—Venho do moinho—respondeu—e vou ao palacio levar uma carta á rainha; como, porêm, me perdi na matta, muito grato me seria passar aqui a noite.{100}
—Infeliz creatura!—redarguiu a velha.—Vieste ter a uma caverna de salteadores, que, se aqui te encontram, são muito capazes de te darem cabo da pelle!
—Venha quem vier, de nada me arreceio; estou bastante fatigado para que possa continuar a jornada.
Dictas estas palavras, sentou-se n'um banco e adormeceu.
D'ahi a pouco appareceram os salteadores que perguntaram irritados quem era aquelle intruso.
—Ora—retorquiu a velha—é um pobre moço que se perdeu na matta e a quem recolhi por dó; foi encarregado de levar uma carta á rainha.
Os salteadores apoderaram-se da carta, partiram-lhe o sinete e leram, vendo pelo conteudo que, apenas chegasse, o portador seria executado. Esta circumstancia tão mal os impressionou que o capitão da{101} quadrilha rasgou-a e escreveu outra em que dizia que apenas o portador chegasse lhe fizessem o casamento com a princeza.
Feito isto, deixaram-n'o dormir socegadamente no banco até o dia seguinte; quando acordou, restituiram-lhe a carta e indicaram-lhe a estrada real.
Entretanto, a rainha apenas leu a carta, que passára como escripta pelo rei, ordenou grandes festas para o casamento da filha com o rapaz nascido n'um folle. Como este era perfeito, amoravel e dotado de bom coração, a princeza vivia feliz e satisfeita.
Passado tempo, o soberano regressou ao palacio, e, com grande espanto seu, viu que a predicção se realizára do rapaz nascido n'um folle, casar com a princeza.