— Seja Deus louvado! disse o vulto e caiu de joelhos, de mãos postas, como numa reza.
Pela terceira vez falaste no Nome Santo, tu, paisano, e com ele quebraste o encantamento!… Graças! Graças! Graças!…
E neste mesmo instante, que era o da terceira vez que Blau saudava no Nome Santo, neste mesmo momento ouviu-se um imenso estouro, que retumbou naquelas vinte léguas em redor; o Serro do Jarau, tremeu de alto a baixo, até as suas raízes, nas profundas da terra, e logo em cima, no chapéu do espigão, apareceu, cresceu, subiu aprumo-se, brilhou, apagou-se uma língua de fogo, alta como um pinheiro, apagou-se e começou a sair fumaça negra, em rolos grandes, que o vento ia tocando para longe, por cima do encordoado das coxilhas, sem rumo feito, porque a fumaceira inchava e desparramava-se no ar, dando voltas e contravoltas, torcendo-se, enroscando-se em altos e baixos, num desgoverno, como uma tropa de gado alçado, que espirra e se desmancha como água passada em regador…
Era a queima dos tesouros da salamanca, como dissera o sacristão.
Sobre as caídas do Serro levantou-se um vozerio e tropel: eram os maulas que andavam rastreiando a furna encantonada e que agora fugiam desguaritados, como filhotes de perdiz…
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Para os olhos de Blau o serro ficou como vidro transparente, e então viu ele o que lá dentro se passava: os brigões, os jaguares, os esqueletos, os anões, as lindas moças, a boicininga, tudo, torcido e enovelado, amontoado, revolvido, corcoveava dentro das labaredas que subiam e apagavam-se dentro dos corredores, cada vez mais carregados de fumaça… e urros, gritos, tinidos, silbidos, gemidos, tudo se confundia no tronar da voz maior que estrondeava no cabeço empenachado do serro.
Ainda uma vez a velha carquincha transformou-se na teiniaguá… e a teiniaguá na princesa moura… a moura numa tapuia formosa;… e logo o vulto de face branca e tristonha tornou à figura do sacristão de S. Tomé, o sacristão, por sua vez, num guasca desempenado…
E assim, quebrado o encantamento que suspendia fora da vida das outras aquelas criaturas vindas do tempo antigo e lugar distante, aquele par, juntado e tangido pelo Destino,10 que é o senhor de todos nós, aquele par novo, de mãos dadas como namorados, deu as costas ao seu desterro, e foi descendo a pendente do coxilhão, até a várzea limpa, plana e verde, serena e amornada pelo sol claro, toda bordada de boninas amarelas, de bibis roxas, e malmequeres brancos, como uma cancha convidante para uma cruzada de ventura, em viagem de alegria, a caminho de repouso!…
Blau Nunes também não quis mais ver; traçou sobre o seu peito uma cruz larga, de defesa, na testa do seu cavalo outra, e deu de rédea e despacito foi baixando a encosta do serro, com o coração aliviado e retinindo como se dentro dele cantasse o passarinho verde…