E não pensei mais dentro da minha cabeça, não; era uma cousa nova e esquisita: eu via, com os olhos, os pensamentos diante deles, como se fossem cousas que se pudesse tantear com as mãos…

E foram se escancarando as portas de castelos e palácios, onde eu entrava e saía, subia e descia escadarias largas, chegava ás janelas, arredava reposteiros, deitava-me em trastes que nunca tinha visto e servia-me em baielas estranhas, que eu não sabia para o que prestavam…

E foram-se estendendo e alargando campos sem fim, perdendo o verde no azul das distancias, e ainda lindando com outras estancias, que também eram minhas e todas cheias de gadaria, rebanhos e manadas…

E logo cancheava erva nos meus ervais, cerrados e altos como o mato virgem…

E atulhava de planta colhida — milho, feijão, mandioca — os meus paióis.

E detrás das minhas camas, em todos os quartos dos meus palácios, amontoava surrões de ouro em pó e pilhotes de barras de prata; dependuradas na galhação de cem cabeças de cervo, tinha bolsas de couro e de veludo atochadas de diamantes, brancos como gotas d’água filtrada em pedra, que os meus escravos — saídos mil, chegados dez —, tinham ido catar nas profundas do sertão, muito para lá duma cachoeira grande, em meia lua, chamada de Iguaçu, muito p’ra lá doutra cachoeira grande, de sete saltos, chamada de Iguaíra…

Tudo isto eu media e pesava e contava, até cair de cansaço; e mal que respirava um descanso, de novamente, de novamente pegava a contar, a pesar, a medir…

Tudo isto eu podia ter — e tinha, de meu, tinha! —, porque era dono da teiniaguá, que estava presa dentro da guampa, fechada na canastra forrada de couro cru, taxeada de cobre, dobradiças de bronze!…

Aqui ouvi o sino da torre badalando para a oração da meia-tarde…

Pela primeira vez não fui eu que toquei: devia ser um dos padres, na minha falta.