Por conseguinte, tomaram-n'o á sua conta e educaram na practica{98} das boas acções o orphãosinho. Passados annos, o soberano, fugindo a um temporal, refugiou-se certa tarde em casa do moleiro, a quem perguntou se o rapaz que tinha alli era seu filho.

—Não—responderam o moleiro e a mulher.—É um menino abandonado, que ha quatorze annos veiu trazido pela corrente dentro d'uma caixa até á calha do moinho; o moço, que estava perto, puxou-a e trouxe-a para terra.

A estas declarações, o rei percebeu logo que o rapaz não podia ser outro senão o menino que nascêra n'um folle, e tanto que perguntou:

—Digam-me: este rapaz não podia ir fazer-me um recado, levar uma carta á rainha minha mulher? Dou-lhe duas moedas de ouro por este pequeno trabalho.

—Quando vossa magestade quizer!—redarguiram de prompto moleiro e moleira.{99}

Em seguida mandaram pôr a postos o rapaz.

O rei, entretanto, dirigia esta carta á rainha:

«Apenas o rapaz, portador d'esta, ahi chegue, dá-te pressa em mandal-o matar e enterral-o em seguida; o resto será resolvido no meu regresso.»

O mocinho partiu com a carta e chegou pela noite a uma grande matta; por entre a escuridão avistou uma luzinha. Seguiu n'essa direcção e depressa parou perto de uma cabana. Entrou e viu sentada uma velha, sózinha, ao pé de uma lareira. Ao vêr o rapaz ficou tranzida de medo, e gritou:

—D'onde vens e para onde vaes?