Ámanhã, finda a guerra, os povos que nela combateram e os estranhos que comovidamente foram testemunhas das suas vicissitudes, continuarão no seu trabalho, nas suas paixões, nos seus vícios e nas suas virtudes, como se lhes permanecesse intacto e sem alteração o carácter. Mas novos ástros se ergueram, brilham e lentamente iluminarão e penetrarão o mundo com a sua luz, e nele criarão inumeráveis vidas novas. O materialismo com todas as suas edificações e fortalezas afunda-se no occaso, e o idealismo, renascido das profundezas onde jazia sepultado, mas não morto, surge glorioso a revestir a terra desolada.
Ganhos e perdas
Os factos da consciência não esperam os feitos das armas para reconhecerem e declararem as suas vitórias e derrotas. Pondo em pouco as conseqùências militares e políticas da guerra, desenhe-se como houver de se desenhar a divisão da terra, reparta-se como houver de se repartir a distribuição da fôrça e dos canhões, muito antes disso e independentemente dos seus destinos e designios já as aspirações e crenças dos homens definiram e anunciaram tendências e propósitos que da guerra nasceram ou na guerra encontraram terreno propício, já marcaram no seu rol vencedores e vencidos, já proclamáram suas determinações inflexiveis.
Não são poucos, e sôbre tudo não são pequenos, os vencidos da conflagração tremenda em que o mundo se agita.
Dela sai já gravemente ferido, arrastado e vexado, perdida a corôa e desprestigiado, o poder magnifico do socialismo que durante longos anos fez prosélitos, adeptos, martires, herois, em torrentes, por milhões, apaixonou as multidões, dominou, convenceu e pôz ao seu serviço os reis e os sapientes, toda a grandeza e autoridade política e moral, o saber, a virtude e a fôrça.
Chamado a dar conta dos seus compromissos de humanidade, a dizer como, por que modos e até onde influia na felicidade dos homens e com a abastança assegurava a paz, a alegria e o amor do proximo, que invocára para base dos seus direitos e legitimidade dos seus triunfos, mostrou-se o companheiro e o aliado submisso de todos os despotismos e de todas as crueldades. Não nos poupou nem um golpe, nem uma lagrima, nem uma injuria; a todo o morticinio, a toda a opressão e a todo o insulto o temos visto associado, sem um lamento, sem um gesto de repulsão, escravo dedicado de um patriotismo todo constituido e só constituido de cobiças e odios, por completo desconhecendo o que seja e para que sirva a fraternidade, a magnanimidade, o respeito da liberdade estranha, todo o Decalogo. Doutrina de autoritarismo e de despotismo económico moralmente acanhada, reduzindo a vida a uma repartição de comodidades e a uma cevadeira de necessidades físicas e apetites meramente sensuais, o socialismo podia importar, e de facto importou, maravilhas de ordem, de previdência, de agasalho e bom trato, grandes contentamentos do estomago e grandes regalos, mas era uma mecanica que só considerava o corpo, deixava intacto isto que chamamos alma e, nada dizendo ao nosso coração, consentia-lhe que alimentasse a ruindade de sentimentos cujas furias a guerra soltou; até mesmo assistiu, mais do que indiferente, complacente, senão contente, à prolongada cultura dessa ruindade, que as obsessões de grandeza política reputavam um auxiliar eficaz de seus desvairados sonhos.
Na verdade, o socialismo, sendo reconhecidamente e de antiga data um despotismo, a abdicação voluntária ou forçada da liberdade individual na omnipotência do estado, não tinha razão para desamar quaisquer despotismos seus irmãos; tudo poderia sentir, sincero e coerente nas suas afirmações, menos a palavra liberdade.
Mas a liberdade não lhe perdoava, jámais lhe perdoou, cedo começou a apontar-lhe e a exprobar-lhe a infidelidade aquilo sem o que a vida é pura miseria, embora dourada; e agora, vendo-o arregimentado com o despotismo e a opressão militar, passa-o ao bando das traidores e herejes. As sombras dos Proudhon, dos Bakounine, dos Tolstoi, dos Réclus, como a figura profetica de Kropotkine sorriem tristemente à desgraça presente e à ruina, mais do que nunca confiadas em que só a gloria da sua crença poderá resgatar-nos da mortificação. Quantos apregoavam que os governos são essêncialmente um mal, seja qual fôr a fórma em que pretendam ocultar seus maleficios, quantos abominaram a coacção e por a abominarem foram crucificados e sofreram nas enxovias e na perseguição e no desprezo dos homens, quantos só esperaram a felicidade das sociedades e a redenção das suas penas fundando-as no imperio da consciência moral isenta de toda a violência e constrangimento, sentem renovada e avigorada a sua fé e exaltam-se na vitória que lhe facultam as calamidades, espalhadas pelos seus adversarios das alturas dos seus tronos e dos seus tribunais, semeando a ferro e fogo a fome, a morte, o luto e a desolação, com uma impiedade inflexivel, obedientemente e brilhantemente servida pelo esforço irado dos exércitos e pela soberba enfatuada e corrompida das magistraturas. Filho legitimo do liberalismo dos nossos avós, o anarquismo, na sua alta expressão filosófica, que não nas suas aberrações criminosas, vê de súbito a sua bandeira erguida e iluminada de uma nova luz, flutuando sôbre o naufrágio e confusão da inconsistente e ilusória bondade do socialismo.
Nem para nós, na estreiteza da nossa descurada mentalidade, é novo o problema. Ha muito lhe ouvíramos o rebate a que responderam as imprecações impacientes daqueles a quem êle surpreendia, pondo-lhes em risco bens e grandezas.