Porque a democracia é um facto. Já nem há fôrça nem astúcia interessada que lhe estorvem a expansão. A diplomacia que vivia encerrada em seus palácios, fóra de toda a promiscuidade e contacto com as plebes que arregimentava apenas para seu uso e capricho, terá de descer a este campo comum onde cada um vive na franqueza sem refolhos das suas aspirações e das tendências dos homens e dos povos seus irmãos. De soberana passa a cativa, ao cativeiro das obrigações políticas e morais que são a condição da dignidade e da utilidade, da arte de ser e viver nobremente, em paz e dando a paz.

Um artigo do Daily Chronicle, procurando as razões por que a Inglaterra e os Estados Unidos da América teem vivido em paz há cem anos, emquanto a Europa era devastada por guerras sobre guerras, julgava explicação insuficiente do notabilíssimo facto os laços de parentesco que unem os povos dessas duas nações. Embora sem dúvida concorram para essa extraordinaria fortuna, é certo que a identidade da raça dos Estados Unidos e da Inglaterra está profundamente limitada e prejudicada pela insinuação de sangue estranho, e não póde dar razão bastante de tão sólida e prolongada amizade. Causa mais eficaz poderá encontrar-se «nestas ideias de liberdade pessoal, direitos civis, obediência à lei e confiança nos métodos judiciários, que são a herança comum do passado do povo americano e do povo britânico. Ambos êsses países realisaram os processos de pacificação dentro das suas fronteiras, e estão por conseguinte imediatamente mais prontos e mais habilitados a experimentárem os mesmos processos em relação aos negócios externos. Ambos êsses países, posto que viris e marciaes, estão livres do militarismo que escurece a vida civil em muitos países europeus. Estes foram, indubitavelmente, factores que contribuiram para a paz de cem anos.

«Há entretanto para êste grande resultado uma outra causa muito mais importante e decisiva do que aquelas que fôram apontadas. É que de facto, a Grã-Bretanha e os Estados-Unidos, ambos são na realidade governados pela opinião pública.»

E essa mesma opinião pública, hoje mais do que nunca pacífica, conquistando progressivamente o governo das nações, reclama o seu direito de assistência na diplomacia e promete imprimir-lhe o caracter que brilhantemente revelou onde tem podido dominar.

Na verdade, por muito poderosas forças que a diplomacia e o internacionalismo nos pareçam, afinal são instrumentos doceis de fôrças superiores das quais dependem, como todos os demais elementos da constituição social das nações e as suas afirmações. O internacionalismo dissemina-se e avigora-se, e a diplomacia muda de modos, gestos e processos, aparentemente; no fundo não são senhores dos seus destinos, jámais o fôram, e é apenas o espírito cristão que os autorisa ou condena e lhes prescreve novas obrigações. A política em todos os seus aspectos muitas vezes se convence de que póde ignorá-lo, fugir-lhe e desobedecer-lhe, mas não há crise nem convulsão social que o não desperte e não lhe revele imediatamente a eternidade da acção, seu invencível poder e a sua indomável expansão. E esta guerra mais evidentemente do que nenhuma outra o demonstrou.

«Longe de representar a bancarrota do cristianismo, representa realmente grande adeantamento na sua conquista do mundo; porque foi a primeira guerra de que muita gente disse que ela marcava o desfalecimento da nossa religião. Por outras palavras, só agora a Europa compreendeu que, se as nações são cristãs, não póde haver guerra entre elas. Isto bem o souberam Atanasio e Tertuliano e a igreja primitiva; mas desde o tempo de Constantino até agora esqueceu-se. Quando o mundo tomou sob a sua protecção a igreja e, largamente, sob o seu governo, no acontecimento conhecido como a conversão de Constantino, muitos dos princípios do Evangelho se obscureceram. Durante séculos, a igreja estava pronta a abençoar exércitos e armadas. Shakespeare julgou apropriado fazer proeminentes os bispos entre aqueles que aconselharam Henrique V a declarar guerra à França. Mas em nossos dias diz-se que um papa, instado para abençoar as armas, respondera:—«Dou a minha benção à paz.» E um arcebispo—alterius orbis papa—solenemente declarava toda a guerra «obra do demónio.» Crentes e descrentes, todos afinal achamos igualmente que toda a guerra é contraria ao espírito e animo de Cristo. É um lucro efectivo. Não foi, portanto, o cristianismo que faliu, porque o cristianismo nunca foi aplicado às relações internacionais. O que faliu foi uma civilisação que não era cristã»[5].

Romain-Rolland, nos artigos que publicou no Journal de Genève e correram mundo vertidos em diferentes linguas, anunciados como um pregão profético, disse que «as duas fôrças morais cuja fraqueza esta guerra mostrou mais claramente, fôram o cristianismo e o socialismo. Estes apóstolos rivais do internacionalismo religioso e secular mudaram-se de repente nos mais ardentes nacionalistas». Hervé, os socialistas alemães, e Frank, morto em combate, por amor do militarismo, ele que era o campeão da união franco-alemã, todos sem excepção se pozeram à disposição dos seus governos e lhes coadjuvaram as mentiras e os odios «tendo a coragem de morrer pela fé alheia, os que não tiveram animo de morrer pela sua própria fé.» «Os representantes do Principe de Paz, sacerdotes, pastores e bispos, foram para as batalhas aos milhares, a levar-lhes, mosquete em punho, os divinos mandamentos:—Não matarás e amarás o próximo.» Em cada vitoria, ou seja de austriacos, alemães ou de russos, o vencedor louva a Deus pelo favor, «Cada um tem o seu Deus e cada Deus, velho ou novo, tem os seus levitas para o defenderem e destruirem o Deus dos outros.» No exército francês andam vinte mil sacerdotes, os jesuitas põem-se à disposição do govêrno alemão, os cardeais lançam proclamações de guerra, e o os jornais contam, sem qualquer expressão de pasmo, a scena paradoxal na estação do caminho de ferro de Pisa em que os socialistas italianos saudaram os moços ordinandos que iam para os seus regimentos, cantando todos juntos a marselheza.» Pio X, a quem o rompimento de guerra apressou a morte, segundo se crê, que «não poupou os seus anatemas aos sacerdotes inofensivos que acreditaram em a nobre quiméra do modernismo, que fez êle contra aqueles príncipes e criminosos governantes cuja ambição desmedida votou o mundo à miséria e à morte?»

Tudo isso seriam, em seu juízo, sináis de fraqueza do cristianismo, porventura a demonstração da sua falência, pela incapacidade manifesta de resolver em seus termos e aspirações o conflito tremendo a que se associou, atiçando-o em vez de o apagar.

Eu creio, porêm, que no elevado talento e superior inspiração de Romain-Rolland houve talvez uma injusta identificação entre o cristianismo e as suas igrejas, compreendendo na fraqueza e deficiência da organização das igrejas e nos seus muitos êrros a decadência do império de um princípio cuja expansão e penetração teem sido constantes desde a hora da sua revelação, cujo poder mais do que nunca nos domina e fascina, e cuja lei cada vez mais lucidamente se mostra a solução unica e a unica redenção dos males e angústias que afligem a humanidade.

Havendo-se mostrado inferiores à missão que as criára e fôra sua razão de ser, seu alicerce, e glória dos seus templos e mártires, as egrejas cristãs veem-se sujeitas em nossos tempos a gravíssimas provações. Por todo o mundo associadas com o mando, ainda mesmo com o mais despótico e deshumano; tolerando de boa mente o capitalismo e o militarismo, abençoando-os bastas vezes e trabalhando para lhes acomodar o espírito dos fiéis, de ordinário prontas em promover o culto da riqueza e do podêr; quási invariavelmente afastadas, senão inimigas, do desenvolvimento da democracia que, sendo a tradução política dos seus princípios, elas insistiram em desconhecer, aceitando-a em último extremo e deplorando-a com mágoa, como indisciplina, subversão, opressão e derrota, negando-lhe o parentesco, suscitando-lhe dúvidas, temores e embaraços; mais desvanecidas nos favores dos grandes, e partilhando-lhes do luxo, do que afeiçoadas às fadigas e penas dos humildes, e amparando-lhes a cruz; mal preparadas para a contingência da emancipação das graças dos poderes políticos que as propensões do pensamento moderno impozeram, privando-as dos benefícios de uma antiga absorpção da autoridade civil, subsistente durante longos séculos e por diversos modos efectiva, expressa ou tacitamente, nas leis e nos costumes, no forum e no templo; mais combatentes, coercitivas, do que apostólicas, mais amigas de mandar, e de facto mandando, entre erários e espadas, do que confiadas em cativar pela pobreza, pela isenção de toda a violência, pela verdade e pelo amor; de uma scéptica complacência com o fariseismo e hipocrisia que se lhes roja pelos altares, inteiramente descuidadas em corrigir as superstições dos seus rebanhos; afeiçoadas a uma caridade realmente abundante de deligências, desinteresses e esmolas, mas intimamente e logicamente inseparável de todas as aristocracias e hierarquias, muitíssimo avara de concessões de direitos e de quanto possa facultar uma nova ordem que venha a dispensar-lhe a intervenção; não tendo prevenido a pobreza, em logar de a deixar medrar para depois lhe dar remédio à mercê de incertas generosidades tão pródigas em paliativos como timidas em prevenções; havendo deixado que os ritos predominem sobre o espírito e que do espírito se desprenda o simbolismo cuja suprema beleza e alta necessidade se esvai e arrefece, se de expressão da alma os convertemos em feitiços; mais zelozas em apurar regras e manter uma disciplina estreita e mecanica do que exaltadas em respeitar, defender e propagar a pureza dos princípios; desatentas ao inimigo que lhes invadia os domínios, não percebendo ou tomando em pouco o que o desenvolvimento da imprensa diária lhes importava, pois, trazendo-nos a casa todos os dias o pão espiritual que cada um escolhe ao seu paladar, assim afasta do templo onde outrora o procurávamos, nos dias de descanso das fadigas profissionais:—as igrejas, no geral, decairam por inércia e atrofiaram-se em uma dureza estéril, quando, por desgraça ainda maior, não se transviaram totalmente cedendo à cegueira de aspirações traiçoeiras, esquecidas da fé e da esperança divinas e da adoração dos homens, que para as servirem as tinham edificado e cimentado com o seu sangue. Devotos não lhes faltavam; muitos tiveram e teem. Faltaram-lhes crentes, o que é diferente; e, chegadas a uma conjuntura como a presente, porque crentes não tinham, quedaram-se impotentes, com grande copia de bons desejos, palavras excelentes e muitas lagrimas, mas sem nenhuma influência de acção.