Aparte as deturpações aberrantes dos vocábulos e a difícil colocação, concatenada dos versos, conservei a forma original, difusa, opaca e, do mesmo passo ingênua e amorável, dentro da qual porém, sente-se que estremece uma idealização, tendente a aureolar a figura do chefe índio, superiorizando-a por um signo misterioso — o lunar —, mandado divino…

Deixei de parte alguns versos cujo sentido disforme e expressão eram de impossível entendimento e acomodação neste grupo. Relembrança popular do heróico guarani é esta (e procedência?…) a única que até hoje hei encontrado em não pequena perambulação.

*8* *O Caapora*

É um espírito com forma de homem, gigante, peludo e muito tristonho, que comanda as varas de porcos do mato e anda sempre montado sobre um deles.

Quem topar com o Caapora daí em diante arrastará consigo a infelicidade (caiporismo), para todo o resto da sua vida; se era bom torna-se mau caçador, pescador; dará topadas no caminho, espinhar-se-á nas roçadas, perderá objetos, andará atrasado, apoquentado…

Os animais domesticados também sentem a sua má influência, e entecarão, terão gogo, sofrerão bicheiras… No entanto o Caapora protege a caça bravia dos matos.

*9* *O Curupira*

É o espírito malfazejo do mato, que enreda os trilhos do caminho para enganar os andantes e sugar-lhes o sangue.

Andam sempre em casal e moram no oco dos paus de lei; aparecem de repente, fazem os seus embustes e escondem-se, à tocaia, rindo-se em silêncio.

O Curupira é como um tapuio pequeno; tem os dentes verdes e os pés colocados às avessas.