Mas bastaria que isto se disputasse, ainda mesmo que não fôsse com aquela universalidade e largueza com que se discutia, bastava a insistência na dúvida e a inflexibilidade na rebeldia para assegurar que alguma coisa nova agitava o mundo. Imediatamente a reflexão reanimou e fortaleceu as tendências dominantes antes da guerra. Logo se viu e foi certo—facto primacial e de extremas conseqùências, que a guerra, ainda há cem anos uma actividade natural, e nessa qualidade admitida e aceita unanimamente, tornára-se no pensamento dos nossos dias uma monstruosidade, uma aberração e um crime, tão indignadamente apontados e abominados hoje como outrora exaltadamente louvados e aplaudidos.
Nem todo o bem provido arsenal que a moralidade da guerra usa em sua defesa pôde dominar a rebelião dos que a detestam e esperam baní-la. Não esqueceu todas as alegações a seu favor que colhera no correr dos séculos; todas aduziu e nenhuma pôde prevalecer. Corrigia o egoismo, avigorava a disciplina, evitava a debilidade, unia os povos, inflamava o sentimento da honra, engrandecia no heroismo, fortalecia para a adversidade, para a tristeza e para a dôr, desenvolvia a obediência ao dever, semeava a coragem, a dedicação e a generosidade? Nem assim conseguia restaurar o império perdido! Poderes mais altos lentamente se haviam constituido, e ao mais pequeno sôpro a piramide, que parecia invulnerável a toda a injúria dos tempos, como os tumulos dos faraoos, esboroava-se desfeita. Perante a prova da vida, a prova do fogo e do sangue, a prova da morte, tornou-se insuficiênte e insignificante para julgar os homens. A escala dos valores toda se havia alterado; quanto era primacial para a grandeza e dignidade e se buscava e costumava encontrar na guerra, tudo se viu e conheceu em muito maior e mais nobre amplitude nas inevitáveis e constantes provações da vida. Se o desprendimento, a coragem, a honra, o estoicismo, a tenacidade, o esfôrço, a consagração ao dever, à amizade, à pátria e ao lar eram virtudes sem as quais os homens se despenhavam na abjecção, não careciamos, para as possuir, de as cultivar no ódio, na cobiça, na brutalidade, na impiedade, na ruina e nas atrocidades sanguinárias; o trabalho, a desgraça, a fatalidade das coisas, a cegueira do destino e do mundo cósmico, o sentimento da responsabilidade religiosa bastavam para nos experimentar e educar. A adversidade de todos os dias, que não cessa de nos acompanhar, era o suficiente para nos ensinar e pôr em prova toda a robustez do corpo e toda a nobreza da alma, se de uma e de outra eramos capazes. O Cavador do Millet, no seu campo safaro, só com a sua enxada e o peito descoberto, amesquinhára e derrubára dos seus pedestais os Hercules e herois de todos os tempos, e profeticamente apregoára que era chegado o tempo de converter as espadas em charruas.
Após as hesitações do primeiro momento, a guerra, sem embargo da largueza e ferocidade com que vai devastando a terra, sentiu-se vencida e aquela mesma futilidade, aquela mesma maldição, desgraça e estéril crueldade que anteriormente a deshonravam e lhe lavravam sentença de proscrição no conceito dos homens empenhados em nos libertarem dos seus trágicos horrores.
Fossem quais fossem os canhões que tivessem de orgulhar-se de soltar o último grito de morte, vencida estava e está aquela espécie de civilização que nos conduziu a esta catástrofe infernal e a preparou e pretende justificá-la. Póde essa civilização restabelecer-se da desordem em que agonisa e, cobrando ânimo, restaurar cidades, oficinas e governos, com todos os seus enganos, traições e angústias, com todas as suas fadigas, prazeres, ruins ambições e opressões; póde, claudicante e ignorando a própria miséria, continuar incerta e cega na jornada dos seus muitos e lúgubres progressos até de novo naufragar na imensidade dos seus inumeráveis desastres. Mas acordou um inimigo que não lhe perdoará; despertou a consciência das suas terríveis enfermidades, e com ela descerrou a visão de reinos de liberdade, de amor e de simplicidade que fascinam. Após a guerra, o mundo será outro, senão de facto, porque os factos são lentos em render-se, ao menos pelo sentir que é tenaz e seguro nas conquistas.
Porque, na realidade, esta guerra não foi apenas a conflagração dos poderes da terra, por tremenda que essa conflagração nos pareça; não foi unicamente um incidente histórico da expansão das raças, ainda que muitas envolvesse e apaixonasse. Foi muito mais do que isso, e acima de tudo isso, um acto de contrição dos erros do nosso desvairado coração, por muito distante e obscuro que pareça o seu domínio sôbre o tumulto dos exércitos; mais do que desengano e desilusão de uma traiçoeira paz e ventura, foi o castigo da confiança em fôrças mentirosas, foi um profundo peccavi cuja expiação sofremos no mais angustioso dos transes e cuja absolvição temos de procurar em um mundo fundado em uma outra alma muito diferente daquela, por demais corrompida, a que loucamente nos haviamos entregado. Outras aspirações, outras crenças e todo o seu modo de ser externo terão de nos inspirar para nossa fortuna e alegria. Muita coisa que criamos morta ha de resuscitar; e muita coisa que supunhamos eterna ha de desvanecer-se para sempre.
Revisão de valores
O facto mais notável da guerra nos mezes, já longos, por que se tem dilatado, não é de certo nem a novidade da tática e da estrategia, nem as subtilezas e primores dos engenhos de matar, que eficazmente aproveita e emprega com éxito brilhante, nem o calibre dos canhões, ou a rapidez dos movimentos, ou a audácia e artes dos que voam nos ares e se perdem nas nuvens tão facilmente como navegam por baixo das ondas e se ocultam nas profundezas do mar. Tudo isso é muito curioso, sem embargo, para as imaginações infantis, mas difere do que antigamente se fazia apenas naquelas minguadas proporções em que os brinquedos das lojas de Paris diferem dos que alegravam as mocinhas de Corinto antes de Cristo vir ao mundo. As jornadas de Joffre em automóvel não serão cousa muito diversa no carácter e conseqùências das que na mesma Galia, igualmente insubmissa e ardente, algum dia foram feitas pelas legiões de Cesar com seus estupendos pulmões aquecidos a trigo e centeio, e em certo modo sobrepujando aos pulmões de aço nutridos de essências explosivas que hoje repetem e acrescentam as maravilhas de outrora. Mais molas, rodas e engrenagens fomos nós capazes de ajustar e pôr em movimento, com espanto das multidões ingénuas e alegria e proveito, não exíguo, dos fundidores e capitalistas e fabricantes, possuidores de privilégios registados e possuídos por uma febre e uma impudência de especular e ganhar tão despejadas e poderosas que não carecem de registo, nem de garantias especiais do estado, para ser ignominiosa e funestamente soberanas. Mas no final, apezar de toda a complexidade em que nos embrenhámos, não ostentamos ambições e talentos superiores aos muitos e famosos que fizeram a guerra quási exclusivamente fiados na fôrça do seu braço; e nem tão pouco consagramos as proezas e chacina a fins mais nobres do que aqueles de estreme e insaciável cobiça que exaltaram os generais de outras eras. Como guerreiro, o mundo é o que sempre foi desde que se conhece história, um assassino cruel e sordido.
Será mesmo um pouco mais vil. Se neste capitulo da vida social houve alteração de valores, foi toda em proveito de aptidões degradantes. Com uma guerra feita a poder de submarinos, trincheiras e espiões, a astúcia, a dissimulação e a habilidade de ferir sem correr risco de ser ferido tomaram em larga extensão o logar que era ocupado pela coragem, pela firmeza de ânimo, pela decisão, pela energia, pela grandeza e lealdade da luta a peito descoberto. O carácter de negócio, conta, e cálculo e previsão, aliás de supremo alcance, apagou muita beleza da imprudência, da ousadia e do desprendimento. «As batalhas não são já o heroismo espetaculoso do passado», disse um general celebre pelos seus escritos, Homero Lea. «Os exércitos de hoje e os de ámanhã são uma sombria máquina gigantesca destituida de heroismo melodramático... uma máquina que leva anos a formar em suas partes separadas, que leva anos a uni-las em seu conjunto, e que leva anos para funcionar doce e irresistivelmente». O mais seguro dos combates modernos é obra de trevas, um requinte de traições e de surprezas, uma mecânica anónima, acautelada e perversa, que raro consente um gesto de generosa magnanimidade, raro conduz a revelar quem ofereça com uma clara abnegação a própria vida, quem se inflame procurando dar a morte ao inimigo da sua pátria e da sua crença. Entre a guerra moderna, intima e exteriormente mascarada de couraças, e a guerra dos tempos heroicos, fundada na fortaleza do ímpeto, ha a distancia que vai de um arrebatamento a uma cilada, de um problema a uma oração, e de um negócio a um sacrifício. Sempre a ganância, a soberba, a perfidia, o ódio e a baixeza andaram na guerra involtos e confundidos com a nobreza e a isenção; é certo. Mas a influência relativa do valor de cada um dêsses diversos elementos modificou-se em nossos dias em prejuízo da glória das batalhas. O vulgar e o ínfimo prevalecem. Até nisto teria havido a insinuação de um certo materialismo que invariavelmente prefere a torpeza lucrativa às contingências de uma franca e determinada honestidade.
Isso, porêm, são cambiantes superficiais que não atingem a essência da guerra, pois esta nos seus aspectos fundamentais, em galeras ou em couraçados, com catapultas ou com canhões de 42, continua a ser a mesma multidão de dedicações e de abjecções, a mesma jornada da honra escoltada de infâmias, em regra mais rendosa para a ignomínia do que gloriosa para a dignidade.