«Dái a Deus o que é de Deus, e a Cesar o que é de Cesar» foi talvez o preceito fatal a que por demais se aferraram e que lhes abalou os fundamentos e desvairou as gentes. Da corrompida interpretação dêsse princípio veio que, devidido o mundo e a consciência em duas metades, uma para Deus e outra para Cesar, completamente se perdeu a noção da dependência em que Cesar estava de Deus, e impensadamente se dispensou a observância das obrigações correlativas; não mais se cuidou de subordinar Cesar a Deus, (os imperadores contam com o auxilio de Deus para os seus negócios e invocam-no como quem está seguro da honestidade e pontualidade do almoxarife), deu-se-lhe um reino seu, próprio e para todo o sempre, admitiu-se-lhe como prerogativa da corôa o desregramento, a violência, a soberba e a ira, e apagou-se a lembrança de que, se Cristo se fez homem, foi para revelar a possibilidade de uma humanidade redimida em Cristo, para operar uma perpétua e infinita renovação do mundo, para sobrepôr o reino de Deus ao reino de Cesar, até onde a fraqueza humana póde consentir que êle seja sobreposto. Assim cairam no rígido convencionalismo dogmático e em uma moral inalterável, fixa, excelente e eterna em muitos pontos mas em outros filha do tempo e a êle adaptada, sempre tarda em se aperfeiçoar, por demais segura da sua sumidade, por vezes propensa a indulgências com a cobardia religiosa, sem mesmo hesitar em abençoar exércitos que, sendo portadores do ódio e da morte, são a negação de Cristo, e até mesmo pondo sob a protecção da cruz as máquinas dos caminhos de ferro que são levitas e servidores horrendos de desapiedadas cobiças.

Mas, porque isto acontecia ás igrejas prisioneiras da sua debilidade religiosa e de uma timidez mental singular, freqùentemente tambêm e infelizmente muito preocupadas dos seus privilégios, comodidades, pompas e domínio, nem por isso o cristianismo e a religião esmoreciam, nem por isso cessavam na conquista da terra que é sua e êles possúem cada vez mais inteiramente; a pressão dos factos, facultando insistentemente o reconhecimento da sublimidade da sua verdade, realisava o que a missão sacerdotal, mal entendida e mal cumprida, desprovida do animo dos primeiros dias, não tinha fôrças para indicar, derramar e, muito menos, manter. «Os horrores da guerra presente fizeram que muitos desesperassem do cristianismo e da cultura. Sentem que esta espécie de cristianismo e esta espécie de cultura que pódem produzir uma guerra terrivel como aquela de que estamos sendo testemunhas, deve ser qualquer cousa da natureza da impostura. Mas, por muito más que as cousas sejam, não há necessidade de desesperar. Um novo cristianismo e uma nova cultura surgem—o cristianismo do simples Evangelho de Cristo e a cultura dos profetas e dos poetas. Se estão contados os dias de uma falsa religião, não direi que a religião morreu. Se os combates e a crueldade tomam o logar da cultura, procurarei outra na nascente.» Foi nestes termos que Mauricio A. Canney definiu os desenganos e as esperanças da hora presente.

De todas as amarguras, misérias, ansiedades e combates das sociedades modernas, agora lugubremente acordadas do torpor em que uma embriagada sensualidade as tinha anestesiadas, o que resultou, não foi a falência do cristianismo e da religião frouxamente guardados em suas igrejas onde durante prolongados séculos e por fortuna se acolheram, tiveram acesos os altares e espalharam a sua luz. Quer em espírito e abstracção, quer na solução dos problemas práticos, o que dos conflitos sociais do nosso tempo resulta é a vitória da religião e do cristianismo em toda a latitude, como promessa unica de salvação. Cresceram fóra das suas igrejas, com diferentes nomes e diferentes rubricas, sob diversissimas invocações, mesmo sob as que se propunham nega-los e, inscientemente, imaginando afugenta-los, destrui-los e substitui-los, os propagavam e defendiam; cresceram, porêm, continuamente e, sendo divinos, nunca como agora se mostraram necessidade terrena mais urgente e remédio mais seguro das nossas enfermidades, nunca como agora se levantaram a maior altura, erguidos não só pelos impulsos ingénuos do amor, que é e sempre foi todo o seu ser e substância, mas tambêm pela fôrça da razão e da logica, pela meditação e pela reflexão, pelas conclusões da inteligência e pela investigação das leis da vida, pelas demonstrações da experiência, pelas lições da história desapaixonada e isenta de toda a obsecação de sectarismo.

A fé e a razão, durante dilatados séculos inimigas, identificaram-se em iguais aspirações e certezas, e transformaram a velha oposição e discordia em auxílio mútuo, no serviço da mesma paixão de verdade, no reconhecimento da mesma indigência do poder de conhecer, na contemplação do mesmo mistério, na justificação do mesmo amor e no respeito da mesma regra que dêsse princípio deriva. Religião, sciência e filosofia que fôram atrozmente irreconciliáveis, resolvendo nas fogueiras, nas masmorras, nos cadafalsos e nas praças suas divergências e conflictos, caminham hoje na mesma estrada e mutuamente se amparam para uma mesma jornada. Já a ninguem surpreende que um publicista de superior reputação se detenha a proclamar o «valor religioso do livre pensamento», significando por livre pensamento «a livre e honesta actividade do espírito». «A igreja católica da idade-média», disse êle justificando a sua tése, «a igreja protestante da Reforma, consideravam a sciência seu inimigo. Raciocinar sôbre as cousas santas era uma espécie de impiedade. Tinham de ser aceites como inquestionáveis desde que vinham de uma igreja infalível, em um caso, e de um livro infalível, em outro caso. O pensamento não tinha parte na religião, e o livre pensamento ainda menos, por modo algum; a religião era inteiramente uma fé, e receiava que essa fé podesse definir-se como um estudante a definiu—«aquela qualidade pela qual cremos em cousas que sabemos serem totalmente destituídas de verdade.» Mas a igreja de hoje, no seu melhor modo, acolhe bem o pensamento porque com êle está mais segura de si. Abandonando muita da sua bagagem tradicional, sabe que a que lhe resta está fóra de questão. Olhando mais ao espírito do que à letra, considera o pensamento não meramente um neutral mas um aliado. Começa a vêr que voltar as melhores fôrças do espírito cândida e reverentemente para as profundezas da crença é só por si um acto religioso. E esta nova amizade foi auxiliada por uma mudança de atitude da propria sciência... Um sinal da realidade da nossa fé é que não mais nos arreceiamos de a trazer para o campo largo da razão... Vemos as maiores fôrças do mundo, a religião e a sciência, levadas para qualquer cousa como um terreno comum.

«A religião tornou-se objecto mais do espírito que da letra. As materias de menor importância, ritos e formas do governo da igreja e muitos dogmas, vão perdendo a sua fôrça porque nada têem da essencia da vida; mas as cousas grandes, os artigos cardiais da nossa fé, a crença na sabedoria e no amor de Deus e na divina mediação de Cristo, a crença em o nosso dever com os nossos irmãos, são, pensa ele, mais profundamente sentidos e mais sinceramente possuídos do que nunca. A sciência abdicou da sua velha arrogancia e está preparada para se apresentar de cabeça curvada, como um humilde investigador nos palácios do Oculto.»

São aos feixes os depoimentos dos homens que nas escolas, na imprensa e no govêrno das nações testemunham esta unidade da sciência e da religião e o seu valor social. Tão numerosos já que claramente se juntam em uma torrente, no meio da qual o mais subido parecerá pequenino e vulgar. Se um homem da estatura mental de Keir Hardie, ao fim de uma dilatada vida de apostolado político, o mais nobre e religioso que póde conceber-se, confessa publicamente que, «se voltasse a ser um rapaz, abandonaria a política e se consagraria a prégar o Evangelho de Cristo», ouvimos nas suas palavras, não o desengano de um profeta mas a desilusão de uma época que, ardentemente empenhada em livrar a terra e os homens dos martírios que os crucificam, errou a estrada e foi procurar em mesquinhas artes e em artificios estreitamente humanos uma salvação que êles não continham. São a condemnação final de toda a idolatria materialista dos valores económicos e a certeza de que só a inspiração religiosa é capaz de nos oferecer a fortuna que a pobreza da nossa inteligência e as suas débeis construcções não fôram capazes de fundar.

Ha poucos anos, em 1911, um escritor inglês, A. E. Fletcher, antigo director de um dos grandes jornais de Londres, publicou um pequeno livro, de sumo interesse e eloquente clareza, intitulado O Sermão da Montanha e a Política prática. Pretendia que «não podemos realizar imediatamente os ideais mais altos, mas podemos mover-nos em direcção da sua realização, e os nossos movimentos podem estar de harmonia com as leis da natureza humana». E afirmava e defendia que «essas leis foram supremamente compreendidas por Jesus Cristo, e são totalmente falseadas pelos que adoram Mamon e Belial».

Depois, passando a mostrar mais desinvolvidamente como o Evangelho é uma lei prática, realizável e progressivamente realizada nas cousas da terra, e em particular na política, examinando a possibilidade de aplicação das bemaventuranças do cristianismo confiando a terra à simplicidade, à misericórdia e à doçura, e demonstrando-o, não por engenhosos sistemas e subtis abstrações mas pelos exemplos históricos mais vulgares, vinha por fim a afirmar que é possivel governar uma nação pelos princípios estabelecidos no Sermão da Montanha e que é sómente em quanto assim procedemos que a sociedade póde elevar-se dos tipos mais baixos aos mais altos. Podemos ir para diante no espírito do cristianismo, ficar estacionarios ou retroceder. A sua opinião é que vamos para diante. Crê que em tempo algum da história do seu país (e dos demais países, porque não diremos nós?), «a legislação social proseguiu de modo que mais satisfaça do que durante os ultimos anos. Os homens públicos podem não ter tido a consciência de que, adoptando uma legislação humana, emergem da barbaria para o cristianismo, mas subsiste o facto de que essa evolução prosegue». Para o compreendermos bastará lembrar o que a legislação social e política tem sido desde o comêço do século desenove—o que ela fez protegendo as crianças, de que infernos vem arrancando os trabalhadores, como repartiu a riqueza e acrescentou a dignidade, que lutas titânicas sustentou para isso, que barreiras formidáveis de prejuízos e vis interêsses lhe foi necessário transpôr e vencer. E que princípio, que fôrça realizava êsses milagres senão o cristianismo que dos livros sagrados se derramára nos códices das doutrinas e das instituições políticas?

Se em matéria de cristianismo a guerra determinou alteração de valores, seria sem dúvida para ampliar, se ampliável fôsse, a preponderância daquele valor inabalável e eterno que no cristianismo se contem, sobretudo para o fazer repassar mais profundamente a consciência dos homens, definitivamente convencidos da necessidade de um predomínio maior ainda, infinitivamente mais profundo, dos princípios do Evangelho considerados na sua influência prática, na sua ilimitada aplicação à disciplina e conduta da vida.

Um dos chefes mais graduados do partido do trabalho na Inglaterra, Filipe Snowden, dirigindo-se aos seus eleitores dizia que pensou que as fôrças unidas da democracia e das igrejas da Europa poderiam ter evitado a catástrofe da presente guerra. Mas os acontecimentos precipitaram-se por tal forma que as fôrças da democracia, da religião e dos pacifistas não tiveram tempo de mobilisar-se antes que as intrigas dos militaristas, monarcas e diplomatas soltassem as fúrias da guerra. Sempre acreditára e confessára que, se as nações da Europa continuassem na política internacional dos ultimos quinze anos, provocando hostilidades por uma concorrência doida nas despezas de armamentos, o resultado não podia ser senão a guerra. Mas, fôsse qual fôsse a causa da guerra, eram as classes trabalhadoras da Europa que dela tinham a responsabilidade. Desinteressando-se das questões internacionais, deixaram que a seu modo as regulassem os kaisers, os czares, os militaristas e os diplomatas, todos destituídos de simpatia pelas aspirações democráticas e levados por interesses económicos e outros opostos aos trabalhadores do mundo. Tivessem-se os trabalhadores apossado do govêrno das relações internacionais, e debalde se teria provocado a guerra e as suas calamidades, de cuja responsabilidade os trabalhadores não podiam livrar-se.