A gente já nascida estava condenada, pelo pecado de ter maltratado e morto Jesus Cristo. Mas as crianças ainda não nascidas não podiam sofrer castigo, porque não tinham culpa alguma. Porém os anjos da guarda da Cruz não sabiam disso e iam castigá-los da mesma forma, porque o arcanjo S. Miguel esquecera-se de avisar sobre as crianças que nascessem naquela dia, que era justamente o da sentença de Deus.
Por isso, a Virgem Maria, que sabia do esquecimento de S. Miguel, em memória Jesus não deixou os anjos da guarda da Cruz castigarem as crianças nascidas nessa Sexta-feira, e então, para diferenciá-las das outras, fez um milagre: e mandou que a ventania das asas de prata do arcanjo ventasse sobre o olhos dos que fossem nascendo nesse dia santo, e ao brilho das armas de ouro, que brilhasse sobre eles.
E desse jeito todos ficaram assinalados e puderam ser diferenciados dos nascidos na véspera, e bem diferençados, porque podiam ver através a água até o seu fundo e através as muralhas e montanhas até o outro lado delas, porque tudo ficou transparente para eles.
E como a Virgem Maria não disse que subisse outra vez ao céu a ventania das asas de prata do arcanjo nem o brilho das suas armas de ouro, esse dons ficaram na terra, e em todas as sextas-feiras santas procuram os olhos das crianças recém-nascidas, que então ficam com o dom de ver no escuro e através qualquer parede de pedra, madeira, ou ferro…
Para esses, nada existe escondido ou enterrado que seus olhos não vejam, como os dos outros homens, de dia claro; e isso porque nasceram em sexta-feira santa: os Zaorís…*
* Em relação ao argumento destas lendas — 1. 4 — reportamo-nos ao raciocinado estudo do Sr. Pe. C. Teschauer sob o título — Lenda do Ouro — (Rev. do Instº. do Ceará, tom. XXV-1911).
*5* *O Angoéra*
O Angoéra, enquanto foi pagão, chamava-se desse nome; era um índio grande, forçudo e valente; mas era triste, carrancudo e calado.
Quando os Padres de Jesus, entraram no sertão da serra, corridos que vinham doutro rumo, foi Angoéra, o tapejara, que conduziu sem erro a companhia; e quando os padres sentaram pouso, batizou-se.
E foi padrinho M’bororé, que era cacique e já amigo, muito, dos padres. O nome de Angoéra, pagão, ficou sendo Generoso, nome cristão.