Nem se diga que o mundo foi sempre o mesmo e não muda, nem que a natureza humana não é susceptível de mudar. A história é a negação radical de semelhante afirmação, que não passa de refugio infantil de retardatários. Do canibalismo à cooperação, do duelo aos tribunais, dos autos de fé à liberdade religiosa, do heroismo divinisado ao espírito militar combatido como um crime, a humanidade renasceu; e, se exteriormente é bem diferente do que foi na sua origem, intimamente anima-a um espírito que desconhece e repele aquele de pura animalidade que algum dia foi sua razão de ser. Civilisou-se; de bandos famintos, devastadores e crueis, passou à comunidade moral e religiosa, e a civilisação desenvolveu-se na razão inversa da fortaleza do espírito militar. «Á medida que os homens perdem a tendência de combater, cresce-lhes a tendência para trabalhar, e é trabalhando juntos, e não combatendo-se, que os homens progridem». Só pelo «hipnotismo de uma terminologia que se tornou obsoleta» o espírito militar, muito a custo e decaíndo, continuamente se sustenta.
De resto, há muito é sabido e demonstrado que as guerras são instrumento de degradação das raças. Matam os melhores, a flôr da espécie, os mais sãos e corajosos, e deixam confiada aos débeis e menos aptos a procriação das novas gerações. Na guerra com a Alemanha, a própria Inglaterra, apezar de toda a resistência do espírito da sua raça, corre o risco de perder as suas melhores qualidades. Combatendo o prussianismo póde prejudicar-se na diligência de o vencer pela adopção das suas armas e pelo abandôno das virtudes que a tornaram grande, «a aptidão de iniciativa, a confiança no próprio esfôrço, a sua obstinada resistência à intervenção do estado (já enfraquecida), a sua impaciência com a burocracia e a lista vermelha (tambêm já a decaír), tudo o que se involve na sua geral rebeldia de arregimentação». «A fôrça empregada para aperfeiçoar a cooperação entre as partes, para facilitar a troca, promove o progresso; a fôrça que combate essa cooperação, que procura substituír pela coacção o benefício mútuo da troca, que é em certo modo uma fórma de parasitismo, promove o retrocesso».
A luta entre as nações «é um anacronismo». «Poucos compreendem até que ponto a fôrça física foi substituída nas cousas humanas pela pressão económica—usando êste termo no seu justo sentido, não só como a disputa do dinheiro, mas compreendendo quanto nisso se involve, bem-estar, consideração social e tudo o mais. O espírito primitivo não compreendia um mundo em que as cousas não fôssem todas reguladas pela fôrça. Mesmo os grandes espíritos da antiguidade não acreditavam que o mundo podesse ser laborioso, senão quando a grande massa se tornasse laboriosa pelo uso da fôrça física, isto é, pela escravatura. Tres quartas partes dos que nos dias mais florescentes de Roma povoavam o que agora é a Itália, eram escravos, acorrentados no campo quando trabalhavam, acorrentados à noite nos dormitórios e, os que eram porteiros, acorrentados aos portais. Era uma sociedade de escravos—escravos para combate, escravos para trabalhar, escravos para cultivar, escravos oficiais e, acrescenta Gibbon, o próprio imperador era um escravo, «o primeiro escravo nas cerimónias que êle prescrevia». Sendo grandes e penetrantes muitos dos espíritos da antiguidade, nenhum deles mostrou uma larga concepção de uma condição social em que a coacção física fôsse substituída pelo impulso económico. (Aristoteles sentiu todavia um lampejo de verdade, quando disse que, «se o martelo e a lançadeira podessem mover-se por si», a escravidão seria desnecessária). Dissessem-lhes que havia de chegar tempo em que o mundo trabalharia muito mais activamente sob o impulso de uma causa abstracta chamada interesse económico, e êles considerariam semelhante asserção como a de meros teóricos sentimentais. Nem temos necessidade de irmos tão longe»; se ha sessenta anos afiançássemos a um senhor de escravos americanos que pelo trabalho livre êle havia de ter mais algodão do que pela escravatura, por certo se riria da nossa credulidade. Sem dúvida, por efeito da lei de aceleração a que as sociedades humanas andam sujeitas, é de todos os tempos, mas principalmente da nossa época, esta derrota da guerra pela economia, esta substituição do combate pela coadjuvação, que se tornou o meio mais seguro e rendoso não só de vivermos em paz, o que já seria muito, mas tambêm de acrescentarmos os bens e multiplicarmos as riquezas, o que, por isso mesmo que satisfaz a ambição, por isso é comum e abrange o espírito mais elevado e o mais mesquinho, por isso se torna uma fôrça universal em todo o sentido.
Do anacronismo e futilidade da guerra foi já convencido por mestres competentes todo o mundo culto, quási todo o mundo que sabe lêr. E todavia a guerra persiste, porque, para a banir, a razão não basta, só o coração purificado e exaltado pelo espírito cristão é capaz de consumar êsse prodigioso renascimento.
Mas como, por que modo poderão essas forças prevalecer? Por que meios poderá tornar-se efectiva na vida nacional e internacional dos povos êsse espírito cristão que agora despertado por uma catástrofe estupenda se ergue como uma aurora de redenção? Onde encontrará armas para combater o inimigo, a satânica sensualidade que fundou o mundo moderno em ambições tôrpes e em materialidades e que, é evidente, não abdicará do seu reino passada a tormenta? Como é que um pensamento religioso só por si ha-de destroçar os poderes da terra enriquecidos, armados e incessantes na avidez? Pelas ligas e tribunais de paz, pelos ajustes diplomáticos, pela redução dos armamentos, por todos êsses «retalhos de papel» que se rasgam ao primeiro ímpeto, como a Alemanha rasgou o compromisso que a obrigava a respeitar a neutralidade da Bélgica?!... Não é todo êsse impulso cristão um arrebatamento de idealismo destinado a naufragar no mar imenso e tormentoso das realidades? Se as igrejas em suas fortalezas seculares não poderam subjugar os homens e sujeita-los à lei de Cristo, como é que de esforços dispersos e boas intenções há-de tirar-se uma fôrça que domine os estados e lhes trace a sua regra?
Ferrero, o historiador da Grandeza e Decadência de Roma, diz-nos no último volume de sua obra que, «emquanto em Roma, à volta de Augusto, a pequena oligarquia dos dominadores, que julgava que tudo, mesmo o futuro, dependia dela, se exgotava em discórdias furiosas e em tentativas contraditórias para afeiçoar o futuro a seu modo, êsse futuro por si mesmo se fazia no grande império, e muito diferente daquilo que se tinha pensado. Emquanto Augusto se dava a tantas penas para reorganizar em Roma o govêrno aristocrático, acontecia que por si mesmas, pouco a pouco, e pelos esforços de milhões de homens inconscientes do resultado final, as regiões do império que mais diferiam pela língua, pela raça, pelas tradições, pelo clima, mútuamente se penetraram e chegaram a uma unidade económica muito compacta; interesses materiais que infinitamente se encadeavam, tinham-nas mais estreitamente ligadas do que o podiam fazer as leis e as legiões de Roma ou a vontade do senado e dos imperadores. Era por êsse trabalho interior, invisivel, de que ninguêm tinha consciência, que o ajuntamento acidental dos territórios feito pela conquista e pela diplomacia se tornava verdadeiramente um só corpo, animado de uma vontade única».
Soluções congéneres e paralelas dos problemas da vida das nações e da constituição psicológica dos povos vem apontadas e defendidas com uma grande clareza em um pequeno livro ultimamente publicado na Inglaterra. Dedicado à Workers' Educational Association, e por isso posto em termos de ser compreendido alêm do mundo dos letrados e erúditos, colaborado por professores eminentes das universidades de Cambridge e Oxford, mais cingido aos factos do que enlevado na sedução de abstrações e idealismos, procura êsse excelente trabalho esclarecer-nos sôbre a crise que a guerra representa nos destinos da democracia, e com um exito manifesto muito instrue os menos versados nas questões políticas, mas nem por isso menos interessados e dedicados na determinação final de uma situação das nações da Europa, que terá de ser de larguissimas conseqùências na fortuna ou na desgraça dos povos que elas compreendem.
Considera êsse livro que na tarefa em que nos propomos fundar o domínio da lei, direitos civis universais e a abolição da guerra, há dois processos.
Um consiste na pressão dos governos e nos seus ajustes e convenções, em tudo isso que anda sonhado e fragmentado em criações e aspirações de tribunais de paz, em planos de desarmamento, em tratados de arbitragem e em muitas outras ingenuidades correlativas, tão cativantes na candura da sua fé como débeis na eficácia. Evidentemente, todas naufragam na impossibilidade de serem sancionadas pela fôrça, quando a loucura ou a perversidade dos homens as desrespeitarem. Quando os conflitos surgirem, onde estão os exércitos que tornam soberanas e uma realidade as decisões dos tribunais? Quando uma nação, armada e grande, afrontar as obrigações dos retalhos de papel e os rasgar, quem tornará de bronze a vontade dos tribunais e converterá em mármore a precária consistência do papel? Um revoltado bastará para atraiçoar as intenções mais firmes e felizes, e para inundar a terra de uma chuva de sangue e de fôgo.
Todos êsses engenhosos contratos podem «ser alivio por algum tempo e preparar o caminho para progressos ulteriores, mas só por si não podem dar segurança alguma permanente, nenhuma justificação satisfatória para o abandôno de meios defensivos, da parte dos vários govêrnos soberanos e em bem das suas nações».