—Senhor cura, a vacca fala!

—Tu ensandeceste, rapariga?—tornou o padre, emquanto que despreoccupadamente se dirigia para o estabulo, para se certificar do que ouvira.

Não tinha ainda o parocho franqueado o portal quando João-Pequenino gritou de novo:

—Basta de feno... que eu atabafo!

O terror apoderou-se então do padre, que suppondo a vacca enfeitiçada, ou que tinha o diabo mettido no corpo, disse que era preciso dar cabo d'ella. Abateram-n'a, e o estomago, onde o pobre João-Pequenino se via prisioneiro, foi lançado para o estrume.

O rapazito viu-se em pancas para se desenvencilhar do mal-cheiroso sitio em que se conservava, e apenas{88} conseguiu ter a cabeça desembaraçada, uma nova desgraça o veiu ferir, uma aventura inesperada. Um lobo esfaimado atirou-se ao estomago da vacca, e, chamando-lhe um figo, enguliu-o d'uma assentada. João-Pequenino não descoroçoou.

—Talvez—pensou com os seus botões—este lobo seja sociavel.

E de dentro da barriga, em que estava novamente preso, gritou-lhe:

—Bom lobo, vou ensinar-te o sitio onde ha uma excellente prêsa.

—E onde fica isso?—perguntou o lobo.