Facto de superior significação que esta guerra tenha a considerar e a guardar como ensinamento, senão como profecia divina, um só teremos a apontar, e êsse de incalculável magnitude—a amizade em que no dia de Natal se fundiram os ódios dos adversarios que momentos antes friamente se trucidavam e que, sem escritos do protocolo nem ordens dos generais, por espontaneidade do coração, decretaram um armistício, tão rápido no tempo como douradouro na inspiração, para soltarem palavras de paz e afeição, que lhes transbordavam do peito, e para converterem em olhares de intimidade e ternura, de que estavam sequiosos, a hostilidade sanguinaria em que um tresloucado fetichismo os trazia empenhados. Os soldados voltaram às fileiras, o fogo recomeçou, o sangue jorrou, e de novo se cobriu de cadaveres a terra. Mas alguma cousa indestructível se edificára e permanecia de pé, inviolável; uma luz se acendêra, que não podia apagar-se, de paz, de comunhão e de carinho; uma saudade se ateiára precipitando as nações e os exércitos em caminhos novos, para outros combates.
Não foi, sem dúvida, o internacionalismo cegamente nivelador que ali venceu e aniquilou o nacionalismo nas suas estreitezas e prejuízos, que lhe encobrem a sua legitimidade, lógica, elevação e grandeza, e por vezes as pervertem, transmudando em aversão o amor do próximo e a amizade do vizinho. Não foi o desfazer das nações, das fronteiras e dos lares, a absorpção e a utopia em uma patria indistincta da humanidade. Foi todavia a graduação do internacionalismo na escala dos valores em uma altura superior àquela que anteriormente lhe havia sido designada; foi a consagração de uma abençoada exaltação que cresceu e pôde mais do que a insânia sanguinária de aniquilação mútua, foi um pregão eloqùênte lançado aos quatro ventos da terra, e sobretudo aos senhores da terra, a repetir-lhes que os homens não querem a guerra e a aborrecem, e unicamente pela avidez dos que os governam, escravisam, fascinam e iludem são arrastados às batalhas que o coração amaldiçôa. Foi a confissão tácita, mas iniludível e de uma eficácia incalculável, das determinações de uma consciência que sente dissipar-se a divisão das raças e das nações—não porque a suprime, mas exactamente porque, reconhecendo a diversidade, liberdade e beleza das feições das raças, a ama no vizinho como em nós mesmos, unindo-nos na comunidade de interesses e afeições por aquilo que é o nosso comum amor, em vez de nos massacrar na concorrência das ambições, no desrespeito da individualidade étnica específica, na intolerancia, em tudo quanto póde distinguir-nos e de facto nos distingue, sem que por isso tenha de nos separar e tornar inimigos.
Os menos desconfiados das aparências e incitamentos da primeira impressão, vendo soltas as furias da guerra, imediatamente disseminando calamidades e atrocidades sem numero e sem nome, desde o morticínio das mulheres e das crianças até à ruina das catedrais—que jámais poderão ressurgir na inteireza do seu esplendor e poesia, jámais poderão rehaver os bafejos dos alentos místicos que em extasis divinos as sonharam e ergueram e pelo sangue de mártires e pelo génio dos obreiros lhes haviam dado a aureola de uma arte e tradições irreparáveis, das que vivem uma só vez, filhas de uma só alma, e não renascem, se as ultrajou a malvadez dos homens atónitos na turbação de um ímpeto sinistro!—os menos desconfiados dos incitamentos da primeira impressão de pronto descreram dos sinais de paz que há pouco viam com alvoroço no horisonte. Logo se abandonaram ao desalento e tiveram como não subsistentes a solidez e progressos daquele internacionalismo que era a vitória da consciência dos interesses comuns dos povos prevalecendo sobre os conflitos das suas diversas tendências, necessidades e divergências, e conduzindo a uma lenta substituição da hostilidade pela cooperação que, paulatinamente mas incessantemente, se infiltrára no espírito das raças e se traduzia em ligações cada vez mais estreitas, em um comércio material e moral cada vez mais assíduo e penetrante, e na dissolução paralela de suas reservas, dissenções, temores e inimizades. Devia esclarecer-lhes muitas hesitações o que no dia de Natal se passou entre exércitos inimigos em campanha, de súbito tornados irmãos por mandados desconhecidos, mais altos do que a voz dos generais rutilantes de galões; mas, se a grandeza milagrosa dêsses comandos invisíveis não lhes assegura que alguma causa de novo se fundou na terra e que não foi apenas um sonho de visionarios a convicção dos que antes da guerra encontravam na expansão do internacionalismo os fundamentos e a esperança do renascimento político e social das comunidades, meditem paralelamente o que na escala dos valores sofreram o patriotismo e a diplomacia, e isso lhes dirá por outra forma e por outras palavras o que a trégua e os sorrisos do dia de Natal não lhes tiverem significado. A seu modo e precisamente, pela análise da história, pelo exame dos factos políticos e pela verificação das ideias e opinião dominantes, isso lhes dirá o que porventura lhes haja escapado na inspiração misteriosa e vaga dos transportes do coração, nêsse desdenhado e até execrado sentimentalismo que, no conceito dos seus inimigos sendo nada, uma futilidade doentia, quando não é a desgraça, a dissolução da energia, teve todavia a fôrça de desarmar exércitos e transpor trincheiras que os corajosos e prudentes, indemnes de debilidades afectivas, haviam juntado e edificado para uma obra de extermínio.
O patriotismo reconhece hoje penitentemente os seus desvarios e crimes, e é novo e singular que se atribuam crimes a quem andava protegido por um resplendor de pureza. Eivado de infinitos temores, ódios e egoismos, corrompeu-se, ou melhor, não tem sabido purgar-se de «faltas grandes e crueis, como aconteceu á religião do cristianismo, embora as faltas do patriotismo não sejam usadas pelos agnosticos contra êle, do mesmo modo por que êles procedem para as faltas da religião, o que talvez possa derivar de que os agnosticos estão compreendidos nas faltas do patriotismo e são alheios às faltas da religião». Compreenderam-se em uma só divindade e apostolado as virtudes e as degenerações e deformidades do patriotismo; porque «o patriotismo pode tornar-se não moral, ou definitivamente imoral e ateu. Os estados, como as igrejas, podem começar por uma cobiça de fôrça, por impulsos de infalibilidade, e daí passarem, através de uma perversão de lealdade, à perda conseqùênte da honra e ao esfacelamento da etica». «Um cristão não pode pedir a sua moral ao estado ou tomar os diplomatas como seus directores espirituais; o unico patriotismo que êle pode respeitar é o que obedece ao Deus da verdade e da rectidão. E este patriotismo, porque é moral, é capaz de ser internacional. Um patriotismo que não pode ser internacional que não pode encontrar logar para uma mais larga lealdade à humanidade ou uma mais profunda lealdade à igreja, acaba sempre por ser criminoso». «No fundo de todas as doenças do patriotismo há sempre o espírito do ódio». «O verdadeiro patriota é o que crê, não em um só patriotismo, mas em todos, que respeita a nacionalidade dos outros e saúda a lealdade onde quer que a encontre. Não fomos suficientemente patriotas no passado. Realmente, não acreditamos no patriotismo». É insensato, mesquinho e despiedoso o patriotismo que antes de bem combater não soube bem viver, que só na guerra sente as obrigações e todas as esquece e desconhece na paz. «Nos anos angustiosos de sombria luta de classes que nós chamamos os anos caquéticos da paz, vivemos vidas baixas, egoistas, acanhadas e crueis. De ano para ano as cidades alargam horrivelmente as suas ruas e tocas nesta linda Inglaterra», (como de resto em todo o mundo), «que é nossa, pela qual somos capazes de morrer, mas pela qual não estamos prontos a viver; de ano para ano são oprimidos os pobres, rebaixados os humildes e quebrantados os fracos, e ergue-se aos céus o clamor de milhões que se submergem emquanto nós opulentamente nos divertimos. E imaginamos ser patriotas! Até no tributo da vida humana a chacina da guerra é pequena, comparada com os acidentes constantes que resultam das doenças que se podiam evitar, da mortandade de crianças a que se podia atalhar, de industrias perigosas desnecessarias, da ignorância, da pobreza, da embriaguez e vicio».[4]
Companheira e a melhor serva dêsse patriotismo e nacionalismo de antagonismos sangrentos, rapacidade e conquista—miséria e orgulho dos govêrnos destituídos de senso moral e religioso, a diplomacia, principal responsável da desolação e luto que cobrem a Europa, sofre hoje na guerra uma completa derrota. Vexada pela enormidade do desastre, para sempre convencida de uma monstruosa traição a Deus e aos homens, à paz e à riqueza da terra, condenada e confundida pelo cataclismo que na sua corrupção e debilidade fundamentais provocou, aplaudiu e consumou, perdeu o prestígio dos seus conciliábulos e segredos, e são mais os incrédulos que a proscrevem do que os fieis que a amparam. Há muito suspeita, por isso mesmo que, dissimulada e tenebrosa nas maquinações, isso induzia a desconfiar da sua justiça e boa fé, embora fôsse o meio de lhe ocultar os propósitos e habilidades, e não raro as cobiças, a sordidez, as vaidades e ignobeis fins de que era instrumento mais ou menos consciente e nunca escrupuloso—agora, ao dar conta pública das suas façanhas, estas confirmaram e agravaram todas as suspeitas anteriores.
Singular ironia do destino e não sem uma particular significação, um dos homens que muito antes da guerra se identificára mais inteiramente com o movimento que, à falta de melhor expressão, poderemos chamar anti-diplomático, era um hereje da sua igreja, um deputado do parlamento inglês, Arthur Ponsonby, aristocrata criado na atmosfera mais puramente aristocrática que póde conceber-se, nascido em um palacio rial, filho do secretário particular da rainha, descendente de fidalgos com uma elevada posição na côrte e no seu país, pagem de honra da rainha durante cinco anos e em seguida, durante quási dez anos, dedicado ao serviço diplomático no estrangeiro e no ministerio dos negócios estrangeiros da Grã-Bretanha. Mais perfeito conhecimento de causa não podia exigir-se para discutir a situação, valor e tramites da diplomacia, seus beneficios e seus males e agravos.
Ora êste homem, que se distinguira já por duas obras de valor, O Camelo e o Fundo da Agulha, severo estudo da degradação que a posse da riqueza importa, e a Decadência da Aristocracia, onde pôs a claro a fraqueza da própria classe a que pertencia, êsse publicista de sinceridade e talento provados escrevera em 1912 um panfleto, a que intitulou Democracia e Fiscalização dos Negócios Estrangeiros. Aí procurava acautelar-nos contra os perigos a que a cerrada e voluntária obscuridade da diplomacia trazia sujeitos os destinos, aspirações e esforços das democracias. «Não creio», escrevia então, «que na época presente haja questão mais importante do que a consideração do problema que resolverá como é que a opinião pacífica, moderadora e progressiva da democracia póde penetrar tanto nos negócios internacionais como nos negócios nacionais, e como é que um estado democrático póde descobrir os meios próprios para se exprimir no governo da nação».
Até que ponto fôram proféticos os seus pressentimentos e temores, qual a importancia do problema que êle punha acima de todos os outros problemas políticos, demonstrou-o a guerra. E, interrogado há pouco por um redactor de The Christian Commonwealth, pôde renovar o seu pensamento com a autoridade e desenvolvimento próprios de quem o viu justificado por factos de uma trágica evidência.
Não supõe «que tivesse havido um cataclismo moral na vida do mundo. O desastre foi devido principalmente a erros políticos. Mesmo depois que a guerra começou, temos tido muitas provas de que realmente não houve quebra na boa vontade do povo deste país ou de qualquer outro. As narrações pateticas, feitas pelos homens em campanha, das relações afetuosas entre êles e o «inimigo» no dia de Natal mostram claramente que a guerra não é entre os povos; sentem a necessidade de ser amigos e facilmente seriam amigos, se os que os governam não estivessem em guerra. O sentimento do povo é perfeitamente são; a guerra não foi causada por ódio ou cólera que o povo de um pais sentisse contra o povo de outro pais. Foi causada pela inferioridade do que se chama a moralidade internacional e que é realmente a moralidade intergovernamental. Baseia-se neste facto a sua oposição à guerra. A sua crítica é principalmente política. Contesta que haja uma quebra moral da parte do povo... carecemos de nos libertar do segredo diplomático e garantir a fiscalisação democrática nos negócios estrangeiros, o que só por intermédio do parlamento póde fazer-se. «Diplomacia aberta» é em certo modo uma frase que não convém. Do que o país carece é de conhecer inteiramente os seus compromissos e obrigações com os países estrangeiros e ter informação definida das linhas gerais da política que se segue relativamente às relações com o estrangeiro. Não precisa de interferir na responsabilidade do executivo... Há na diplomacia uma tradição de segrêdo, um ar de guardar segrêdos misteriosos do estado, que nos veio de idade-média e que tem por efeito deixar as cousas inteiramente nas mãos de homens públicos ciumentos de toda a intervenção estranha. O que mais lastima, todavia, é a política do silêncio oficial sobre materias que se tornam de uma importância vital. Um completo segrêdo é em nossos dias praticamente impossível. O povo sustenta-se de palestras ociosas, rumores e falsas referências dos jornais. Não está sem informações mas está mal informado.» A culpa não é dos ministros, é dos próprios parlamentos que se movem em um círculo vicioso: porque os seus membros não são informados dos negócios externos, poucos se interessam por êles e os estudam, cáem cada vez mais nas mãos dos grupos que os regulam. «Mas a guerra abalou a confiança nestes grupos, e a ocasião é oportuna para mudanças que os acontecimentos mostraram de tal modo imperativas.» As questões de política estrangeira estão destinadas a prender a atenção dos povos nos anos mais próximos, «e toda a consideração de senso-comum e de prudência, para nada dizer da democracia, prescreve uma alteração do sistema que caiu.» Não é que a direcção dos negócios estrangeiros tenha de ser tirada aos respectivos ministros ou que deixe de haver negociações que necessitem de reserva emquanto proseguem. «Mas carecemos de mais bastas oportunidades de discussão, de submetter ao parlamento todos os tratados, compromissos e obrigações, de democratisar o serviço diplomático.» Porque a exiguidade da retribuição dêsses serviços tornaram-nos praticamente o apanágio de reduzidissimas classes abastadas, e «homens de talento, criados na fé democrática, que compreendem e podem interpretar o sentimento popular, são excluidos justamente por não possuirem aquelas qualificações adventícias. Precisamos de alargar a área da selecção.»
Evidentemente, a guerra não importou a falência absoluta da diplomacia. Entre as nações terá de haver as inteligências e ajustes que são indispensáveis, essenciais, em toda a ordem da vida social da humanidade, e essas relações não podem deixar de ter seus interpretes próprios e instruidos, e seus planos e modos de proceder. Não está inutilisada a engrenagem porque funcionou mal, pessimamente, com grande perda de vidas e bens e com infinita cópia de atribulações e de dôres. Mas está humilhada, desacreditada, a sua reservada altivez, e por sua insensatez, egoismo, estreiteza de entendimento e estreiteza ainda maior do coração terá de dar o lugar a quem a substitúa com menos soberba, mais modéstia, e sobretudo mais conhecimento e respeito das aspirações dos povos que a sua arte está destinada a servir e que ela cegamente sacrificou às ambições pervertidas de reduzidas aristocracias e à voracidade insondável das oligarquias mercantes.