Vimos antes como o espirito do historiador erudito corrigia em certo ponto a doutrina individualista; vemos aqui o jurista a corrigir o livre-cambio; vamos ver o canonista a corrigir para a direita o ultramontanismo, para a esquerda o atheismo. A educação do homem temperava os principios do philosopho, e essas correcções eram-lhe indispensaveis para que os seus pensamentos se mantivessem de accôrdo com os seus rectos instinctos, com as suas bellas aspirações: eram-lhe indispensaveis, porque o estoico não admitte divergencia entre a intelligencia e a moral, entre o mundo das idéas e o das realidades.

Mas, se ha pouco notámos a inconsequencia, não é verdade que a opinião de abolir o anonymato é paradoxal—fóra do socialismo que reconhece a instituição anonyma por excellencia, o Estado? Sem anonymato, como levareis a cabo as obras colossaes, a que nenhuma responsabilidade individual basta? Ou condemnareis a realidade fatal em nome dos principios? Como Herculano claramente o via, o anonymato, isto é, a fragmentação do Estado em senhorios economicos, uma especie nova do feodalismo, consequencia necessaria de todas as anarchias: o anonymato é a refutação do individualismo na economia social. Destruindo toda a propriedade collectiva, roubando ao Estado toda a força real, resta apenas á lei um prestigio abstracto que é logo vencido pelas influencias anarchicas ou feodaes do capitalismo individualista. Liberdade quer dizer responsabilidade; e, se uma é um principio absoluto, a outra ha de tambem ser absoluta. Esta é a regra; e n’este ponto não era Herculano, era a fatalidade a origem da inconsequencia. Por cima das theorias galgam e vencem sempre os factos necessarios.

Assim no direito publico o processo das maiorias apezar de ignaras; assim na economia o anonymato, apesar de juridicamente infundado, passam por cima do individuo, da liberdade, da responsabilidade. E, os que vêem com outros olhos os phenomenos sociaes, encontram n’esses factos os primeiros esboços do futuro Estado, que se reconstruirá depois de terminada a evolução natural dos principios liberaes-individualistas. Das maiorias, organicamente representadas, sairá a representação da vontade collectiva; das companhias, opportunamente transformadas, sairá a unificação do poder publico. O voto universal e o anonymato são o esboço rudo da constituição do novo direito politico e da nova constituição economica de sociedades em que o liberalismo destruiu as instituições de protecção e o direito monarchico.


Com fundado motivo dizia Herculano que perante os principios—liberal e socialista, ou individualista e collectivista—era indifferente a questão das fórmas do governo: «pouco me incommoda que outrem se sente n’um throno, n’uma poltrona ou n’uma tripeça». E essa questão da republica ou monarchia, é para elle um problema não só historico, mas tambem religioso.

São na essencia o mesmo o calvinismo e o puritanismo, e o calvinismo penetrou tão profundamente na vida moral dos suissos, como o puritanismo nas antigas colonias inglezas emancipadas. Mas o calvinismo e o puritanismo que são, senão a democracia republicana na sociedade espiritual? A vida politica das duas sociedades foi, digamos assim, uma prolação da sua vida moral. Quando as instituições e as idéas politicas de um povo derivam das suas crenças e instituições religiosas, a manutenção tenaz das primeiras nada tem de extraordinario. (Ibid. c. de 15 de nov. de 72)

Pondo de parte, pois, a questão da opportunidade no momento de uma crise, a republica não parecia a Herculano adequada «á velha Europa, sobretudo a estas sociedades meio-germanicas na indole e celto-romanas na raça[37] que estanceiam ao occidente ... educadas pelo catholicismo que, na pureza da sua indole é o typo da monarchia representativa». (Ibid.)

A tradição religiosa, ou antes aquella pseudo tradição de um catholicismo liberal inventada pelo romantismo, servia, pois, ao philosopho para temperar o seu individualismo, conciliando-o com um resto de authoridade social consagrada nas prerogativas do throno representativo. De tal modo se combinava o racionalismo com o romantismo, e este traço é o que dá a Herculano, ou antes á sua doutrina, um caracter de individualidade original, depois do ensino apenas racionalista de Mousinho da Silveira.

Tambem o temperamento entrava, ao lado da educação, para acabar de afeiçoar a physionomia religiosa de Herculano. O mechanismo do frio Deus kantista não bastava á sua indole peninsular. A imaginação pedia-lhe a antiga historia tradicional; o sentimento reclamava o quer que é de affectuoso e meigo—a doce caridade catholica—e o bom senso exigia o culto e pompa que impressionam as massas. O protestantismo, alvo das suas acerbas satyras, não satisfazia a sua alma, nem as suas exigencias de canonista. Nada propenso ao mysticismo, e até rebelde a comprehendel-o fóra da caridade practica, via, porém, na religião principalmente a Egreja—instituição e disciplina. Roma e a politica ultramontana, n’isto se resumia para elle a historia do catholicismo a partir de certo concilio em que pela primeira vez se infringiram certos canones. Por este lado, o seu pensamento, aliás tão grave, aproxima-se mais do espirito superficial e em demasia negativo do seculo XVIII, do que do espirito placido e comprehensivo do seculo em que vivemos. Fazendo da questão religiosa uma questão de datas e leis, marcava a éra em que a Egreja começara a mentir ao seu papel, e aos que lhe falavam em nome do Espirito, respondia com a Historia: a morte veiu achal-o occupado na empreza van de converter um rapaz mystico e catholico. Tinha odios ao papado, e a paixão do sectario, quando se erguia contra os desvarios dos seus contemporaneos, cegava-o até ao ponto de desconhecer o passado e de applicar as fórmulas da nossa éra a todas as edades. Assim, para elle, a solução da questão religiosa estava no regresso ao puro espirito do catholicismo representativo, religião que concebia como canonista e não como philosopho. Punha Döllinger muito acima de Luthero; Hegel, Feuerbach ou Strauss mereciam-lhe apenas um sorriso desdenhoso.

Esta maneira, evidentemente incompleta, de comprehender a religião levava-o a consideral-a, por um lado, como cousa puramente individual, e n’este sentido apoiava a celebre fórmula «Egreja livre no Estado livre»; em quanto por outro, olhando-a como instituição positiva, a julgava simples materia administrativa. O publicista liberal assustado pela força da Reacção, cujo verdadeiro caracter não percebia, erguia-se, pois, para debellar com leis o que só a prégação moral póde encaminhar e dirigir, jámais vencer: a irresistivel tendencia do espirito collectivo para affirmar religiosamente a sua unidade.