Ferido na guerra o socialismo, gravemente ferido pelas suspeições que o desprestigiam empanando-lhe o resplendor de mensageiro humanitário, amesquinhado pela insuficiência da aspiração que o alenta e acusado de intimidades manifestas com o despotismo, de que se revelou amigo e instrumento dócil, havendo «quebrado a espinha dorsal», nos termos em que exprime o seu desastre um publicista cujo diagnóstico tem corrido na imprensa—e sendo o socialismo a mais scientífica das concepções de governo e a mais engenhosa arte de governar os homens e os trazer contentes, com êle caem por terra e se desfazem volumosas bibliotecas de estudos e teorias, qual delas a mais subtil, complexa e eficaz para dar a abastança, a felicidade e a posse de todos os bens do corpo e da alma. Se é grande e edificante a humilhação do orgulho militar, frustrado na sua omnipotência pela aversão dos povos, não é menor nem nos ensina menos a humilhação do orgulho scientífico e filosófico que com êle se emparceirára em uma só jactancia e o apoiava e instruia. A Alemanha afrontava a terra inteira com o seu saber, tão arrogante, poderoso e altivo como as armas com que ameaçava levar diante de si e sumir nos arrebatamentos invencíveis da sua cultura as nações e as gentes de todo o globo. Arvorou-se em empório de todo o saber e de todo o pensar. Só dali nos viria essa mercadoria preciosa, e porventura excessivamente a procurámos em suas terras e a pagámos por exagerados preços.

De facto, nunca se viu um povo tão bem preparado com aquilo que a razão pode facultar-nos, senhora do mais profundo conhecimento das forças em acção no universo. Nunca ninguem penetrou tão lucidamente os segredos das coisas, nunca ninguem soube tão completamente as suas qualidades, e nunca ninguem as aproveitou em igual extensão e com mais minucioso e sábio metodo. A preparação militar da Alemanha, tão falada e tão gabada e temida, era apenas uma das faces da sua preparação em absoluto. Estava preparada militarmente, como preparada estava socialmente, nas escolas, nas instituições, no comércio, nas oficinas, sôbre tudo nas suas oficinas. Era um prodígio sem precedentes, um inaudito fenómeno de previsão, de ordem, de atenção, compreensão e satisfação de todas as necessidades, das maiores às mais pequeninas, de antecipação de todos os confortos, de extremo desenvolvimento de toda a capacidade mental, de toda a riqueza económica, de toda a fôrça concebivel e possivel dos indivíduos e das comunidades. E nada disto, que era e é um assômbro, impediu que o mundo inteiro, ou pouco menos, se revoltasse contra ela, lhe abalasse o edifício formidável, e para o fazer se sujeitasse ao maior e mais angustioso dos sacrificios.

Imaginou a Alemanha que o mundo se revoltava contra a sua grandeza porque, incapaz de a atingir, a invejava e odiava. Mas na realidade apenas se revoltou contra a natureza meramente material da sua grandeza. Foi isso que êle odiou, foi isso que o ofendeu e fez lançar no combate, incitado por uma vaga mas impetuosa intuição da urgência de certa necessidade de humilhação do orgulho da razão, da sciência, da filosofia, e das vaidades, e bastas vezes inanidades, das suas multíplices traduções práticas.

Fabricára a Alemanha robustissimos animais com todos os merecimentos de presa, de actividade e de presteza, que podem competir a uma esmerada animalidade. Mas o que esqueceu e o mundo pedia, foi criar homens com todas as qualidades de liberdade e bondade que o coração não dispensa. O resultado será que, levado o conflito à agudeza em que de perto o sentimos, ficámos desconfiados para largos anos, provavelmente para largos séculos, de que aquelas escolas, aqueles laboratórios, aquela sciência, aquela filosofia, aquelas armas, aquela disciplina, e toda aquela ordem material, intelectual e moral, de uma tenue moralidade sem nobreza, que admirámos, copiámos e nos era afiançada como a última e definitiva palavra da civilização, serão bem pouco, os míseros vencidos de uma outra civilização muito mais ingénua, muito menos sábia, muito menos preparada, meditada e armada, mas apaixonada de liberdade e amor, muito mais cristã, numa palavra. E a glória imarcescível desta civilização confundiu totalmente o orgulho daquela outra, inconsistente e fraca, embora erguida em dourados baluartes.

Facto singular e notável—há muito a Alemanha se queixava de pobreza de homens públicos e diplomatas; até mesmo não estava segura de abundar em capacidades militares. Isso diziam, sem reservas, entre os seus, os que mais autoridade e experiência tinham para o afirmar, e isso era confirmado pelos estranhos que estavam em circunstancias de conhecerem a situação política do Império; e isso se acentuou com uma evidência concludente nas negociações que precederam a guerra e em todas as que se lhes seguiram, revelando da parte da diplomacia alemã uma incapacidade suma, ao passo que a Inglaterra ostentava nas mesmas diligências uma pleiade de homens públicos a par do seu passado e da sua fama, em tudo à altura das dificuldades assombrosas da conjuntura, e a França e a Russia nada lhe ficavam devendo em demonstrações brilhantes de inteligência e carácter daqueles que conduzem os seus destinos, quer nos campos de batalha, quer de portas a dentro das secretarias do Estado.

Parece que toda a sciência alemã, com a exactidão matemática dos seus apurados cálculos e processos, abandonou ou ignorou qualquer factor essencial, e por isso foi incapaz de criar homens nesta inteireza, equilibrio e beleza de faculdades que só o latino nas suas tradições, mesmo negligentemente cuidadas, sabe produzir e produz com uma expontaneidade, com uma naturalidade que são maravilha e a mais solida presunção da sua eternidade. Aqueles que jámais descreram das humanidades contra a sciência, que o mesmo é dizer da vida contra a mecânica, da ordem moral contra a ordem material, da dignidade humana na sua plenitude contra o seu rebaixamento em um simples valor económico, renovaram a fé entre as vicissitudes desta guerra, e é bem de crer que vão privar o germanismo do lugar que usurpara às humanidades, e tem de lhes restituir, na educação das novas gerações.

Sciência era ainda, e na derrota da sciência vai envolvida, toda aquela psicologia entrincheirada em fortalezas históricas que havia de justificar a guerra, o militarismo, e a arquitectura social e política que lhes convem. E respectivamente os sonhos de paz eram utopia, romantismo, sentimentalismo, negação do espírito scientífico, filosofia da cobardia, desgraça e atrofia das raças que os deixassem prevalecer e só pela guerra alcançariam manter a energia.

A própria guerra se encarregou, porêm, de desvanecer toda a velha lenda da necessidade e benefícios das guerras.

No primeiro ímpeto da insânia em que se precipitou, foi como uma pesadissima nuvem que escurecesse e dissipasse todas as esperanças de um mundo para sempre livre de batalhas sanguinárias, tal qual o viamos já próximo, ditando a lei do alto dos tribunais de paz e apregoando o advento da idade de ouro pelos profetas e apóstolos que nos convenciam e fascinavam. A persuasão que ultimamente se divulgara de que a guerra significava, àlêm duma acção crudelissima, um negócio péssimo, a grande ilusão; toda a erúdita e rigorosa analise que reduziu a guerra a uma futilidade, quando não era puramente a cobiça sordida e cega dos que mandavam e não tinham medida nem lei em suas ambições; essa aurora de tempos novos pareceu escurecida para não mais brilhar, quando os primeiros fumos dos canhões atoldaram.

Desenganassem-se os ingénuos, pensou-se; a guerra era condição imprescindivel e insubstituivel das sociedades humanas e, por melhores que fôssem as razões e o sentimento que a condenavam, mais podiam os instintos que a alimentavam. O presente era a demonstração clara da subsistência dessa doutrina de morte.