Sem dúvida, embora encontrem dificuldades irredutiveis para se manterem, nem por isso são de desprezar êsses ajustes e contratos. Pelo contrário, merecem ser promovidos e aproveitados. Sómente convém não lhes atribuir valôr que não comportam, ou esperar da sua acção uma fortaleza que as suas faculdades não atingem. Pois, de resto, significam altos beneficios; pressupõem a supremacia do Direito sôbre a Fôrça no espírito colectivo da humanidade civilisada, uma supremacia definitiva daquilo que póde chamar-se o ideal civil contra o ideal militar, não em a maioria dos estados mas em todos os estados suficientemente poderosos para desafiar a violência. Pressupõem um mapa do mundo traçado definitivamente em linhas que satisfaçam as aspirações nacionais dos povos. Pressupõem um status quo que se mantem, não simplesmente, como o de 1915, porque é um facto legal e a sua perturbação seria inconveniente para os govêrnos existentes, mas porque é meramente equitativo. Pressupõem uma base democrática de direitos civis e representação idêntica entre todos os estados componentes. Pressupõem, finalmente, uma opinião pública educada, incomparavelmente menos egoista, menos ignorante, menos flutuante, menos materialista, e menos estreitamente nacional do que aquela que até aqui tem prevalecido».

O outro processo «pode parecer, nesta hora de sonhos e desastre, de extremos de esperança e desilusão, um trilho longo e enfadonho. E a velha estrada larga da civilisação, não os atalhos através dos campos. Espera resultados duradouros, não da cooperação mecânica dos govêrnos, mas do crescimento de um direito civil orgânico, pela educação das próprias nações no sentimento do dever e da vida comum. Espera, não o estabelecimento definido do Estado do mundo em nossos dias, mas sómente uma refutação definida da perniciosa teoria da incompatibilidade mútua das nações. Espera a expressão do govêrno do mundo na ordem externa, daquilo que podemos chamar o princípio da República, do grande princípio de lord Acton, do estado composto de nações livres, do estado como um corpo vivo, que vive pela união orgânica e livre actividade dos seus diversos membros. E encontra o seu imediato campo de acção no alargamento da profundeza e extensão das obrigações civis entre os povos das grandes, livres, justas, supranacionais repúblicas, cujo patriotismo foi edificado, não por preceito e doutrina, mas sôbre o firme fundamento das mais antigas lealdades».

«Os problemas derivados do contacto das raças e das nações nunca podem ser resolvidos nem pela acção prudente dos indivíduos nem por conflito e guerra; só têem solução em uma política deliberada e recta no seio de cada estado, no reconhecimento por ambas as partes de exigências mais altas do que os seus interesses seccionais—as exigências de direitos civis comuns e do interêsse da civilisação. Nisto, na união e colaboração das diversas raças e dos diversos povos, é que o princípio da República encontra o seu campo peculiar de operação. Sem êste princípio... o mundo será o caos que hoje é»[7].

Eis aí a lei suprema da história—a preponderância da actividade interior e inconsciente dos povos sobrepondo-se às lucubrações, aos decretos, às legiões, à vontade e à vaidade e inanidade dos capitães e dos imperadores, e preterindo-os inexoravelmente em todos os grandes movimentos da humanidade. Roma e a constituição jurídica e moral do mundo latino que dela nasceu e é seu espelho, foi apenas o maior exemplo da inflexibilidade dessa lei do desenvolvimento das raças, duas vezes repetido naquele lugar, primeiro criando a unidade política da civilisação, e depois refazendo-a, quando, decrépita, carecia de ser renovada pela unidade religiosa. A face das cousas parece mudar mas sómente a sua face muda; em sua essência permanecem sujeitas à mesma lei, idêntica e constante nos grandes feitos como nos mais pequenos, de fronteiras a dentro das nações como em toda a largueza dos continentes.

Se o cristianismo tem de prevalecer e redimir das suas misérias o mundo, será únicamente por «êsses esfôrços de milhões de homens inconscientes do resultado final», por «êsse trabalho interior, invisível, de que ninguêm tem consciência», por efeito dessa misteriosa disseminação. Quando as leis escritas a definirem e reconhecerem, será porque de facto a sua vitória a isso as obrigou. Não serão elas que lhe hão-de dar ou roubar o seu domínio.

Quarenta anos de materialismo brutal, inflamado por um mesquinho e desvairado orgulho scientífico, terminam hoje na guerra a sua obscurecida fama e glória, aquela por demais terrena que ao seu espírito correspondia e que era a única a que a sua fascinação podia conduzir. Esse materialismo cái pela fragilidade das suas edificações, porque só produzia dôres onde prometia alegrias, só acumulava ruinas onde ostentára traiçoeiras prosperidades. Mas, antes que um cataclismo inaudito lhe demonstrasse a estreiteza e inconsistência, um trabalho subtil lhe minára os fundamentos: aniquilivam-no aquêles mesmos que o haviam gerado e nutrido, os apóstolos e os seus fiéis, os filósofos e os pensadores, a inspiração dos poetas, as academias, e sobretudo as multidões que os ouviam, sentiam e interpretavam, fatigadas de errores e de desprendimento religioso e moral; e, verificando pela experiência de agudos instintos os benefícios e os males das doutrinas e das crenças, conforme a verdade e felicidade que lhes trazem ou lhes roubam, assim as amaldiçôam ou engrandecem. São êsses poderes invisíveis e imponderáveis, que habitam no coração das multidões anónimas, que nos dirigem e dão a vida e a morte, nos indivíduos como nas sociedades. Só êsses poderão libertar-nos da guerra ou eternisar a sua danação; e as igrejas valerão então o que valer a sua obediência ao princípio cristão, e os estados serão um flagelo, se em acção o negarem, ou uma fortuna, se o respeitarem e traduzirem nas cousas da terra e nas relações entre as nações.


Da arte de gastar e suas responsabilidades

«Uma crise grave ilumina e descobre perigos que se não suspeitavam; hábitos que anteriormente nos pareciam tão inocentes e naturais que nenhum mal encerravam, mostram-se com uma dupla face nos seus efeitos. Parece que se torna necessaria mais reflexão; e, posto que nos seja impossível achar remédio simples para ruins efeitos, sabemos que, começando a pensar honestamente, teremos probabilidades de achar o caminho de melhores hábitos.

«Será esperar muito que entre outras cousas boas que podem resultar desta negra crise, venha a nascer um certo acordar, da nossa parte, quanto à futilidade, assim como quanto ao perigo, de muitas das nossas despesas? Não é bem para uma nação que uma quarta parte dos seus rendimentos se gaste de um modo inconstante. Não é bem para uma nação que a quarta parte da sua capacidade de trabalho se especialise a produzir cousas que se vêem e sentem destituídas de valor, mal uma crise o vem pôr em prova. De resto, os ricos não são os únicos que no seu gastar estão em falta; tambêm os pobres teem os seus poucos luxos inuteis. Mas são os ricos, e não os pobres, que individualmente teem maior responsabilidade na errada direcção do trabalho, emquanto são êles que individualmente possuem maior poder de gastar e são, por conseguinte, os que gozam de maior liberdade para escolherem o modo por que hão-de usar êsse poder.»