—Queres tu entrar n'uma combinação commigo?
—Queres tu entrar n'uma combinação commigo?—aventurou o cavalleiro, que fizera estacar o animal—Faze troca: eu cedo-te o{38} meu bonito cavallo dando-me tu a barra d'ouro!
—Com o maximo prazer! Advirto-o, porêm, de que o carrego é pesado!
O viandante depressa se desmontou do ginete, ajudou João a montar-se e em seguida tomou a barra, dizendo ao ingenuo moço, emquanto lhe dava as guias:
—Assim que desejes andar tão veloz como o vento, basta dares um estalido com a lingua e gritares: upa, upa!
João ficou louco de contente, apenas se viu escarranchado no cavallo, e partiu a rapido galope. Ao fim de certo tempo, lembrou-se d'ir mais depressa ainda, e, dando um estalido com a lingua, incitou: upa upa! O animal, comprehendendo a indicação, largou n'uma corrida desenfreada, dando grandes upas e taes foram elles que o alegre João, não podendo suster-se no dorso do{39} animal, caiu estatelado no meio da estrada, quasi á beira d'um poço. O cavallo continuou a correr, mas um aldeão que vinha em sentido inverso, trazendo uma vacca, agarrou-o pela redea e assim o levou para juncto de João que, levantando-se, estava a vêr se havia soffrido algum desastre com o trambulhão.
—Olha que asneira, montar a cavallo! Arrisca-se a gente a deparar um animal como este que nos atira de pernas ao ar! Nunca mais caio n'outra. Agradeço o seu favor, mas não me fale no cavallo; se fosse uma vaquinha, isso então era outro cantar; basta levál-a deante de si, com certo geitinho; e não é só isso: dá tambem o leite com que se faz a manteiga e o queijo que nos sustenta. Que não faria eu para assim possuir um animal!
—Se faz n'isso muito empenho—alvitrou o aldeão eu não ponho duvida{40} em a trocar pelo seu cavallo.
João açambarcou logo a ideia, cheio de satisfação; o aldeão montou o animal e depressa se eclipsou.
João tocou a vacca, que ia na sua frente muito devagar, emquanto ia magicando nas vantagens da troca que acabára de fazer: