—Patrão servi-o tres annos o melhor que me foi possivel; agora quero vêr mundo e por isso peço que me pague as soldadas que me deve.
—Tens razão—respondeu o rico avarento—fiquei sempre muito satisfeito com o teu trabalho e a tua boa-vontade, e por isso vou remunerar-te como mereces. Aqui tens tres escudos novos; é um por cada anno que me serviste.
O rapaz, que andava sempre alegre{17} e que era d'uma grande simplicidade no que respeitava a dinheiro, julgou ter recebido uma fortuna que lhe permittiria viver vida folgada por largos annos.
Disse adeus ao antigo patrão e foi-se embora, atravessando montes e valles, cantando, saltando e alegre que nem um passarinho.
Ao acercar-se d'um monte, viu sair um velhinho muito corcovado que lhe gritou:
—Olé companheiro, não pareces levar em conta de pesares a tua vida?!
—Que ganho eu em me apoquentar?—retorquiu o moço—Tenho na algibeira a soldada de tres annos de trabalho.
—E a quanto monta essa fortuna?
—A tres escudos novinhos, muito luzidios. Olha, sentel-os trincolejar, quando lhes toco com as mãos?
—Ora ouve cá—tornou o gnomo, de bom coração como se vae vêr.{18} Eu estou muito velhinho, e forças para trabalhar já não tenho; tu, que és novo e forte, estás ainda em bom tempo de ganhares a vida.