«Portugal é uma vasta Barataria em que reina (liberalmente) el-rei Sancho.»
3.—O SOLITARIO DE VAL-DE-LOBOS
A cova do cemiterio de Azoia onde baixou o cadaver de Herculano no verão de 77 é, no seu isolamento, o symbolo da insensibilidade com que Portugal o sepultou. Os camponezes arrancavam das oliveiras do Val-de-Lobos tristes ramos d’essas pardas arvores melancolicas, em memoria do que vivera entre elles: sejam tambem estas palavras, esboçadas pouco depois da morte de Herculano[34] e agora de novo escriptas: sejam tambem como um ramo de saudades deposto por mão fielmente amiga sobre a pedra do sepulchro.
Os camponezes celebravam, poetica, ruralmente, um saímento que deixava indifferentes os grandes homens de Lisboa; e assim devia ser, porque o morto fôra em vida um açoite para os poderosos, e um pae, um protector, um amigo, para esses humildes em cuja sociedade vivia. Como um Voltaire no seu retiro, Herculano era uma especie de patrono dos camponezes, defendendo-os contra os casos arbitrarios de uma justiça, de uma politica, muitas vezes cruel. O mesmo que já reclamara uma esmola para as pobres freiras de Lorvão, era o que salvava do degredo um condemnado da Azoia, victima de um erro judiciario, sem poder evitar que a cadeia o matasse com as doenças alli ganhas. Herculano, procurador do infeliz, vinha a Lisboa, pedia, batia de porta em porta, subia ás casas dos conselheiros—e com que ironia contava a sorte a que se via reduzido!—para alcançar o perdão da victima injustamente condemnada em todas as instancias. Sob uma descrença convicta nos homens, elle, afinal, tinha no coração uma ingenuidade feminina, e sob o aspecto rude de uma quasi affectada dureza, uma verdadeira meiguice, uma caridade doce, uma candura diaphana.
O seu genio produzia o seu pensamento. Era uma intelligencia lucida enkystada em fórmulas duras, e um coração bondoso e meigo, encoberto pela educação, sob um exterior rigido e apparentemente hostil. Quem o ouvia, depois de o ter lido, irritava-se muitas vezes; quem o tratava não podia deixar de o amar. Ingenuo como uma creança, mais de uma vez foi visto dando o braço, nas suas palestras peripateticas do Chiado, a algum janota a quem expunha a theoria de Savigny sobre os municipios da Edade-média: o janota ouvia, orgulhoso, mostrando-se,—porque então era moda, como alguem disse, «trazer o Herculano ao peito». Se o advertiam, elle, sem se offender, ao contrario, respondia com uma fala arrastada e séria: oh, di.a.bo!
Era a candura propria dos bons; mas o singular no genio de Herculano estava na força de uma convicção que, em vez de religiosa, era civica, e que, portanto, em lugar de se affirmar condemnando abstractamente o mundo como um mystico, affirmava-se condemnando individualmente os homens, pelos seus nomes, como um Juvenal ou um Suetonio. Ninguem lhe falasse no Saldanha, no Rodrigo! E esta direcção que o seu estoicismo tomára levado pela vida de Portugal, fazia com que, para muita gente, Herculano passasse por um ser duro, aspero, intractavel, construido apenas com orgulhos e odios.
Mas, se no fundo do seu coração havia notas doces de meiguice e uma candidez ingenua, não foi sem duvida este o traço dominante do seu caracter. Ao lado da humanidade tinha Herculano a dureza e a força lusitana; e por cima da espontaneidade, abafando muitas vezes o coração, dando sempre uma fórma intelligivel á força, viera a educação racionalista dar uma unidade, mais ou menos consistente, aos seus pensamentos e aos seus sentimentos. Assim, a palavra que o retrata é o Caracter, porque n’elle a vida moral e intellectual eram uma e unica: o contrario do sceptico, não raro santo, o proprio do estoico, não raro obtuso.
Dizemos pois Caracter no sentido e valor que a palavra teve na Antiguidade, e não na vaga accepção moderna. Não é a vida intemerata, não é o desprezo dos bens mundanos, o odio á ostentação van, a recusa desabrida de titulos, de honras, de lugares, que em si constituem o Caracter: embora a repugnancia pelas cousas mesquinhas seja consequencia indispensavel d’esse modo de existir que consiste essencialmente na afinação perfeita das regras da moral e dos principios da intelligencia, da vida do cidadão e da existencia do philosopho. O typo do caracter á antiga é o estoico, e este é o nome que propriamente define a physionomia de Herculano; este é o typo que passo a passo veiu crescendo até dominar nos ultimos annos, quando as licções successivas do mundo, nunca estoico e muito menos do que nunca em nossos dias, e muito menos do que em parte alguma em Portugal: quando os desenganos do mundo o degredaram para o exilio, não como um martyr, mas como um homem que, protestando sempre, se não converte, nem se corrompe.
Por isso o estoico é por natureza austero e duro; e na pessoa de Herculano esse genero aggravava-se com effeito por varios motivos: já pelo seu temperamento lusitano, já pela deploravel baixeza do nivel moral da sociedade portugueza, já pelo saber consideravel systematisado pelo philosopho e sem duvida alguma desproporcionado para a illustração média do paiz em que vivia. Olhando para as miserias alheias e para a alheia ignorancia, por modesto que fosse—e não o era—viu-se muito acima, como homem e como sabedor. Isto, e não a cohorte dos aduladores ineptos a que não dava importancia, embora a sua bondade os não fustigas-se, fazia-o inconscientemente orgulhoso, porque nenhum orgulho nem pedantismo tinha para com todos os que via crédores de attenção e respeito.
Do accôrdo da intelligencia e da moral vem ao estoico um pensamento bem diverso e até opposto ao dos santos, que do antagonismo sentido partem para as soluções mysticas. Esse pensamento é o individualismo, cujo traço fundamental consiste na idéa de que o homem é em si um ser completo e a unica verdadeira realidade social; a idéa de que a razão humana é a fonte do conhecimento certo e absoluto, a consciencia a origem da moral imperativa, e a liberdade, portanto, a fórmula da existencia social. D’este modo de vêr as cousas nasce aquillo a que podemos chamar o orgulho transcendente, isso que os antigos estoicos disseram Caracter, quando pela primeira vez uma tal fórma de pensamento appareceu systematisada em doutrina.