O rapaz, que era de boa indole, apiedou-se do velho gnomo e fez-lhe presente dos tres preciosos escudos que tanto prazer lhe davam.

—Como és esmoler—expressou-se então o genio bom em figura de gnomo—dou-te licença para que me peças tres cousas que são a paga dos teus tres escudos.

—Então, pois sim!—fez o rapaz incredulamente—Isto que tu queres fazer é só do dominio das phantasias para entreter creanças. Mas, emfim, sempre quero experimentar. Desejo então: uma espingarda que acerte logo no que eu alveje; um violino que tenha a virtude de forçar a bailar todos quantos me oiçam; e, finalmente, que toda e qualquer pessoa me conceda, sem mais a quellas, a graça que eu pedir.{19}

—Ai, ai! lastimava-se o infeliz judeu (pag. 22)

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—És modesto no pedir—retrucou o gnomo que, curvando-se, tirou do monte uma espingarda, e um bonito violino que se podia metter na algibeira. Aqui tens—continuou o gnomo ao dar-lh'os—e fica sciente de que serás servido sempre na primeira graça que solicitares.

O rapaz, jovialissimo, continuou a sua róta. Depois de caminhar um boccado deparou-se-lhe um judeu, muito feio, com barbas de chibo muito compridas e que estava absorto a ouvir o canto de uma avesinha.

—É extraordinario que um animal de tão pequeno talhe possua um trinado tão cheio. Quanto não daria eu para o ter engaiolado!

—Posso satisfazer o teu desejo—disse o rapaz que tinha ouvido as ultimas palavras, e apontando a espingarda ao passarinho este caiu atordoado em cima dos espinhos.