—N'esta e n'aquella casa; pouco trabalho tens: basta-te deslizar pelo exgotto da cosinha; ahi encontrarás bons boccados, como toucinho, chouriço á discreção; que mais queres? E olha que te não levo nada pelo conselho!

E assim o experto João-Pequenino lhe deu os signaes certos da casa do pae.{89}

O lobo não quiz ouvir mais, nem se fez rogado, nem se quer foi preciso dar-lhe o recado mais d'uma vez; metteu-se pela cosinha e comeu á tripa-fôrra. Quando, porêm, quiz sair, foi-lhe impossivel. Tirou o ventre de miserias, de tal maneira que não houve meio de passar pelo cano. João-Pequenino—que tudo previra começou a fazer um grande barulho no corpo do lobo, aos pulos e em altos gritos; o lobo pedia-lhe:

—Vê lá se estás quieto! Tu assim acordas meio mundo!

—Deixa-me cá... Tu comeste até que te regalaste; agora sou eu que me divirto a meu modo!—e continuou a gritar tanto quanto podia.

Acabou por accordar a familia, que veiu pressurosa olhar para a cosinha pelo buraco da fechadura. O pae e a mãe ao verem que estava alli um lobo, armaram-se: o pae{90} com um machado e a mulher com uma fouce.

—Fica para traz—aconselhou o marido á mulher quando entraram na cosinha, eu vou matal-o com o machado, mas se o não matar d'um só golpe, tu abres-lhe a barriga!

João-Pequenino—ao conhecer a voz do pae—pôz-se a gritar:

—Sou eu, meu pae, sou eu que estou na barriga do lobo!

—Graças!—exclamou o pae louco de contente.—Ora até que emfim que o nosso filho foi encontrado!...