A Liberdade, supposto principio que para elle resumia a essencia de um espirito racional e absolutamente consciente, era afinal o seu verdadeiro e intimo deus. É essa a religião do estoico; e o deus da Harpa do Crente é um ser eminentemente livre que por um acto de vontade absoluta creou tudo o que existe: o deus do estoico é a divinisação da personalidade. E, como todos sabem por quanto esta antiga philosophia entrou na formação do christianismo, é desnecessario mostrar, desenvolvidamente como e até que ponto, Deus era para Herculano o deus christão.


Duas palavras agora ácerca do escriptor: duas palavras apenas, porque não tratamos da historia litteraria, mas temos de nos occupar de litteratura, sempre que ella influe, como n’este caso, na vida geral ou total da sociedade.

Obras de tres naturezas diversas nos revelam pelo estylo tres physionomias distinctas. A primeira official e grave, são os seus trabalhos historicos, onde o periodo redondo e classico, mas sem affectação quinhentista, se desenvolve alimentado pelos caldos de Vieira que nos receitava, a nós os moços, para educar a mão. A segunda são os seus romances e escriptos humoristicos, onde, mal ataviado o periodo jesuitico, ás vezes combinado com fórmas e tours extrangeirados, transparece sempre o gout du terroir, o cunho de portuguezismo duro e pesado, mais aggressivo do que engraçado. Na terceira, finalmente, em nossa opinião a mais bella; nos escriptos de polemista, a phrase rotunda é quente, a aggressão é viva, as palavras têem calor, e a dureza do genio lusitano acha nos sentimentos expressos em orações duras, uma convicção, uma independencia que a ennobrecem. Ouve-se a voz do estoico, e ha uma harmonia perfeita entre o pensamento profundo, grave e forte, e o estylo redondo, sobrio e nobre. A rhetorica classica é o molde proprio do classico pensamento estoico. Mas entre estas obras ha uma, uma unica, (Carta á Academia das sciencias) onde o homem intimo, sensivel, caridoso e simples, esse homem que nós esboçámos fugitivamente, porque a vida, a educação, o temperamento, de mãos dadas concorriam para o subalternisar ao homem estoico: ha uma, dizemos, em que as palavras não falam apenas, choram e vociferam, têem lagrimas e imprecações e ironias. Ferido no vivo coração da sua existencia, o homem poz no papel o melhor do seu sangue. O que o genio do artista obtem com intuição, consegue-o o poeta com emoção. A Carta á Academia é tão bella como as melhores das poesias intimas de Herculano.

Para elle que, como lusitano, nada tinha de artista (prova, os seus romances), a litteratura era uma missão e não um dilettantismo. O universo, a historia, a sociedade não se lhe apresentavam como assumpto de estudos subtís e curiosos, de observações finas ou profundas, de quadros brilhantes, vivos ou commoventes; mas sim como objecto de affirmações ou negações, inspiradas pela convicção estoica. Nos seus livros póde seguir-se ao mesmo tempo o desenvolvimento do seu pensamento e a historia da sua consciencia. São o retrato da alma do author, ora apaixonada, ora melancholica; quasi sempre triste, mas sempre convicta, energica e franca.

As Poesias e o Eurico revelam-nos o crente na providente liberdade de um Deus poderoso e justo, a alma rijamente temperada contra o acaso funesto, o coroação aberto ás emoções da natureza que se lhe manifestam com o caracter de uma fatalidade cruel e de um desabrimento cego. Deus, a Natureza o Homem, são, n’essas obras, personagens de uma tragedia biblica, tendo a tempestade rouca por musicas e por fundos de scena bulcões de nuvens negras a velar o azul do céu.

Vêem depois na obras polemicas, vasta e riquissima collecção (reunida nos Opusculos, I-IV e segg. em via de publ.) que patenteia a omnimoda actividade do pensamento de Herculano, e lhe dá o caracter de um philosopho, cujo pensamento, em vez de se manifestar em tratados, se exprime em controversias. Profissionalmente, era historiador. A Historia de Portugal e os trabalhos que com ella formam o corpo dos estudos do erudito (a Hist. da Origem e Est. da Inquisição; os opusculos sobre a batalha de Ourique; o Do estado das classes servas; os diversos ensaios no Panorama; o ined. sobre o feodalismo em resp. a Cárdenas; as edições da Chron. de D. Sebastião, de Bernardo da Cruz, dos Annaes de D. João III, de Fr. Luis de Sousa, do Roteiro de Vasco da Gama; a collecção dos Portugalliæ monumenta historica; etc.[38]) são a obra mais importante do escriptor e o solido fundamento do seu nome immorredouro na historia litteraria portugueza. Reunindo a um saber geral vasto e forte a paciencia do erudito e o escrupulo do critico, esses trabalhos não respiram a seccura pedante do especialismo; e, se não constituem nem podem constituir uma historia nacional, fizeram com que os problemas das origens sociaes e politicas da nação portugueza fossem por uma vez resolvidos. A historiographia peninsular tem em Herculano o seu mais illustre nome: um nome que se conservará ao lado do de Mommsen ou de Guizot, cujos golpes de vista comprehensivos partilhava; e do de Thierry, a quem acompanhava na faculdade de representar vivas, nos seus habitos, costumes e leis (senão em sua alma, como um Michelet) as passadas gerações; avantajando-se a ambos na coragem com que arcou com o trabalho improbo de colligir, coordenar, traduzir, interpretar os monumentos historicos de um povo que não tivera benedictinos eruditos. Robinson de nova especie, Herculano achou-se como n’um paiz deserto e teve de descobrir os materiaes antes que podesse pôr mãos ó obra.

Prodigio de trabalho, de saber, de paciencia, de talento, a Historia de Portugal é um monumento; entretanto, devemos dizel-o, se quizermos ser inteiramente justos, mais de uma cousa lhe falta, para poder ser considerada um typo, e o seu author um grande historiador, como um Ranke. Falta-lhe ar na contextura sobrecarregada de discussões eruditas; falta-lhe, sobretudo, aquella alta e serena imparcialidade, aquellas vistas rigorosamente objectivas, aquella isenção critica, impassivel perante as escholas, os systemas, os partidos, sem a qual a historia deixa de o ser. Herculano peccava, com toda a eschola romantica, Guizot á frente, porque a opinião e a politica de mãos dadas o levavam a fazer da historia da Edade-media uma apologia do systema representativo. Como Guizot, tambem estoico, Herculano era demasiado convicto e apaixonado para poder prescindir de si, das suas crenças, das suas opiniões. Levava, pois, para o estudo do passado as preoccupações do presente, porque essas preoccupações eram a essencia da sua vida moral. O romantico de 30, o liberal ardente, o soldado da CARTA, enfatuado com as suas theorias constitucionaes e municipalistas, tinha de condemnar in limine a centralisação monarchica dos seculos XVI e XVII, consequencia indiscutivelmente necessaria, consequencia europêa da Edade-media e preparação dos tempos modernos.

Além d’isto, ha uma falta de nexo na Historia de Portugal, resultado do modo como primeiro foi concebida. «Eu comecei por imaginar apenas uma historia do povo e das suas instituições, alguma cousa no genero da Histoire du tiers état, de Thierry, mas mais desenvolvida—dizia-nos Herculano—porém tendo colligido materiaes para a primeira epocha, vi que possuia n’elles tudo o que era necessario para a historia politica: d’ahi veiu a resolução de escrever uma Historia de Portugal». É por isso que as duas faces do livro se não ligam; é por isso que os homens e os seus actos nos apparecem como um appendice, subalterno, indifferente, dando a impressão de que se tivessem sido outros e diversos, nem por isso a vida anonyma da sociedade poderia ter seguido rumo differente. E, se não vemos a acção dos elementos voluntario-individuaes ou fortuitos sobre os elementos sociaes, nem a inversa, perdendo assim a historia o seu caracter eminente de realidade, juxtapondo artificialmente, a uma chronica veridica desinçada dos erros e das invenções fradescas, uma dissertação erudita sobre o desenvolvimento das instituições: succede tambem que a apreciação dos elementos moraes, crenças individuaes, phenomenos de psychologia collectiva, é feita á luz de doutrinas quasi voltairianas; e, no avaliar das lendas religiosas e da acção do clero, o historiador prescinde de profundar os motivos moraes, ou cede a palavra ao sectario que nos bispos e em Roma não vê outra cousa mais do que sacerdotes da astucia e uma Babylonia de perversão.

Tal foi a Historia de Portugal que o romantismo concebeu; e demorámo-nos tanto sobre ella porque vimos ahi um symptoma caracteristico para apreciar o valor d’essa fórma de Liberdade que teve em Herculano o seu derradeiro e mais illustre sectario. Para o romantismo, a renovação social era uma volta a tradições scindidas pela monarchia absoluta: já o dissemos, e não é portanto necessario repetil-o. E essas tradições que deviam ser—oh, singular confusão da intelligencia!—o alicerce de uma liberdade racionalista, inspiravam a Garrett o Frei Luis de Sousa, elegia mystica, e a Herculano um fragmento de Historia para uso dos sabios, apenas popular por ter sido mais um ataque ao catholicismo tradicional portuguez.