Assim foi o ultimo dia do conde de Thomar. Dera o que tinha. Durante nove annos (42-51) contivera a maré do scepticismo pacifico, lançando a patria nas aventuras de um liberalismo novo. Agora, o padrão d’essa doutrina, o padrão francez de Guizot, já fôra despedaçado em Paris pela revolução (fevereiro de 48); os tempos mudavam, e a atmosphera adequada ao temperamento do ministro desapparecera. A força das cousas ordenava-lhe a abdicação, mas o genio rebellava-se-lhe. Como o toiro que o matador só consegue abater depois de successivas estocadas, mas que tem na espada o instrumento de uma morte fatal: assim o ministro ainda marrou, erguendo-se, investindo, appellando ainda para a tribuna, para as bernardas, mas perdendo sempre sangue, esvaindo-se até se rojar vencido na fria arena das embaixadas.

É mais um dos successivos mortos do liberalismo, este duro beirão de Algodres. Mas que morte a sua, tão diversa do sacrificio espontaneo do minhoto, poetico Passos, caminhando para o altar coroado de flôres, alegre, pacifico, resignado; confessando os seus erros antigos, o dissipar das suas illusões, negando a verdade dos systemas, a força dos homens, a vitalidade da patria! É que para dentro de tudo isso o poeta sentia esperanças novas, para além d’esses dias fugidos, auroras vagas: ao passo que o politico, uma vez rasgadas as fórmulas, achava-se perdido n’um vacuo.

LIVRO SEXTO
A REGENERAÇÃO
(1851-68)

I
ALEXANDRE HERCULANO

1.—A ULTIMA REVOLTA

O homem que em 1826 iniciou a historia liberal é o proprio que agora vae desembainhar a espada para encerrar com uma sedição militar a serie de pronunciamentos a que temos assistido. As successivas physionomias politicas de Saldanha são o traço eminente do seu retrato e do dos tempos em que existiu. Homem sem idéas, os partidos e programmas são para elle occasiões, e nada mais; e como esses programmas e partidos nasciam, cresciam, desfaziam-se constantemente, na atmosphera duplamente movediça de um paiz arruinado e de uma doutrina inconsistente, o marechal encontrava-se, ao decaír da vida, tão carregado de annos como de opiniões diversas, sem que os annos abatessem a sua rija constituição, nem as contradicções podessem affligir um espirito que, a serio, bem no fundo da alma, só tinha uma crença enraizada: o catholicismo portuguez, beato, quasi fetichista.

Em 1822 vira-se Saldanha applaudir a Constituição jacobina; em 23 recuar, com Terceira e muitos mais, até Villa-Franca, na jornada da poeira, e applaudir a suppressão das côrtes. Em 1826 apparece-nos proclamando a CARTA, seu ministro, e elevado a conde. É então e por alguns annos o chefe da opposição ao regente, e isso o affasta da campanha começada em 32. Nos apuros do Porto vem de Paris; e successivamente general de um exercito, marquez, dotado com 100 contos de bens nacionaes, vae pouco a pouco inclinando para a direita, até que em 1835 preside um ministerio cartista. A corôa conquistou-o. E desde então começou a pôr ás ordens d’ella a sua influencia e a sua espada. Conspira em Belem contra os setembristas; subleva-se no anno seguinte. A constituição de 38 tral-o da emigração ao reino, e até 46 não bole. No 6 de outubro é porém elle a espada com que a rainha expulsa os setembristas do governo; e por mais de dois annos, até ao meiado de junho de 49, é o presidente do conselho cabralista, embora em dezembro de 47 queira impedir a volta ao reino do eminente chefe do seu partido. Cedendo-lhe em 49 o governo, virou-se logo contra elle, e d’ahi começou a guerra declarada que veiu a acabar na Regeneração.

Mas que podia regenerar quem, depois de tantas aventuras, devia achar-se dorido, e mais ou menos enlameiado depois de tão largas viagens?

É vaidoso e cheio de si. Demasiado abatido na má fortuna, enfunado e boiante na prosperidade, e pouco agradecido aos amigos do infortunio. É mudavel e contradictorio. Está muito velho e russo, e como signaes de edade temos notado n’elle um pendor e turno decidido para a mystica, onde parece que acabará como todos os bourbons, nos braços de uma supersticiosa devoção; e tambem pensamos que se hoje houvesse frades iria, por imitação do grande condestavel, vestir a roupeta do Carmello. Montalembert e Valdegamas converteram-no em Paris. Estuda theologia. (Rocha, Rev. de Port. 1851)

O retratista perspicaz, que tão a proposito notava a physionomia de Saldanha, esboçando-o como um typo medieval, entre barão e monge, não esquecia, porém, um traço que é commum aos heroes da Edade-media, aos modernos, e aos de todos os tempos: a necessidade de dinheiro. «Allega que não póde passar sem vinte contos por anno», (Ibid.) e as cousas tinham-no forçado a demittir-se de todos os seus rendosos cargos. Como viveria sem os vinte contos? Não foi Saldanha o primeiro dos barões rebellados por dinheiro; mas em caracteres taes, de si confusos, sem lucidez nos planos e designios, não se póde dizer que o dinheiro seja o estimulo immediato e directo, como é nos genios frios, politicos, em que a habilidade predomina.