O erro deploravel dos adeptos de certa eschola é desprezarem a distincção entre o progresso que influe no melhoramento moral e social dos povos e aquelle que só melhora a sua condição physica. (Os vinculos)
Era essa eschola que o vencia e batia; e Herculano, sem reconhecer que, como conclusão natural da anarchia liberal se chegava ao scepticismo; sem reconhecer que para isso concorriam as novas classes aristocraticas formadas pela concorrencia, as novas forças organisadas com os capitaes moveis e a terra livre, a tendencia industrial fomentada pelas descobertas scientificas; sem ver que taes phenomenos eram communs a toda a Europa: Herculano attribuía tudo á perversidade dos seus conterraneos e á mesquinhez da sua patria.
Em civilisação,—dizia, e era verdade—estamos dois furos abaixo da Turquia e outros tantos acima dos hottentotes. Agitamo-nos no circulo estreito das revoluções incessantes e estereis; a legalidade tornou-se impossivel, a acção governativa um problema insoluvel. (Paiz, 24 de julho)
Rodrigo era ministro havia dias e ia desmentil-o. Desmentiu-o com effeito, dando á nação o governo que ella pedia, e ao tempo aquella legalidade apparente, aquelle systema de burlas, indispensavel ao funccionar da machina constitucional.
E tanto Rodrigo tinha razão, tanto o estoicismo nobre de Herculano vinha fóra de tempo, que toda a gente acclamou vencedora a rapoza ordeira, com a sua cria, brunida, sécia e petulante. Toda a gente apedrejava o conde de Thomar—um importuno! todos, Passos—um louco! todos, Herculano—um caturra de genio azêdo! O proprio Garrett, ajanotado, com os cabellos pintados, espartilho e colletes mirabolantes, artista que, obedecendo á moda romantica, chamara ao mundo «uma vasta Barataria em que domina el-rei Sancho» (Viagens), ordeiro que assim condemnava o cabralismo precursor:
Plantae batatas, ó geração do vapor e do pó-de-pedra; macadamisae estradas; fazei caminhos de ferro; construí passarolas de Icaro, para andar a qual mais depressa estas horas de uma vida toda material, massuda e grossa, como tendes feito esta que Deus nos deu tão differente do que a vivemos hoje. Andae, ganha-pães, andae; reduzí tudo a cifras, todas a considerações d’este mundo a equações de interesse corporal, comprae, vendei, agiotae.—No fim de tudo isto, que lucrou a especie humana? Que ha mais umas poucas de duzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas-politicos, aos moralistas, se já calcularam o numero de individuos que é forçoso condemnar á miseria, ao trabalho desproporcionado, á desmoralisação, á infamia, á ignorancia crapulosa, á desgraça invencivel, á penuria absoluta para produzir um rico? (Viagens)
O inconsequente artista, com todas as fraquezas proprias d’esse typo de homens, brunido, pintado, postiço, encobrindo a edade depois de ter inventado o nome para se afidalgar, (V. Amorim, Garrett) tambem consagra a victoria da geração do vapor, sentando-se (4 de março de 52) no ministerio entre Rodrigo e Fontes. A sua vaidade pueril exigia-lhe esse prazer; mas a sua intuição maravilhosa descobrira o caracter da edade-nova: o fim do romantismo e da liberdade, sua filha legitima; o comêço de uma historia que, principiando pelo imperio anarchico da aristocracia dos ricos, pelo governo immoral da corrupcão intima de todas as cousas, pela adoração do bezerro-d’ouro, havia de, por tal preço, reconstituir primeiro as forças economicas das sociedades abaladas por longas crises doutrinarias, para depois voltar á moral e ao direito, reconstituindo os orgãos e funcções sociaes. Entre o romantismo liberal e a democracia futura está a regeneração (nome portuguez do capitalismo), um periodo triste, mas indispensavel como consequencia do antecedente e preparação do ulterior.
A nova esperança de Herculano appareceu como episodio fortuito no meio da evolução natural; e a corrente das cousas fataes envolveu-a, rolou-a, deixando-a á margem, abandonada como objecto singular e anachronico.
Vidente, especie de Jeremias, sobre as ruinas do Templo, ficou o philosopho, a quem a politica—tyrannia fatal das nações minusculas!—interrompia, perturbava, levava a abandonar os seus estudos sabios. Os tempos foram correndo, e a miseria nacional crescendo. Veiu um rei, especie de D. Sebastião liberal, tambem anachronico, e Herculano acaso teve ainda alguma esperança. Amou-o. «Se eu tivesse um filho e me morresse, não me custava mais a morte d’elle do que me custou a d’aquelle pobre rapaz!» Mas D. Pedro V acabou cedo, moço: foi-se como uma apparição, levado n’uma onda de lagrimas; e o philosopho preparou-se para morrer, enterrando-se n’um exilio voluntario. Ahi, essa imagem viva de outros homens, deu calor, vida, licção e amisade a muitos homens novos que aprenderam com elle a condemnar o presente, embora o fizessem com idéas e principios que lhe irritavam a intelligencia, sem diminuirem a amisade do antigo e inconvertivel romantico.
A sua hora chegou por fim, e, ao sentil-a vir, affagou-a. Olhava em roda e dizia comsigo: «Isto dá vontade da gente morrer!» Pato, (Ultimos mom. de A. H.) Isto, deviam ser muitas cousas: a Liberdade naufragada, a vida vivida em vão, a patria miseravel, os homens cada vez mais razos! Elle foi o ultimo dos que possuiram alma bastante para protestar, para accusar. Depois d’elle, as gerações convertidas ao optimismo, commodo para a intelligencia que assim descansa e para o corpo que assim engorda, acharam que viviamos no melhor dos mundos possiveis; que Portugal é pequeno «mas um torrão de assucar», como dizia a Link o corregedor de Vizeu. Os Pancracios ou Falstaffs achavam afinal a verdadeira liberdade: consummara-se a revolução definitiva, morria afinal o ultimo e importuno Jeremias.