—É mentira!—exclamou o rabino—Está a mentir impunemente!

—Está resolvida a questão?—ajuntou{28} o magistrado—pois é caso extraordinario um judeu dar de mão beijada uma bolsa com ouro, só por não ouvir um boccado de musica. Pois senhor: a sentença do seu mau acto está lavrada: vae ser enforcado immediatamente!

O verdugo—que se havia ido chamar, segurou o innocente moço, conduziu-o á forca, que já estava erguida na praça principal onde accorreu toda a cidade em pezo, e o rabino fôra o primeiro a mostrar-se fazendo menção de soccar o pobre condemnado, verberando:

—Marau, vaes ter a recompensa que te é devida!

O moço conservou-se muito tranquillo; subiu sosinho a escada appoiada á forca; ao chegar ao topo, virou-se para o juiz já togado, que viera vistoriar o patibulo e solicitou-lhe:

—Antes de ter o nó na garganta, concede-me um derradeiro favor?{29}

—Concedo—respondeu o magistrado—desde o momento em que não seja o perdão!

—Nada d'isso é, pois não sou tão exigente... desejava apenas tirar uns ligeiros accordes do violino!

Ao ouvir taes palavras, o rabino deu um estridente grito de susto e pediu encarecidamente ao juiz que não consentisse!

—Qual a razão porque não hei de conceder a graça que este homem me pediu, se é a unica alegria que por instantes posso dar-lhe? Tragam-lhe o violino.