Lembrei-me — como quem olha dentro de cerração — lembrei-me do corria na voz da gente sobre o entanguimento que traspassa o nosso corpo na hora do encantamento: é como o azeite fino no couro ressequido…
Mas não perdi de todo a retentiva: pois que da água saía, é que na água viveria. Ali perto, entre os capins, vi uma guampa e foi o quanto agarrei dela e enchi-a na lagoa, ainda escaldando, e frenteei a teiniaguá que, da vereda que levava, entreparou-se, tremente, firmando nas patinhas da frente, a cabeça cristalina, como curiosa, faiscando…
De olhos apertados, piscando, para me não atordoar dum golpe de cegueira, assentei no chão a guampa e preparando o bote, num repente, entre susto e coragem, segurei a teiniaguá e meti-a para dentro dela!
Neste passo senti o coração como que martelar-me no peito e cabeça sonando como um sino de catedral…
Corri para o meu quarto, casa grande dos santos padres. Entrei pelo cemitério, por detrás da igreja, e desatinado, derrubei cruzes, pisoteei ramos, calquei sepulturas!…
Todo o povo sesteava; por isso ninguém viu.
Fechei a guampa dentro da canastra e fiquei estatelado, pensando.
Pelo falar do padre superior eu bem sabia que quem prendesse a
teiniaguá ficava sendo o homem mais rico do mundo; mais rico que o
Papa de Roma, e o imperador Carlos Magno e o rei da Trebizonda e os
Cavaleiros da Tábola…
Nos livros que eu lia estes todos eram os mais ricos que conhecia.
E eu, agora!…