—Olhe—disse para o heroe do conto—aqui tem mais uma; esta é{48} magnifica para fabricar uma bigorna e endireitar pregos. Tome sentido n'ella.
João tomou as duas pedras e lá se foi muito contente, com os olhos brilhando de alegria.
—Nasci dentro de algum folle com certeza; pensou de si para si—tenho sorte em tudo!
Entretanto como já andava desde manhã sentiu-se fatigado; estava com fome, mas nada tinha com que a matar, por ter comido todo o farnel quando da troca da vacca. Custou-lhe a andar e volta e meia tinha que parar para descançar; as pedras faziam-lhe muito pezo e disse com os seus botões que era bem bom que não as levasse, pois que lhe impediam andar mais ligeiro. Arrastando-se conforme pôde, chegou proximo de uma fonte ficando contente por encontrar com que molhar as guellas e crear alento para a caminhada.{49}
Não querendo estragar as pedras, pôl-as no rebordo da fonte e curvou-se para encher o barrete da limpida agua que corria da bica; mas, tocando-lhes sem dar por isso, as pedras rebolaram e caíram com grande ruido dentro d'agua.
João, assim que as viu desapparecer, saltou de contentamento e, ajoelhando-se, agradeceu a Deus, com os olhos marejados, a mercê que lhe havia feito de o livrar d'aquelle peso.
—Era esta a unica cousa que me incommodava! Não creio que haja rapaz mais feliz do que eu!
E de coração ao largo, não possuindo mais cousa alguma, pôz novamente pernas a caminho e só parou quando topou com a porta de casa de sua mãe.{50}
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