... a vacca deu-lhe um coice... (pag. 41)
Á medida que ia andando, ia pensando, que tudo lhe corria em maré de rosas; mal tinha uma contrariedade e logo lhe desappareceu. N'isto dá de rosto com um rapazinho{43} que levava debaixo do braço um gordo pato. Deram-se os bons dias e começaram de conversa. João narrou os seus feitos, gabando-se da sua ventura; em compensação, o rapazito disse que o{44} pato era uma encommenda para um baptisado que tinha logar na proxima localidade.
—Tome-lhe o peso—aconselhou o rapazelho, agarrando o pato pelas azas—Pesa bem, não é assim?! Não é caso para espantos, pois ha mais de dois mezes que foi para a engorda. Quem o cosinhar póde gabar-se de apanhar uma excellente enxundia!
—E é verdade que sim!—appoiou o nosso João—Está gordo que é uma belleza! Comtudo, o meu porquinho tambem não está mau!
O rapazito calou-se, mas não fazia outra coisa senão olhar para um lado e para o outro inquieto; em seguida, meneando a cabeça, disse:
—Quer saber uma cousa? Roubaram não ha muitas horas um porco a uma das auctoridades da terra por onde eu agora fiz caminho. Está-me cá a parecer que é esse mesmo, sim, quasi que ia jurar! Que mau boccado lhe fariam passar se o vissem{45} com elle. O menos que lhe faziam era mettêl-o n'uma enxovia muito escura!
João, muito assustado, exclamou:
—O meu amigo é que me póde valer n'estes apuros! Desde que conhece os cantos á villa, nada mais facil que occultál-o; dê-me o pato que lhe cedo por troca o porco.
—Corro grave risco com a transacção—hesitou o moço—mas para o livrar das mãos da justiça, acceito-a!