fórmulas escholarmente a sério. Hirto, duro, era um ariete para bater; mas sem plasticidade, sem o que quer que é de communicativo e seductor que arrasta o povo, em qualquer sentido. Era a Antipathia personalisada. Vencia, mas não convertia. O advogado argumentava, depois que o tribuno aggredira; e o povo, impressionado pela violencia, ficava indifferente ás argucias. Não as comprehendia, e repugnavam-lhe. O conde de Thomar era a personalisação, como que o symbolo da antiga historia de delapidações: o povo espontaneamente o apedrejava, como victima expiatoria. Pagava os crimes de muitos. Não era o sangue, eram os roubos de uma geração que lhe caíam sobre a cabeça. Para se salvar de uma tal situação, seriam mistér qualidades, genio, imaginação, phrases, que não tinha. O clamor accusava-o de roubos: era necessario mostrar-se modesto e desvalido. De que servia saber-se que a rainha lhe arrendára o Alfeite? Nos governos de publicidade o rei é nada. Quando a opinião governa, é necessario que fique, ou pareça ficar pobre, aquelle que para o governo não entrou rico. Ai, dos que enriquecem, embora lisa, honestamente. O politico é como a mulher de Cesar; e na psychologia da opinião entra sempre e por muito a inveja. O marquez de Pombal podia ter aguas-furtadas, porque estava na indole do velho regime monarchico-aristocratico o enriquecimento dos ministros, valídos d’um rei, dono ainda da nação. Mas agora o rei já não era senhor, nem amo, nem cousa alguma: deslocara-se a noção da origem do poder, e com ella o criterio da moralidade na politica.
Estas considerações fizemol-as, emquanto o ministro, do seu lugar, alinhavou pastosamente, como um advogado, a sua defeza. Não valia a pena ouvil-o. Mas agora, transposta a parte molle do seu discurso: agora que o aggressor volta, e a voz se lhe aquece e o olhar se lhe aviva, é indispensavel observar a conclusão da batalha.
Não appella para o jury, repete, porque despreza as calumnias. Segue o exemplo dos accusadores. Começara por Saldanha; era a vez do conde da Taipa, agora.—Um par houve accusado de ladrão e até de espião pago!—Taipa: E quem é esse par?—V. Ex.ª—Eu leio;—e voltou a desenrolar um jornal, já antigo, amarello do tempo, como um espectro evocado do tumulo: «Ao Gago ladrão, o Raio», assim começava o artigo. Esse gago era um desprezivel saltimbanco sem honra e sem virtudes. Respondeu a conselho de guerra por ladrão da fazenda publica. Mancha a sociedade com o seu halito immundo. Era devasso, vivia em orgias dissolutas, recebendo 3:200 por dia para ser instrumento do Marinho: as suas denuncias atulharam as prisões. (Raio, 21 de maio de 36) Era o ladrão da caixa militar do regimento de cavallaria 7, o espião dos 3:200, o urco de 1823 ainda empoeirado com a viagem de Villa-Franca, o militar cobarde fugindo sem se saber porquê, (Raio, 9 de agosto de 36) etc. Tudo isto dissera o Raio, e o digno par não appellara para o jury!
O odio crescia na camara indignada contra o temerario que, para se defender, ia revolver assim, em publico, sujas aguas corridas, levantando lodos que manchavam os legisladores. E era urgente olvidar o passado, e as suas campanhas. Todos se sentiam anciosos de esquecimento. Rodrigo começava a abrir os seus braços para o amplexo final, fraterno ... Fóra, o importuno, o impenitente, que aos seus crimes junta o crime de accusar o proximo!
Fatigada estava a camara, extenuado o orador: todos anciavam pelo fim, por uma regeneração. A voz do ministro extinguia-se, e o corpo pedia-lhe uma pausa.—«Para ganhar tempo, e não ouvir a resposta?» perguntou Taipa. Esporeado, o conde saíu ainda: «Não é, não: ficarei até ás dez da noite, se preciso fôr».—Taipa: «Eu não necessito estudar!»—Thomar: «Preciso eu; mas para responder ao digno par—nunca!»
O resto foi um disturbio parlamentar, que os gritos de, ordem! a custo dominavam. Acabava a scena em uma desordem: que era tudo senão anarchia, desde os principios e doutrinas, até aos caracteres e á moral?