Depois desses três dias de prova, Blau acreditou na onça encantada.

Arrendou um campo e comprou o gado, p’ra mais de dez mil cabeças, aquerenciando.

O negócio era muito acima de três mil onças, a pagar no recebimento.

Aí o coitado perdeu quase o dia inteiro a gargantear a guaiaca e a aparar onça a onça, uma atrás da outra, sempre uma a uma!…

Cansou-lhe o braço; cansou-lhe o corpo; não falhava golpe, mas tinha de ser como martelada, que não se dá duas ao mesmo tempo…

O vendedor, à espera que Blau completasse a soma, saiu, mateou, sesteou; e quando sobre à tarde voltou à ramada, lá estava ele ainda aparando onça traz onça…

Ao escurecer estava completo o ajuste.

Começou a correr a fama da sua fortuna. E todos espantavam-se, por ele, gaúcho despilchado de ontem, pobre, que só tinha de seu as chilcas, afrontar os abonados, assim, do pé para a mão… E também era falado do seu esquisito modo de pagar — que pagava sempre, valha a verdade — só de onça por onça, uma depois de outra e nunca ao menos duas, acolheradas!…

Aparecia gente a propor-lhe negócio, ainda de pouco preço, só para ver como aquilo era; e para todos era o mesmo mistério…

Mistério para o próprio Blau… muito rico… muito rico… mas de onça em onça, como tala de gerivá, que só cai de uma vez… como pinhão da serra, que só descasca de um a um!…