Sem dúvida, o argumento do político experimentado e habituado a confiar no podêr da organização política terá seu fundamento e verdade. Não está longe de se conformar com a opinião dos que viram na guerra o naufrágio dos partidos socialistas, como garantia e propulsores de paz entre as nações. Mas para os estranhos às artes da actividade política prática, medianamente propensos a esperar das suas tramas a fortaleza que só no vigor das tendências do espírito encontram, o mais provável será que não fôsse a deficiência de direcção dos trabalhadores que deixou proseguir a guerra; antes teria acontecido que a insuficiência do espírito anti-militarista entre os trabalhadores não permitiu que êles se acautelassem e defendessem o mundo contra essa inqualificável monstruosidade. Para os que mais esperam da inspiração interior que do engenho prático, a responsabilidade dos trabalhadores está amplamente atenuada pela sua miséria material e indigência moral correlativa. A civilização moderna, fazendo-os escravos de uma escravidão de que a custo e com muitas penas se vão libertando, tudo lhes podia ensinar menos o cristianismo de cuja negação eram as vítimas revoltadas.
Faltou-lhes a fôrça íntima que havia de pressentir e combater os manejos sórdidos das chancelarias, dos palácios e das casernas. Teria sido a debilidade religiosa, inevitável na sua condição, e não um simples erro de organisação, que deu causa à sua inércia e à sua rendição perante poderes que abominam. A previsão que os ha-de salvar e salvar-nos de iguais catástrofes no futuro só subsistirá quando a energia religiosa a guiar e exigir. Não ha capacidade prática, seja ela qual fôr, que seja suficiente para a substituir.
Quando um poeta da lucidez moral e peregrino talento que enalteceu Eduardo Carpenter, encanecido em sua inquebrantável missão de amor, quando o génio bafejado pela santidade nos diz firme e docemente, de todo isento de ira injuriosa dos tímidos e vacilantes, que, para pôr termo a esta peste da guerra, não há senão um remédio, e é «o geral abandono dêste sistema de vivermos do trabalho dos outros», poderá parecer-nos que simplifica em extremo e reduz a proporções demasiado mesquinhas um conflicto de proporções gigantescas que é uma dôr e uma agonia para o mundo inteiro. Suspeitaremos capricho da destreza do filósofo ou uma violência sagaz nesta segurança com que êle pretende fazer entrar na regra comum o que por mil modos se mostra uma anormalidade tão complexa como estupenda. Mas, se reflectirmos, ligeiramente que seja, de pronto nos convencemos de que nem a afirmação do profeta se afasta dos limites e da lógica dos factos averiguados, nem os seus vaticínios são outra cousa senão a voz deste cristianismo que em renascimento assombroso se faz ouvir e é juíz em todo o sistema das relações sociais, desde a ínfima humildade de um servo que nos comove até á soberba das potestades da terra que nos ameaçam.
Essa é a causa da guerra, este sistema de viver do trabalho dos outros, negação formal do cristianismo, ou se siga entre os indivíduos ou entre as nações, e isso mesmo o tem sido desde o princípio do mundo. Fôram para isto as primeiras guerras primitivas, «para apreender gados e colheitas, para apanhar escravos de cujo trabalho os conquistadores podessem subsistir; e são a mesma cousa as ultimas guerras. Adquirir concessões de borracha, minas de ouro, minas de diamantes em que o trabalho de gente de côr seja explorado até ao extremo mais amargo; apossar-se de colonias e terras distantes, onde empresas capitalistas gigantes (com o trabalho de brancos ou de gente de côr) possam realisar dividendos imensos, pela subida do minério ou de outros productos industriais; esmagar qualquer outro poder que nos estorve no caminho destas avidas e deshumanas ambições:—tais são os fins das guerras de hoje. E nós não vemos a causa do mal porque êle está tão perto de nós, porque nos anda no sangue. Toda a vida particular das classes capitalistas e comerciais, que hoje são os representantes das nações, se funda em o mesmo princípio. Como indivíduos, o nosso unico fim é encontrar algum trabalhador ou grupo de trabalhadores cujo trabalho valoríse o que nós podemos apropriar... Um parasitismo sem disfarce e sem vergonha é a ordem, ou a desordem dos nossos dias. A rapacidade dos animais de preza mal se oculta em a nossa vida social, transparentemente velada todavia por uma aguada de sentimento «cristão» e por uma rede de instituições filantrópicas para suposto benefício das muitas vítimas que nós espoliamos.
«Que há pois que admirar se êste princípio de rapacidade e guerra intestina que governa a nossa condição, se esta cobiça vulgar que nos cobre o corpo de jóias e peles, e nos cobre a meza de alimentos caros, sem considerar aqueles a quem arrancámos êsses confortos, que há pois que admirar se por fim resultam na rapacidade e violência sôbre o vasto teatro do drama das nações, e nas letras vermelhas da guerra e do conflito, escritas através dos continentes? De nada serve dizermos com uma presumida piedade que estamos em campo para banir a guerra e o militarismo, animando nós entretanto em nossa própria vida e em a nossa igreja, ligas do império e outras instituições, o mais sordido e egoista mercantilismo, que em si é essêncialmente uma guerra, apenas uma guerra de um género muito mais insignificante e mais cobarde do que aquele que se assinala no embate das tropas ou na furia das espingardas e dos canhões. Não, não há outro meio; e só pelo abandono geral do sistêma comercial e capitalista presente será banida a peste da guerra[6].»
Êstes são os acanhados e míseros termos a que as fúrias da guerra se reduzem, esta é a palpitação do seu imundo ventre—uma derrogação do princípio cristão, perfeitamente idêntica em suas causas e efeitos a qualquer outra das que quotidianamente praticamos em nossa existência e que o hábito nos velou com uma empedernida inconsciência. Apontá-la em uma tal simplicidade é uma revelação salutar, grande e fecunda esmola. Acusados e pelo próprio pungir da acusação saberemos o que o cristianismo significa na hora presente, até onde chegam as suas bençãos e anatemas, e conheceremos, com um profundo suspiro de alívio, que influências imponderáveis nos subjugam, que novas fôrças lenta e latentemente se criaram, e que espécie de revolução, ou, melhor, de resurreição nos anunciam.
Áspero e obscuro se mostra, porêm, o caminho da vitória, porque ao mesmo tempo que um cataclismo nos revela a inanidade da nossa presumida fortaleza, deixa-nos incertos sôbre o valor das fôrças que podem edificá-la. E aquilo de que mais esperávamos, a razão, o desenvolvimento da inteligência na humanidade, o conhecimento da história e a observação minuciosa e exacta da evolução das sociedades, todo êsse honesto labor das universidades, da imprensa, dos pensadores, dos poetas, de quantos por qualquer meio se tornaram verdadeiros pastores das nossas almas, tudo isso que é um assombro da capacidade mental dos homens, tudo foi vão para evitar as provações a que um destino sinistro nos conduziu.
Se a razão só por si podesse vencer, um libelo contra a guerra como êsse que Norman Angell ofereceu ao mundo culto na Grande Ilusão, largamente comentado pelo autor e pelos estranhos, e recentemente acrescentado e renovado no Prussianismo e a sua Destilação, isso bastava para que a paz e a guerra fôssem um pleito findo.
Compendiando muitos séculos da história da humanidade e os factos essênciais da vida política e económica dos nossos dias, definindo e conjugando o que vaga e fragmentáriamente todos sentiamos e pensavamos, o pregão de Norman Angell mostrou-nos que a doutrina que constitue a grande ilusão é a crença de que as cousas de maior valor na vida, aquelas que representam os fins das sociedades humanas, só podem alcançar-se pelo desenvolvimento da fôrça política e militar dos estados, pela extensão do seu território e pelo domínio dos seus govêrnos. Esta doutrina, proeminente e característica na Prussia, tornára-se afinal comum a toda a Europa por virtude de um deplorável contágio. Para a debelar não bastavam combinações diplomáticas e a revisão de fronteiras; nascida de certas tendências de espírito, só por tendências opostas poderia ser vencida. Foram os professores, as academias e os publicistas que durante cinqùenta anos a propagaram; e só por um trabalho de identica natureza poderia ser afastada. Não seria pelo ferro e pelo fogo que haviamos de nos libertar da sua calamitosa sujeição. Era vêr o que tinha acontecido com as guerras da religião; debalde sacrificaram milhões de vidas, quando tentaram sustentar as crenças pela fôrça, e só terminaram, dando a toda a fé a liberdade, quando o espírito a conquistou, quando a fermentação intelectual e a estimativa dos valores morais, a sua discussão pacífica e a sua comparação, demonstraram a inanidade da fôrça na sustentação dos altares. Assim acontece e se verifica que «o combate pelos ideais não póde mais tomar a forma de combate entre as nações, porque as questões morais estão dentro das próprias nações e cruzam as fronteiras políticas. Não há estado algum moderno que seja completamente católico ou protestante, liberal ou autocrático, aristocrático ou democrático, socialista ou individualista. As lutas espirituais e morais do mundo moderno proseguem entre os cidadãos do mesmo estado em uma cooperação intelectual inconsciente com os grupos correspondentes dos outros estados, e não entre os poderes publicos dos estados rivais». Política e economicamente se tem estabelecido uma situação paralela em que «a estratificação das sociedades» se sobrepõe aos artificios das divisões nacionais. O mundo tende a repartir-se, não pela fôrça das espadas mas pela coesão dos espíritos e dos interêsses. «É impossivel», diz Baty, citado por Norman Angell, «ignorar a significação dos congressos internacionais não só do socialismo mas do pacifismo, do esperantismo, do feminismo, de toda a espécie das artes e sciências, que tão claramente marcam os seus sinais nas épocas de férias. A nacionalidade, como fôrça de limitar, cede perante o cosmopolitismo... Encontramos a aproximar-se uma situação em que a fôrça da nacionalidade será distintamente inferior à coesão de classe, e na qual as classes se organizarão internacionalmente de forma a aproveitarem os efeitos da sua fôrça». O que Norman Angell repete, acentuando que «por mil modos a associação atravessa os limites dos estados, que são puramente convencionais, e torna uma inépcia scientifica a divisão biológica do género humano em estados independentes e combatentes». «Ninguêm pensa em respeitar um mujik russo porque pertence a uma grande nação, ou em desprezar um fidalgo escandinavo ou belga porque pertence a uma nação pequena». «Viremos a compreender que as divisões reais psíquicas e morais não são entre as nações, mas entre as concepções opostas da vida».
Dada a lei de aceleração a que as sociedades humanas evidentemente obedecem, a predominancia e império da nova concepção das relações entre os povos será em breves anos uma realidade. E a acção dessa lei efectua-se com uma rapidez vertiginosa. «A idade do homem sôbre a terra tem sido diversamente reputada entre trinta mil e trezentos mil anos. A certos respeitos, desenvolveu-se mais nestes últimos duzentos anos do que em todas as épocas precedentes. Vemos hoje maiores mudanças em dez anos do que primitivamente em dez mil. Quem póde prevêr os desenvolvimentos de uma geração?».