Em tal estado o veiu encontrar Saldanha, convidando-o a prestar a authoridade do seu nome e do seu conselho á empreza em que ia lançar-se.[33] Herculano, como todos os que lidam mais com idéas do que com homens, era quasi infantilmente ingenuo. Intelligencia fomalista, não era tampouco dotado da perspicacia que adivinha os caracteres, deslindando as confusões da inconsciencia alheia, e definindo com clareza as situações. A sua imaginação poetica viu no marechal um penitente de antigos erros, a sua nobreza ingenita viu uma dedicação nobre; e o seu patriotismo e a sua doutrina viram tambem chegado o momento da paz, da ordem, da organisação definitiva do liberalismo. Entregou-se todo, de corpo e alma, e abriu as portas da sua casa da Ajuda ás reuniões dos conjurados. Alli se pactuaram as reformas urgentes que o marechal realisaria assim que tornasse vencedor: as eleições directas, a abolição da hereditariedade nos pares, a dos vinculos gradualmente convertidos em pequena propriedade emphytheotica. Herculano exigiu que tudo se fizesse com gente nova, excluindo os velhos todos, «de outra fórma seria o mesmo que d’antes»; exigindo para si que o não fizessem ministro. Trabalharia, ajudaria com o seu conselho, mas para governar «não tinha queda». Saldanha, provavelmente sincero, applaudia, enthusiasmava-se, obedecia, promettia.


No dia 7 de abril de 51 saiu Saldanha para fazer a revolução no Porto. Mas o governo, sem força para o prender, seguia-lhe os passos e machinações. A revolução, como invariavelmente succedia, devia ser o pronunciamento da tropa; porém Saldanha viu com magua quanto havia descido, pois nem os commandantes nem os officiaes se prestavam a acompanhal-o. Os progressistas do Porto consideravam tudo perdido, e o marechal fugia tristemente para Hespanha, indo parar a Lobios aquelle que para ahi mandara em 28 o seu exercito. Já estavam presos na Relação os officiaes conjurados, e Victorino Damasio, antigo soldado da JUNTA, engenheiro emprehendedor que ficara no Porto creando fabricas; Damasio, appellando para os sargentos, e vendo que o governo tambem os prendia, appellou para os cabos: appellaria para o seu regimento de operarios em ultima instancia! Não foi necessario, porque com chaves falsas forjadas no Bolhão, introduziu Salvador da França no quartel de Santo-Ovidio, e os cabos e soldados do 18 proclamaram a Revolução. (Delgado, Elog. hist. de J. V. Damasio) Saldanha regressou, e, com a tropa atraz de si, foi sobre Coimbra.

De Lisboa para Coimbra tambem saíra o generalissimo D. Fernando com tropa atraz; mas, quando tinha de atravessar a ponte do Mondego, achou uma tranca passada de lado a lado e os estudantes que lhe seguraram as redeas do cavallo, mandando-lhe tirar o chapéu e dar vivas ao Saldanha. O rei, que era a urbanidade em pessoa, não podia recusar-se, e fel-o; retirando logo para Lisboa a contar a tranca da ponte, e a reclamar a queda do ministerio. Ministerios e partidos valiam acaso o trabalho de partir por meio um madeiro? Não valiam; ninguem já tinha força para cousa alguma. Derreados e desilludidos, todos, no aborrecimento universal, admittiam tudo, e tinham razão para isso. O maior crime do conde do Thomar era desconhecer o tempo de agora, querendo usar da força contra uma resistencia pastosa e molle. Raivoso e desesperado, quando viu chegar D. Fernando no seu cavallo a passo, e opinar pela queda do ministerio com a voz fanhosa e arrastada com que dera os vivas ao Saldanha; raivoso, «a gente do paço dizia que o conde do Thomar chorara grossas lagrimas e com as suas mãos labregas se agarrara ao puro manto da rainha: valha-me senhora! proteja o seu fiel ministro!» (Rocha, Rev. de Port.) Não é natural que a rainha costumasse andar por casa de puro manto, embora seja de crer que o ministro apellasse para aquella que tanto lhe devia, que chorasse de raiva observando as deserções rapidas dos homens que elle tirara do nada. Se até o proprio irmão, o José-dos-conegos, se voltou contra elle no dia em que Saldanha se bandeara!

Teve do fugir outra vez, e o duque da Terceira occupou-lhe o posto (26 de abril) conservando o ministerio decapitado. Era a esperança do manter o partido, sacrificando o chefe? ou o conde de Thomar pensava em ir repetir a campanha diplomatica de 46, e pedir aos seus amigos de fóra que o viessem restaurar? Esses amigos, porém, tinham caído. O doutrinarismo morrera com Guizot em fevereiro de 48, e já não havia miguelistas. Taes fortunas não se repetem na vida: d’esta vez a quéda era para sempre. O doutrinarismo, dissemos, morrera em 48, e a França vivia ao tempo sob o governo republicano: iria pois haver uma republica entre nós? Não faltava quem o desejasse: Sampaio e José-Estevão, Cazal, Braamcamp, Nazareth—os homens novos do velho setembrismo. Portugal, porém, caminhara mais depressa do que a França: a republica de 48 tivera-a em 36, e o imperio de 52 vinha sendo reclamado desde 49: era a traducção real da palavra nova, REGENERAÇÃO. Rodrigo era um Morny, beirão e burguez. Que motivo havia para este nosso adiantamento? Um motivo evidente e simples: a superior consistencia social da França, a nossa extrema miseria, a nossa fraqueza singular. O principio do individualismo anarchico e liberal, destruidor do passado e da tradição, creador de uma nova classe de ricos saídos da concorrencia, tinha de acabar n’um scepticismo systematico e n’uma confissão formal da idolatria da Utilidade, depois de ter percorrido o circulo de experiencias e ensaios possiveis dentro das fórmulas, e depois de ter demonstrado o vazio de todas ellas. N’um paiz caduco, essa evolução fazia-se muito mais rapidamente: por isso era já impossivel saír do doutrinarismo para o idealismo republicano, como em França; por isso os moços republicanos como José-Estevão adheriram á regeneração, proclamando a necessidade de melhoramentos materiaes; (Oliveira, Esb. hist.) por isso Rodrigo, um precursor, batido por um intruso em 42, ia vencer definitivamente em 51.

2.—O FIM DO ROMANTISMO

Na capital havia uma anciedade singular pela volta do triumphador. Tinham-lhe mandado vapores, para elle com a sua gente vir do Porto, e cada qual fazia o possivel para o conquistar para si. Choviam as cartas. Os ordeiros pediam-lhe prudencia, Antas pedia-lhe audacia: «Ponha de parte todos os obstaculos: colloque-se na situação de um chefe revolucionario». (Carta de 5 de maio; em Carnota. Mem.) No paço, D. Fernando chorava—porque? e a rainha anciosa entrevia a possibilidade de uma abdicação forçada. Que faria Saldanha? Deixar-se-hia seduzir pelas acclamações de regente que a turba lhe ia dar ao desembarque? Outros temiam uma traição palaciana para o abafar, matal-o—quem sabe? A rainha em pessoa era forçada a escrever-lhe, protestando a sua lealdade. (V. a carta em 8 de maio; em Carnota, ibid.) Uns aconselhavam-lhe que não desembarcasse no Terreiro-do Paço, que fosse á Pampulha—os vivas eram perigosos! outros aconselhavam-lhe Cascaes: havia machinas armadas para o matar! Este via a esquadra franceza apresando os vapores na costa, aquelle os navios inglezes apresando-os no Tejo: venha por terra! E o proprio Herculano, assustado, lhe escrevia: «Marechal! marechal! lembre-se de que a sua vida, a sua salvação, a sua liberdade, são a vida, a salvação e a liberdade do paiz!» (V. a carta; ibid.)

A entrada de Saldanha em Lisboa (15 de maio) foi um triumpho. Tomou posse do governo, e o rei entregou-lhe o bastão do commando-em-chefe. Contente, radiante, Saldanha despicara-se. A rainha em pessoa, no theatro, teve de acclamar, de pé na sua tribuna, o—mais uma vez—rei de Portugal. Chamavam-lhe de novo D. João VII. E o bom do marechal acreditava-se ingenuamente um Augusto, vencedor de Lepido Cabral e de Antonio-Passos, dos cartistas e dos setembristas, fundador do novo imperio regenerado. Em vão Terceira e José Cabral, no club da rua dos Mouros, palacio do Galvão, projectavam restaurar a CARTA pura de cabralismo, tentando sublevar a guarnição de Lisboa. (18 de maio)

Saldanha tinha-se compromettido a abandonar ao seu descredito os homens velhos, a consolidar com gente nova a paz dos partidos; e no primeiro momento, afogueado com a sinceridade satisfeita de vencer, implorava de Herculano que acceitasse a pasta do Reino, ao que o escriptor terminantemente se oppoz, ficando de fóra como um conselheiro dedicado, leal e convicto. Soure e Pestana de um lado, Atouguia pelos ordeiros, Franzini preenchendo as finanças pelos cartistas, e Loulé por parte do setembrismo: eis o ministerio que havia de regenerar a nação, convocando uma camara que fosse a legitima representante da vontade do paiz.

Mas, na commissão da lei eleitoral debatia-se um problema grave: teriam, não teriam voto os guardas do tabaco? Continuaria, não continuaria a ser o contracto (inteiramente affecto ao ordeiro Rodrigo, ainda de fóra) um poder do Estado? um patrono da URNA? Fontes, homem novo, de instinctos imperiaes, amanhados por seu mestre e protector Rodrigo, era pelos guardas, a que se não podia negar o direito de cidadãos, etc.—discursos e phrases que irritavam Herculano e o levavam a protestar desabridamente contra a falta de brio da mocidade. O ingenuo philosopho appellava ingenuamente para Saldanha, agradecido ao favor de amigo, com que, em confidencias intimas, o marechal lhe contava os embaraços da sua bolsa.—E se mettessemos o Rodrigo? dizia Saldanha; e Herculano respondia que sairia elle, pois seria continuar a vida antiga, quando o seu proposito era crear uma vida nova de liberdade, sinceridade, honra, brio, e nobreza moral. O marechal applaudia, abraçava-o; e no dia seguinte voltava: «E se mettessemos o Rodrigo?»—contando mais uma vez os apuros em que se achava e os embaraços crescentes cada dia.