Se na mocidade, pois, ao vêr terminada a iniciação dolorosa que as suas poesias nos contam, Herculano, ainda impellido por illusões generosas, ainda incerto do destino fatal do seu genio, entrou na batalha da vida como soldado, esperando chegar a vêr realisadas as normas esboçadas em seu espirito, esse enthusiasmo caíu depressa; e já no ardor com que escreveu a Voz do Propheta, para condemnar a democracia, anti-liberal em sou conceito, se vê esboçada fugitivamente a condemnação futura dos partidos todos sob a fórma artificial do um estylo prophetico, á Lammenais. O momento de se convencer das razões de uma tal sentença chegou em 1851, quando fugiu corrido de vergonha e tédio perante uma corrupção que se lhe figurava excepcional e unica. Passou á condição de caturra para os homens practicos, de orgulhoso para os simples, e de protesto symbolico contra a decadencia portugueza, e contra o abatimento universal da Europa, utilitaria e imperialista, para os que, de fóra do mundo, como criticos, observam e classificam os phenomenos. Tornou-se o remorso vivo de uma nação degenerada. É n’este momento que as cousas levam o genio de Herculano a definir-se na sua pureza; e é por isso que ao extinguirem-se-lhe as illusões politicas, principia a tornar-se um typo o caracteristico da nossa vida contemporanea. Póde dizer-se que, ao morrer para o mundo, nasce para a historia. O lugar que lhe compete, na galeria dos nossos homens modernos, é este. Embora já antes o seu nome tivesse andado nos programmas e polemicas, a sua individualidade não se destacava ainda senão pelo valor addicional da reputação litteraria conquistada.

No revolver da vida agitada em que se achára, iam pouco a pouco reunindo-se, como que cristalisando, os elementos da individualidade futura, distincta e typica. A nobreza e a rectidão ideal do seu espirito tinham na sua profundidade o motivo de uma cegueira systematica para pesar e medir as cousas reaes com a imparcialidade fria de um critico, ou com a caridade de um santo. Com o seu metro absoluto e integro, Herculano, na agitação do mundo, corria atraz da chimera de achar aquelles homens que o seu estoicismo concebia, aquelles raros, dos quaes elle era em Portugal um e unico. O critico, se é politico, manobra com os homens como um general com um exercito, auscultando as vontades e os caprichos, dirigindo as forças direito a um fim, sem attenção pelos instrumentos d’elle. Perante os homens, o santo tem na piedade uma força intima: a coragem que não abranda; tem o enthusiasmo que o move e a caridade que lhe explica e lhe faz comprehender, em Deus, as fraquezas e as miserias da terra. Combate, pois, sem recuar, levando nos labios a palavra de uncção e o sorriso de uma ironia boa, ao mesmo tempo cauterio e balsamo. O estoico, porém, ferido, pára. O mundo era elle e nada mais além da sua razão, da sua consciencia, da sua liberdade. E quando as feridas, as perseguições, os ataques, os ultrages são profundos e agudos como os que expulsaram da politica—e tambem das lettras—Alexandre Herculano, o estoico, repetindo a phrase historica do Africano, suicida-se. É então que vivamente nasce, pois só então o caracter apparece em toda a sua pureza.

Não o mata o scepticismo, mata-o o excesso de uma doutrina imperfeita. Não descrê, e é por cada vez mais acreditar em si que foge a um mundo rebelde a ouvir a verdade. A morte não é pois um acto de desespero, é um acto de fé. Só a differença dos tempos fez que no suicidio do Herculano não entrasse o ferro, como entrou nos suicidios estoicos da Antiguidade. A vida assim coroada, o homem assim transfigurado n’um typo e a sua palavra e o seu exemplo n’um protesto, superior ao mundo e ás suas fraquezas, ficam aureolados com o forte clarão dos heroes, lume que aos navegantes, errando no mar escuro da vida, guia a derrota e indica o porto.


O racionalismo kantista foi o molde onde se vasaram em systema as tendencias naturaes do espirito de Herculano, um D. João de Castro da burguezia e do seculo XIX. O antigo estoicismo portuguez era catholico e monarchico; o estoico de agora foi romantico e individualista, exprimindo a reacção contra a religião dos jesuitas e contra a doutrina da Razão-d’Estado que, depois de ter feito as monarchias absolutas, fizera a Convenção e Napoleão.

O kantismo como philosophia, o individualismo como politica, o livre-cambio como economia, eis ahi as tres phases da doutrina que, por ser um philosopho, Herculano medía em todo o seu alcance.

Eu, meu caro democrata e republicano, nunca fui muito para as idéas que mais voga tém hoje entre os moços e que provavelmente virão a predominar por algum tempo no seculo XX, predominio que as não tornará nem peiores, nem melhores do que são. A liberdade humana sei o que é: uma verdade da consciencia, como Deus. Por ella chego facilmente ao direito absoluto; por ella sei apreciar as instituições sociaes. Sei que a esphera dos meus actos livres só tem por limites naturaes a esphera dos actos livres dos outros e por limites facticios restricções a que me convem submetter-me para a sociedade existir, e para eu achar n’ella a garantia do exercicio das minhas outras liberdades. Todas as instituições que não respeitarem estas idéas serão pelo menos viciosas. Absolutamente falando, o complexo das questões sociaes e politicas contém-se na questão da liberdade individual. Por mais remotas que pareçam, lá vão filiar-se. Mantenham-me esta, que pouco me incommoda que outrem se assente n’um throno, n’uma poltrona ou n’uma tripeça. Que as leis se affiram pelos principios eternos do bom e do justo, e não perguntarei se estão accordes ou não com a vontade de maiorias ignaras. (Extr. da corresp. com o A. carta de 10 de dez. de 1870)

Herculano é o legitimo discipulo de Mousinho, que tanto admirava; e, depois do que dissemos ácerca da theoria individualista, ao estudar o primeiro defensor d’ella entre nós, parece-nos desnecessario entrar em repetições. Já avaliámos o merecimento, já tambem vimos as consequencias practicas de uma idéa que, supprimindo toda a especie de authoridade collectiva, resumindo na consciencia individual a origem do direito, funda a sociedade sobre uma nova especie do antigo pacto dos juristas. Renegando o direito-divino dos monarchas, expressão tradicional, renega a soberania popular da democracia, expressão ainda com effeito por definir, ensaio rude, arithmetico, tyrannia brutal do numero, imperio de maiorias ignaras; mas expressão embryonaria da futura authoridade organica do Estado.

Tomando a nuvem por Juno, o individualismo não distinguia o que necessariamente tem de grosseiro e rude um primeiro ensaio. Ainda então as sciencias naturaes não tinham caracterisado definitivamente o movimento das idéas do seculo, nem a verdadeira natureza organica das sociedades humanas, outra especie de colmeias ou formigueiras;[35] ainda o espiritualismo fazia do homem um milagre e das suas sociedades actos voluntarios, pactuaes. Mas, inconsequente, o individualismo não propõe afinal outra fórmula senão a do governo dos numeros brutos, das maiorias ignaras: que ha de propôr, senão essa fórma inexpressiva de uma força positiva indispensavel á cohesão social, desde que não ha nas idéas um principio organico?

Para quem tem estas crenças, a questão das monarchias e das republicas é uma questão secundaria. Se entende que a monarchia corresponde melhor aos fins, prefere-a; prefere a republica, se entende o contrario. Tão illegitimo acha o direito divino do soberania régia, como o direito divino da soberania popular. Para elle, a soberania não é direito, é facto; facto impreterivel para a realisação da lei psychologica e até physiologica da sociabilidade; mas em rigor, negação, porque restricção, nos seus effeitos, do direito absoluto, e cujas condições são portanto determinadas só por motivos de conveniencia pratica, e dentro dos limites precisos da necessidade. Fóra d’isto, toda a soberania é illegitima e monstruosa. Que a tyrannia de dez milhões se exerça sobre um individuo, que a de um individuo se exerça sobre dez milhões d’elles, é sempre a tyrannia, é sempre uma cousa abominavel. (Ibid.)