O clero pagou com guerra o odio que o historiador lhe dispensava nos seus livros aggressivos. Conjuraram-se os padres, e Portugal assistiu a mais um protesto do espirito antigo, inconvertivel, impenitente. Em vez de congregar o povo na communhão de um pensamento nacional, a Historia saía como uma arma de combate. As tradições vivas, possiveis, eram todas inacceitaveis, como o leitor já sabe. As guerrilhas do Minho em 46 foram trucidadas em Braga, mas o enraizado espirito catholico não se podia vencer nem com armas, nem com livros: só acabaria com os caminhos-de-ferro, com as pontes e estradas, com a Regeneração utilitaria, materialista e practica.

Herculano, vendo-se isolado, vendo no pulpito o padre excommungando-o, no governo «o bom homem que, nas horas vagas de certas funcções elevadas, espairecia os tedios da vida revolvendo com o bico da bota a velha corôa de D. João I n’uma celha de lodo que viera do Tibre»; Herculano, clamando sem ser ouvido, a Sá-da-Bandeira: «Acorda, moderno Bayard, que te matam!» (A reacção ultramontana, 1857) abdicou e homisiou-se, levando para a sua thebaida a crença na ruina fatal. Os antigos não se convertiam, os novos entregavam-se de corpo e alma á Regeneração: elle, só, chorava as desgraças da patria que saía da sacristia para entrar na tavolagem, trocando a egreja pela bolsa, e os bentinhos e os rosarios pelos arrebiques dos peralvilhos e pelas tabuadas de financeiros: o Breviario pelos Melhoramentos.—E o evangelho? oh, gente perdida! E a justiça? e a moral? e a liberdade? e a poesia? A turba não podia mais ouvil-o: com a liberdade fôra-se a religião; com o romantismo salvador, a perdida nação jesuita! Velhos e novos, de mãos dadas, adoravam o deus novo—Regeneração! cujo sacerdote em Rodrigo, Fontes o diacono, e Saldanha o idolo bem fardado.

Herculano abdicou, pois. Durante o periodo que medeiou entre a sua abdicação e a sua morte, o espirito europeu, abandonando a vereda romantica de um subjectivismo que desde 89 assolava o mundo com revoltas, restauradas as sociedades latinas pelo utilitarismo imperialista que as enriqueceu outra vez: o espirito europeu, dizemos, retemperou-se na tradição naturalista, constituindo um corpo inteiro de conhecimentos novos, transformando os methodos das sciencias, esboçando philosophias originaes. O antigo estoico, o kantista de 30, com as suas idéas exclusivas, com o seu racionalismo frio, com o seu methodo subjectivo, com a sua comprehensão formal das cousas, com o seu deus mechanico, e a sua liberdade dogmatica: homem como que abstracto, vendo os homens fóra do mundo e da evolução, como um milagre divino: esse homem, solitario em Val-de-Lobos, adorado por quantos o conheciam, estudado como um monumento da historia por muitos dos que o tractavam, não podia mais dirigir a educação da gente nova.

Nem o conhecimento intimo da natureza viva obtido pela sciencia, nem o sentimento ideal do Universo, profundado pelas philosophias allemans (concepções até agora oppostas, mas que o tempo approxima todos os dias e virá a combinar afinal); nenhuma das acquisições fecundas do espirito humano nos ultimos quarenta annos, poderam destruir no pensamento de Herculano o systema granitico das suas idéas. O maravilhoso corpo de sciencias philologicas que a Allemanha construira e que são como que a embryogenia das sociedades e suas idéas politicas, juridicas e religiosas, revelando uma biologia social tão positiva e verdadeira como a zoologica, mostrando-nos a sociedade como realmente é—um organismo vivo: esse mundo novo do saber que destruia o individualismo e apeiava do seu throno a Liberdade, não só era desconhecido para o solitario estoico, mas era objecto das suas ironias melancolicas—«os desvios das symbolicas, das estheticas, das syntheticas, das dogmaticas, das heroicas, das harmonicas, etc.» (Corr. com o a. carta de 1869) em que «lhe faria pena vêr perdido» qualquer escriptor moço.

E quando, elle que observara impenitente o velho Portugal, abandonados ao lodo utilitario os seus coevos, via tambem a mocidade mediocremente respeitosa por essa religião do Individuo que era a sua; quando via as tendencias centralistas e socialistas,—confessas ou inconscientes—dominarem nos governos e opposições, nos partidos conservadores e nos revolucionarios, elle chorava, outro Isaías, sobre as ruinas do templo abatido, sem reconhecer que as pedras d’esse edificio derrubado já começavam a formar um novo monumento.

Meu amigo; provavelmente não tardará muito que eu vá dar um passeio ao outro mundo sem tenção de voltar. Passado um seculo, é muito possivel que o liberalismo tenha desaparecido. As gerações precisam ás vezes retemperar-se nas luctas da anarchia ou nas dores da servidão: concentram-se para a explosão calcadas sob o pé ferreo da força brutal. Deixe-me levar, para me entreter a ruminal-a pelo caminho, a convicção de que, entalada entre duas betas negras,—a tyrannia em nome do céu e a tyrannia em nome do algarismo,—surgirá como um foco de luz, nas paginas da historia, a epocha em que se proclamavam os direitos individuaes absolutos e imprescriptiveis, embora as paixões humanas nem sempre os respeitassem. (Ibid. carta de fev. de 77)

Mezes depois morria; mas esse fóco de luz não se extinguia, porque entre os varios symptomas da vida organica de uma sociedade está o respeito e a admiração pelos seus grandes homens. Esse fóco de luz não se extinguia tambem—ainda hoje o dos estoicos da Antiguidade nos allumia!—porque os direitos individuaes são funcções imprescriptiveis do organismo social, embora não sejam a expressão summaria da sociedade; porque as duas betas negras, se têem essa côr quando o desvairamento dos homens ou a fatalidade das cousas dão lugar á tyrannia, têem realmente côr diversa, uma côr viva e pura! São a propria existencia do organismo collectivo, destruido sempre que deixar porém de ter uma unidade moral e economica, uma authoridade positiva, eminente, real, e poderosa. Assim é nos centros nervosos do animal que, recebendo as impressões externas as unificam, as synthetisam, e d’ahi imprimem a acção, a vontade e o pensamento ao homem, que é tambem, dizem-no os naturalistas, uma sociedade de individuos physiologicos.

No declinar da vida, teria fraquejado a convicção do estoico? Batido por tantas e tão variadas tendencias: umas que odiava sectariamente, outras que justamente condemnava, outras finalmente que a sua alma nobre e bondosa instinctivamente respeitava; contrariado pelo passado catholico, pelo presente regenerador, e por um futuro que reconhecia conquistado para o socialismo—não hesitaria? Quem sabe? Não houve alguem que em palavras espontaneas, irreflectidas, lhe descortinasse, ou um symptoma de duvida intima, ou um vislumbre de conversão? Talvez houvesse. Como porém morreu sem se confessar, a pedra do tumulo guarda esse segredo. Antes de expirar disse apenas: «Isto dá vontade de morrer!» Traduza cada qual o enygma ao sabor da sua opinião.

NOTAS DE RODAPÉ: