Herculano começou a reparar, a meditar, e descobriu por fim a razão das confidencias e perguntas insistentes. Era um Portugal regenerado, era, mas havia modos varios de conceber a regeneração; e Saldanha debatia-se entre o modo de Herculano que inspirava o ministerio, e o modo de Rodrigo, modo pratico e politico, que se propunha substituil-o e o havia de conseguir. Estavam pelo seu lado a fraqueza podre de todas as clientelas, a anemia da nação exhausta por uma serie de catastrophes, a começar da primeira, a vinda dos francezes. Chegara o dia da victoria do scepticismo antigo, e do utilitarismo moderno. Rodrigo e Fontes, um velho e um moço, duas faces de um só pensamento, mestre e discipulo, o antigo letrado rabula e o novo engenheiro habil, janota e pratico, são as figuras eminentes da definitiva regeneração. (Min. de 7 de julho)

O breve intervallo de uma esperança de reforma moral terminava. Saldanha voltava á realidade. «A sua bondade levou o a crêr na santidade dos homens e na possibilidade de formar um governo de anjos», dizia Algés (V. Carnota, Mem.) que não era nenhum anjo, applaudindo a isenção com que o marechal saccudira a tyrannia. Levado pela mão de Rodrigo, respirava bem, porque só o adulavam, não o importunando com exigencias estoicas. A Regeneração foi o ultimo acto de Saldanha, porque o seu 19 de maio (1870), saldanhada por excellencia, é um episodio da senectude, só proprio para demonstrar a cachexia politica da nação. Já ocioso no governo, o marechal pôde mostrar que tambem se regenerara, quando caíu do poder em 56. Entregou-se a outras batalhas: e o que fôra bandeira de revoluções passou a rotulo de companhias. (Luso-Hespanhola, Guano chimico, Minas de Leiria) Boiara sempre á mercê dos acontecimentos: eram elles que o levavam para o campo das contendas. Assim como sonhara sempre com a pompa clamorosa e balofa, assim agora, acabando, sonhava fortunas, dividendos, riqueza para toda a sua familia de pedintes: «Não haverá parentes pobres!» (Carnota, Mem.) O bom marechal não era cubiçoso: era apenas simples. Simples no gabinete, simples no escriptorio das emprezas, simples na carteira do escriptor: depois da Fé, entregara os ocios á Pecuaria; e por fim acabou na Homœopathia, vencedor do dr. Bernardino. (1858) Castilho, com a sua lisonja ironica de litterato, escrevia-lhe: «Adeus, meu caro Achilles; guerreiro, medico e escriptor a um tempo: porém Achilles banhado na preciosa agua da vida desde a cabeça até ao calcanhar—inclusivamente». (V. carta; ibid.) Ingenuo, o marechal tomava-se sempre a sério. Não é triste vêr assim escarnecida a figura de um como que heroe, pela gargalhada perfida do litterato?

Saldanha acabou. Voltemos á Regeneração.


Publicado o Acto addiccional, não se boliu mais na constituição; ficaram em paz os pares, os vinculos, o Contracto. Já em 32 tinham escapado, sem se saber como, á furia de Mousinho: salvavam-se agora milagrosamente das ameaças de Herculano.

O excentrico, sem ambições, voltou aos seus estudos. Ainda em 56 o vemos inscripto no centro eleitoral progressista, mas as suas esperanças poeticas morreram. Como não chegara a governar, como não vira desmanchar-se-lhe nas mãos a sua chimera liberal, ficou pensando que a liberdade era excellente, apenas detestaveis os seus sacerdotes. Como vinha depois do cartismo e do setembrismo, como aprendera com a queda de Guizot e com os desvarios da segunda republica franceza, a sua intelligencia descobria lhe respostas e emendas a todos os erros, pois a doutrina que chegou a conceber e formular trazia raizes de varias origens. Era radical como kantista, era municipalista como erudito, sem ser democrata, mas tendo laivos de socialismo pratico: era sobretudo a concepção de uma sociedade de estoicos, á imagem do caracter do que a formara. Era a condemnação do materialismo pratico, do scepticismo: a condemnação d’esse movimento em que entrara, por não ter a perspicacia bastante para ver que a nação pedia exactamente o inverso do que elle queria dar-lhe. Portugal já não tinha nervos para ser nem virtuoso, nem doutrinario de especie alguma.

E o philosopho, voltando aos seus estudos, levou a sciencia d’este facto, que mais ainda o empedernia no fanatismo da sua opinião. Sem o temperamento poetico e doce de um Passos, a sua descrença não se traduzia em perdões humanitarios, formulava-se em sentenças terriveis; e mais forte, intelligente e sabio do que o democrata, o desmanchar das suas esperanças não destruia a sua convicção no valor dos systemas e idéas. A singular physionomia de um homem que de fóra da vida publica tanta influencia exerceu sobre ella, ha de obrigar-nos e estudal-o no seu exilio voluntario.

Escarmentado pela maneira por que fôra illudido a sua colera rompeu violenta nos dias immediatos á verdadeira Regeneração:

A historia politica é uma serie de desconchavos, de torpezas, de inepcias, de incoherencias, ligadas por um pensamento constante,—o de se enriquecerem os chefes do partido. Idéas, não se encontram em toda essa historia, senão as que esses homens beberam nos livros francezes mais vulgares e banaes. Hoje achal-os-heis progressistas, ámanhan reaccionarios; hoje conservadores, ámanhan reformadores: olhae porém com attenção e encontral-os-heis sempre nullos. (Paiz, 29 de outubro)

Esta condemnação formal dos homens, de todos os homens, exprime a misanthropia do que não entende nem obedece á corrente fatal que arrasta a sociedade: