—Desde o momento em que me não falte uma fatia de pão, e com certeza não será isso o que me ha de faltar, posso, quando a fome me aperte, comer manteiga ou queijo, se tiver seccuras, munjo a vacca, e bebo um excellente leite. Que mais podes ambicionar, ó Janeco?

Ao acercar-se d'um albergue, parou e querendo possuir alimento para sempre, deu cabo de toda a comida e gastou os derradeiros escudos n'uma cerveja. De seguida, tornou a pôr-se a caminho da casa precedido pela pachorrenta vacca.

O sol estava a pino e escaldava o rapaz e João, encontrando-se{41} n'um sitio desarborizado, sentiu tanta sêde que se lembrou de beber leite; para esse fim, amarrou a vacca a uma sebe e, descarapuçando-se, começou a mungir o animalejo, mas por mais esforços que empregasse não conseguiu uma gottinha de leite. Como era leigo no assumpto, magoou a vacca que, com a dôr, lhe deu um coice que atirou longe João, que com a dôr desmaiou.

Por felicidade, acercou-se um homem que levava, n'um carrinho de mão, um porco ainda pequeno.

—Que diabo foi isso?—perguntou o homensinho, ajudando-o a pôr em pé.

João narrou-lhe o succedido; o homem do porco offereceu-lhe a borracha, dizendo-lhe:

—Ande, beba-lhe um gole para o pôr firme! E quer saber? A vacca está velha; boa apenas para puxar a uma carroça ou então para{42} ir para o matadouro. Por esse motivo não é para admirar que lhe não conseguisse tirar leite.

—Oh co'a breca!—exclamou João, arranjando o cabello que se havia emmaranhado com a queda—Quem o diria! O que é verdade é que, matando-se, a vacca ainda alimenta muita gente, mas como acho a carne pouco saborosa, não me servia. Agora se fosse um porquito! Isso era ouro sobre azul! Eu então que sou doido por chispe com feijão branco e chouriço de sangue!

—Ah, sim?!—lembrou o homem—Então tome lá o porco em troca da vacca!

—Deus o ajude!—acceitou João dando a vacca; puxou o porco pela corda que o segurava no carrinho.