Hoje, os exércitos que por suas paixões e crenças cobrem de sangue a terra e sacrificam milhões de vidas, clamam alto que combatem pela liberdade, pela independência das pequenas nacionalidades, pela aniquilação do despotismo militar e seus consortes e derivados, pelo reino do cristianismo entre os homens. É a rehabilitação total do espírito que inflamou a Revolução Francesa; é a justificação ardente e cara do idealismo político e religioso amaldiçoado e acusado de sentimentalismos mórbidos e por demais esquecido e atraiçoado; é a ressurreição e louvor de todo êsse romantismo brilhantemente e exuberantemente fecundo, que afinal, através de todos os seus fulgores e errores, significou com uma eloqùência inaudita o descontentamento do império da sordidez na humanidade, a visão de sociedades melhores e de almas mais elevadas do que aquelas muito mesquinhas e imperfeitas que dolorosamente nos dominavam e turbavam—dêsse romantismo que, em obras de génio, foi acto de Fé, Esperança, Caridade e Beleza, por vezes louco mas jámais vil.

Por essas crenças que há um século cobriram de vítimas a Europa e que afadigamente, desde a reacção de 1870, renegámos e esquecemos, morrem hoje alguns milhões de soldados. Um incidente histórico que da capacidade militar da Prússia fez a lei do mundo culto, corrompendo o senso moral e político dos povos estranhos e pervertendo aqueles mesmos que lhe deram causa, interrompeu a civilisação iniciada pela Revolução Francesa, fundada nos seus evangelhos e durante oitenta anos conquistada passo a passo, heroicamente, entre mil desastres e infinitas penas. Fecha-se agora o período de quarenta anos de reacção.

Á parte condições técnicas e a magnitude de uma organização de fôrças militares que o industrialismo moderno sabiamente aparelhado produziu e ostenta, a situação do principio do século XIX e a do principio do século XX inteiramente coincidem. O impulso íntimo não mudou; apenas se encontra robustecido pela experiência recente e aturada e tambêm pelo desengano da conveniência e insolência do despotismo armado a primor e acautelado com talento e saber, mas nem por isso mais humano, antes muito mais brutal e pedante do que o absolutismo anémico, mais estúpido e senil do que cruel, que pelas côrtes apodrecidas da Europa a Revolução Francesa desapiedadamente combateu e derrubou.

Escutemos o que a Inglaterra nos diz. De pronto compreenderemos para onde caminhamos, para onde ela nos quer levar e nos leva, porque nesta cruzada, evidentemente, vai na frente. Se não foi a sua espada mais poderosa, foi de certeza a sua consciência mais penetrante. O ódio alemão não se ilude; apontando apoplético à Inglaterra, aponta ao inimigo.

Pela palavra dos seus sacerdotes mais venerados, sem duvidar da vitória nem um só instante, préga a guerra santa. «É uma batalha de ideias e de ideais», diz-nos o dr. Clifford, um velho, que foi um dos mais eloqùêntes adversarios da guerra da África do Sul e é há cincoenta e seis anos pastor protestante de uma igreja de Londres. «Krupp póde fazer armas, mas não póde fazer homens. Estes professores de chacina, prégadores da barbaria como um dogma, estes homens que se apoiam em bases scientíficas e advogam a ruína das catedrais e o terror dos não-combatentes, homens, mulheres e crianças—estes homens trabalharam durante quarenta anos e é o resultado da sua obra que nós combatemos». E o reverendo Orchard, da King's Weigh House Church, moço de talento e justa fama, por sua vez nos diz que «se há qualquer cousa vital na nacionalidade e no império, não há derrota que os (aos ingleses) esmague. A vitória não será decidida pelas massas dos homens ou pelo tamanho dos canhões, mas por uma certa concepção da nacionalidade e do império. Os impérios morrem, não por um perigo externo, mas porque o coração do império não é suficientemente forte para lhes sustentar o corpo». «Podem os homens queixar-se de que a ética cristã é frouxa, mas não podem tirar-lhes do sangue a influência cristã».

«Não somos uma nação cristã, mas não podemos negar o nosso amor por Cristo». «Ha certa essência de cristianismo no sangue inglês» que lhe deu domínio sôbre os outros povos, sentimento de justiça e magnanimidade, que o faz sorrir no seu humorismo à contradição das cousas resolvida e conciliada na unção de uma perene bondade.

E a filosofia e a história, o meditado conhecimento dos factos, confirmando a intuição do sacerdote, como êste confirmára as afirmações do político que pela bôca do primeiro ministro da Inglaterra assegurará ao mundo que «não se tratava de um conflito meramente material, mas tambêm de um conflito espiritual», não nos induzirão em sentimentos diversos dos que as igrejas e as chancelarias nos insinuam. O pensador fortalecido por aturado estudo e acreditado por trabalhos valiosos que é Benjamim Kidd, resumindo as conclusões dos mestres da sua classe, julga que a Alemanha só poderá ser vencida por «um idealismo mais alto e uma crença e uma determinação que sejam mais fortes do que aquelas que nesta guerra a sustentam».

O ideal que anima a Alemanha moderna «representa a mais antiga doutrina política do mundo—a doutrina do estado predatório como encontrou a sua expressão histórica mais subida no império da Roma pagã. Exprime, em resumo, a negação dos princípios característicos com os quais os progressos e liberdade do Ocidente se identificaram desde que o mundo antigo caíu. Mas exprime essa negação protegida com sciência, recursos e organização, como Roma nunca possuiu».

«Todavia, a história da civilisação ocidental durante dois mil anos não é senão a história do esmagamento e pulverização desta doutrina, em toda a fórma por que ela procurou encorporar-se no estado aliada ao poder militar». A significação subjacente de todas as fórmas do progresso no Ocidente durante vinte séculos é que êsse progresso ergueu a concepção do direito a uma altura que é universal, «Fez o direito independente e superior a todos os interesses do estado, seja qual fôr a pretensão ou missão em que possam basear-se, seja qual fôr a escala em que possam representar-se, e seja qual fôr a fôrça em que possam apoiar-se». A doutrina oposta, reclamando a superioridade do estado sobre o direito, foi sempre o desafio às lutas estupendas que constituem a história da civilisação ocidental, e sempre caíu sob o impulso de uma civilisação mais alta.

Cabem à Inglaterra as maiores responsabilidades na crise presente. A sua história e o seu domínio «fizeram da Grã-Bretanha a mais complexa psicologia política e a mais poderosa fôrça do mundo moderno. A natureza da sua fôrça escapa inteiramente à compreensão dos espíritos presos no absolutismo fechado das castas militares da Alemanha moderna. Foi ela que em contacto com o mundo durante séculos e nas suas humilhações e desastres, como nas vitórias de um império de 450 milhões de individuos da raça humana, aprendeu a grande lição universal—isto é, que há uma só raça, uma só côr e uma só alma na humanidade, posto que para o saber queimasse às vezes a carne. Foi ela que ergueu o sentimento da responsabilidade humana acima de todas as teorias dos interêsses dos estados e dos impérios». Foi ela que, por sua glória e fortuna da humanidade, amou, guardou e enalteceu com uma devoção invencível aquele «intolerável pêso da moralidade de escravos da ética civilisada» que Nietzsche flagelou; e foi ela tambêm que mais do que nenhuma outra nação, e esplendidamente, nos deu um exemplo inegualável dessa democracia que hoje proclama retumbantemente os seus incontestados direitos e há pouco não passava de «uma falência e uma vergonha», no conceito presunçoso e insolente dos administradores e senhores da «caserna besuntada de metafísica que fica para lá do Reno», segundo a sugestiva expressão de Eça de Queiroz, tão pitoresca como profunda e vagamente profética.