Este periodo, eloquente, é revelador da energia que as idéas adquirem quando se tornam o sangue do nosso sangue, chegando a desorientar a rectidão ingenita da nossa intelligencia. Herculano, cujo bom-senso, cujo saber lhe não consentiam ir até aonde logicamente manda a doutrina, isto é, até á Anarchia systematica, negação de toda e qualquer sociedade, apotheose do estado selvagem de quasi puro individualismo: Herculano que não é Rousseau vê-se obrigado a chamar conveniencia practica, ao que linhas antes dissera lei psychologica e até physiologica do homem—a sociedade.
É que, com effeito, não basta o principio individualista para nos explicar a physionomia intellectual de Herculano. Varias causas concorriam para o temperar, ou desviar das suas conclusões logicas. O saber é uma d’essas, mas a principal é o seu temperamento estoico. Para Herculano, e em geral para o estoicismo, uma doutrina não é um producto da intelligencia pura, que póde ser, ou não, amado e vivido. O estoico vive com o que pensa, o seu pensamento está no seu coração: é a carne da sua carne, o sangue do seu sangue; é uma fé, não é apenas uma opinião. Eminentemente forte, é por, isso mesmo positivo e practico. As doutrinas são para elle realidades, não são abstracções; e nada valem quando nada representem na esphera da consciencia e da moral, quando nada valham na do direito e da economia. Por isso as conclusões extremas do individualismo, irrealisaveis, practicamente absurdas, immoraes até, repugnantes para o proprio instincto, contradictadas pelo saber mais mesquinho: essas conclusões, delicia de espiritos seccos, de philosophos abstrusos, de ignorantes ingenuos, não podia Herculano, sabio e estoico, abraçal-as. Parava, pois, afim de conciliar a sua opinião com o seu sentimento, e, se em resultado saiam inconsequencias, ellas não fazem senão demonstrar a verdadeira nobreza da sua alma e a tempera rija da sua intelligencia.
Lado nenhum das suas idéas mostra isso mais do que o economico. Tão livre-cambista como individualista, ou ainda mais, porque sentia e temia o socialismo, vendo n’elle um positivo e declarado inimigo e o problema vivo do futuro: ou ainda mais, dizemos, porque não parava, nem limitava as conclusões ultimas, Herculano era radical no free trade, pois acreditava firmemente n’elle como n’uma panacéa. Estoico sempre, a doutrina da concorrencia apparecia-lhe principalmente por um lado secundario para os economistas. O livre-cambio, proclamado como a melhor receita para crear a riqueza, era para Herculano sobretudo a melhor fórma de a distribuir. Queria que as leis pulverisassem o solo, no qual não reconhecia outro valor senão o que o trabalho consolidara n’elle; e esperava que a concorrencia, desembaraçada de todas as peias, creasse uma sociedade proudhoniana, em que todos fossem capitalistas e proprietarios. Como estoico, era um socialista; mas o seu socialismo realisar-se-hia pela liberdade, pela concorrencia. E quando se lhe contavam os casos repetidos, actuaes, do sem numero de monopolios de facto, nascidos, não das leis, mas sim da guerra natural economica, elle parava, scismava e não respondia.
Via-se que lá dentro luctavam a doutrina e a lucidez; e, sem se convencer, sem mudar, apparecia o moralista invectivando os vencedores d’essa lucta d’onde elle esperava a justiça, e d’onde apenas saía o dolo. Ninguem o excedia então; e ao ouvil-o, dir-se-hia algum fugido de Paris, dos tempos da Communa, pois nos referimos agora aos seus ultimos annos, ás vesperas da sua morte, quando a agiotagem livre de Lisboa e Porto provocou uma crise bancaria. Quiz então o governo cohibir a liberdade de emissão, mas não o pôde.
Do folheto do meu amigo[36] o que infiro é que esses banquistas d’ahi são uma alcateia de tratantes e burlões e que o governo quer o monopolio da cousa para uns amigos seus de Lisboa que vam tratando da vida, mas com quem o governo se acha nos apertos trazidos por despezas tantas vezes, posto que nem sempre, irreflectidas e insensatas. As façanhas e cavallarias dos banqueiros do Porto resultam claramente do seu folheto: as do governo são inferencias que d’elle tira a minha damnada má fé.—O governo que faça a sua obrigação; que tenha bem azeitados os gonzos e fechaduras das cellulas e bem safas as escotilhas dos navios da carreira d’Africa. Por indulgencia com a imbecilidade humana (sejamos indulgentes) quando a tratantada fosse de algum banco, bastaria dissolvel-o e filar a direcção. (Ibid. c. de fev. de 77)
Pobre governo que caíu! Pobre Estado, sem força para bater-se com os novissimos Senhorios creados pela liberdade que o philosopho prégava! Porque até perante um claro exemplo das consequencias da concorrencia, como que ferido por um remorso, por uma vaga duvida, Herculano insiste, defendendo a sua opinião arraigada:
Preto velho não aprende lingua. A questão unica de doutrina que me parece haver em toda essa embrulhada é a emissão de notas: se ha de ser livre, se restricta, se monopolisada. Liberdadeiro empedernido no peccado, adopta a primeira solução em toda a sua amplitude. O meu amigo vae para o monopolio: tambem isso é natural. O socialisto vê no individuo a cousa da sociedade: o liberal vê na sociedade a cousa do individuo. Fim para o socialista, ella não é para o liberal senão um meio; creação do individuo que a precedeu, que lhe estampou o seu sello; porque, faça ella o que fizer, nunca poderá manifestar a sua existencia e a sua acção senão por actos individuaes, unidos ou separados. O collectivo n’essas manifestações não passa de uma concepção subjectiva; não existe no mundo real. (Ibid.)
Mas, se essa liberdade expressa na concorrencia economica—a franca emissão de notas, no caso especial tomado para exemplo: mas se essa liberdade conduz a taes resultados, sendo em si excellente, força é que haja um vicio no mechanismo das instituições. E ha, ha sem duvida, diz Herculano, é o anonymato.
Na essencia, a banknote é a expressão do credito que o individuo attribue a si. Que se reunam 7,70 ou 700 individuos para sommarem essas avaliações; que se chamem banco e que exprimam collectivamente o total, isso não muda a essencia da cousa. Supprimia todas as responsabilidades limitadas. A responsabilidade é de sua natureza illimitada até onde chegam os recursos e a pessoa do responsavel. Non habet in posse, dicat in corpore, é maxima que se não devia despresar n’esta questão do abuso do credito. Note que eu desejaria supprimidas todas as responsabilidades limitadas, tacitas ou expressas, manifestas ou disfarçadas. (Ibid.)