Foi assim e foi por isso que os homens, quando pela primeira vez viram a boi-guassú tão demudada, não a conheceram mais. Não conheceram e julgando que era outra, muito outra, chamaram-na desde então, de boi-tátá, cobra de fogo, boi-tátá , a boi-tátá !
E muitas vezes a boi-tátá rondou as rancherias, faminta, sempre que nem chimarrão. Era então que o téu-téu cantava, como bombeiro.
E os homens, por curiosos, olhavam pasmados, para aquele grande corpo de serpente, transparente — tátá, de fogo — que media mais braças que três laços de conta e iam alumiando baçamente as carquejas… E depois, choravam. Choravam, desatinados do perigo, pois as suas lágrimas também guardavam tanta ou mais luz que só os olhos e a boi-tátá ainda cobiçava os olhos vivos dos homens, que já os da carniça enfaravam…
VIII
Mas, como dizia:
na escuridão só avultava o clarão baço do corpo da boi-tátá , e era por ela que o téu-téu cantava de vigia, em todos os flancos da noite.
Passado um tempo, a boi-tátá morreu; de pura fraqueza morreu, porque os olhos comidos encheram-lhe o corpo mas não lhe deram sustância, pois que sustância não tem a luz que os olhos em si entranhada tiveram quando vivos…
Depois de rebolar-se rabiosa nos montes de carniça, sobre os montes pelados, sobre as carnes desfeitas, sobre as cabelamas soltas, sobre as ossamentas desparramadas, o corpo dela desmanchou-se, também como cousa da terra, que se estraga de vez.
E foi então que a luz que estava preza se desatou por aí.
E até pareceu cousa mandada: o sol apareceu de novo!