Há vinte anos, António de Serpa,—um talento culto, homem de superior e nobre capacidade, a que poucos mas os mais eminentes dos seus contemporâneos fizeram justiça e que o desleixo pátrio se apressou a esquecer,—escrevia um opusculo sobre «O Anarquismo».
Foi quase um escândalo. Comentado o propósito, antes da publicação, com o indignado pavor de muitos aos quais se figurava heresia monstruosa, mal se compreendeu e aceitou mesmo depois da publicação, quando se tornou possivel examinar as doutrinas que expunha em seus termos, aliás muito chãos e claros. O chefe de um partido conservador arvorava-se em advogado do mais perigoso pensamento revolucionário! Muita gente o imaginou e lamentou, sem poder explicar êsse estranho desvairamento. O estudioso e observador da evolução política, que outra coisa não foi nesse incidente o antigo ministro do Estado e o mais moderado dos ministros, o mais avesso a radicalismos, verificando o desenvolvimento das doutrinas e referindo-as aos factos e às lições da experiência, determinando posições, relações e conseqùências, desapaixonadamente e lucidamente, com inteiro conhecimento de causa e aturada reflexão, em um espírito de pura justiça, perfeita sinceridade e elevado idealismo, êsse passava ignorado das multidões que apenas o tinham visto e compreendido nas secretarias do Estado, referendando decretos de nomeação de funcionários públicos. Entre o antigo e o novo homem a distância era grande e a incompatibilidade profunda, e os que haviam servido e amado o ministro, não estavam dispostos a seguir ou aplaudir o pensador, a quem por última homenagem reservavam todavia certo respeito, aquilatando-lhe o valor pela posição social que ocupava e não pelos merecimentos que o engrandeciam.
Nessa conjuntura, Antonio de Serpa encontrou, porêm, um amigo e contraditor notavel, de prodigiosa fecundidade, saber e vastidão de espírito, grande autoridade moral e intelectual, que foi, é, e está para durar—Oliveira Martins.
A êsse tempo, era êste o adepto e propagandista do muito falado e querido socialismo do Estado, grande progresso fabricado nas universidades da Alemanha, fértil em promessas de renovação das sociedades, grande organizador e disciplinador. O retardatário seria Antonio de Serpa com o seu liberalismo dissolvente, todo penetrado de negações. Vieram para a imprensa as discussões dêsses dois ilustres antagonistas, aplicando as suas teorias ao regimen económico, e não foram sem influência nas vicissitudes políticas e na administração pública dessa época e nas que até nossos dias se lhes teem seguido. O socialismo venceu, profundamente penetrou e se mantem na constituição política nacional, embora o mais das vezes se revele tão pobre de ideais como incapaz na aplicação. Quase só temos a agradecer-lhe a boa vontade, perdoando-lhe os agravos.
Se hoje, porêm, relermos o opusculo de Antonio de Serpa e considerarmos as suas simpatias pela aspiração essêncial do anarquismo, e a coragem com que, sem receio das interpretações equivocas, veiu em defeza dos seus principios fundamentais, aquilo que algum dia levantou rumor de blasfémia e escândalo não se nos afigura mais do que uma ténue apologia de verdades quase axiomaticas, uma vaga e frouxa inclinação, timida e até nem sempre isenta de injustiça.
Outros e inesperados aspéctos se nos deparam.
Ao fim destes vinte anos, o anarquismo, que com fortuna vária insistentemente proseguia no seu eterno duelo com o socialismo, reaparece-nos revestido de nova e resplendente armadura. Perante uma horrorosa fatalidade de que o seu inimigo é cumplice, descobre-lhe as deformidades e aponta-as á maldição dos povos. As munições dos exercitos converte-as êle em punhais terrivelmente agudos para quem as fabricou e emprega.
O principio da maxima liberdade social e política, e correlativamente a redução ao minimo dos poderes do Estado e das sujeições do govêrno político, isso que é na realidade o princípio anarquista na sua pureza, conseqùência lógica de toda a aspiração liberal que criou as sociedades modernas, avigorou-se na guerra com extraordinárias forças. A Revolução Francesa recrudesce exaltada em novas glórias e a sua bandeira de Liberdade, Igualdade e Fraternidade, que ha perto de cincoenta anos andava esfarrapada, escarnecida e vilipendiada pelos filósofos do absolutismo, pelos comandantes das casernas, pelos prégadores e ditadores dos parlamentos e pelos profetas da lei da luta pela vida, ei-la de repente restituida à sua unidade, beleza e caridade, reanimando em esperança as multidões prostradas pelas agonias, dôres e impotência que foram a obra sinistra dos seus inimigos.
O que não disseram da Revolução Francesa o imperialismo restaurado pelo prussianismo triunfante de 1870, pelo realismo literário inflamado pelo baixo materialismo que desnaturou e atraiçoou as teorias evolucionistas, e pelo positivismo, solicito demolidor de altares e de teologias, todo zeloso das coisas práticas do mundo?!... Liberdade, Igualdade e Fraternidade, idealismos e realismos, tudo eram utopias, doenças, fraquezas a que urgia acudir com a proscrição do sentimentalismo, levando de tropel toda a nobreza, e com a glorificação da cobiça e sensualidade, desdenhando de toda a obrigação de generosidade e pureza. Uns nasciam para mandar e outros para obedecer, dizia-se então; e todos para se banharem e deleitarem em um mar de infinita sordidez, cuja navegação o socialismo organizava com inexcedivel engenho e superior segurança para um alto e ponderado comércio de carregações de prosperidades, regalos, comodidades e mercâncias.
Nessa construção, era a Sciência que lhe animava e inspirava o impulso, emquanto lhe traçava os planos, libertando de toda a debilidade da Religião que arruinára, segundo ela cria, os edifícios de outras eras tenebrosas, barbara, nociva, perigosíssima superstição com sua fatal insânia de ascetismos, desprendimentos e estéril consagração ao que não é dêste mundo.